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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Quem o visse falar assim e mesmo na tribuna, não suporia que toda a sua educação e instrução se fizera nos comícios, clubes eleitorais e assembléias políticas; e fora neles que aprendera desde as boas maneiras até finanças, desde noções de aritmética até literatura — o bastante para ser uma notabilidade política, com influência e vencendo todos os obstáculos à manutenção de sua situação. D. Edgarda explicou melhor por que não tinha ido ver a famosa atriz:

— Numa anda muito atrapalhado... Muito trabalho!... Conferência com este e aquele... As coisas andam tão turvas...

— Turvas! Qual turvas, minha senhora!

Sentou-se melhor no banco e continuou com toda a simplicidade:

— A senhora quer saber de uma coisa... Olhe, minha senhora, vou lhe contar uma história antiga, mas que tem muito ensinamento.

— Para a política?

— Para tudo, minha senhora. Para tudo! Quer ouvi-la?

— Pois não, Senador!

— Um negociante voltava de longe, onde fora comerciar e trazia no navio em que estava embarcado toda a sua fortuna. De repente, arma-se uma tempestade; e, diante da ameaça do naufrágio, o negociante promete que se se salvar mandará rezar em todos os altares da primeira igreja que encontrar, missas em ação de graças aos santos respectivos, iluminado a igreja completamente. Feita a promessa a tempestade amainou e é salvo. Chegando em terra, cumpre a promessa. Vai assistir às missas e repara que um canto escuro da sacristia não tinha vela. Chama o sacristão e pergunta por que não acendera o círio ali. O homem responde que ali era o lugar do diabo. Acenda assim mesmo, ordena o negociante. Foi feita a coisa e ele continuou a sua viagem. No meio do caminho foi roubado pelos salteadores que o deixaram, por muito favor, prosseguir a viagem. Desanimado o pobre seguiu; em meio à jornada, porém, encontrou um cavaleiro que lhe perguntou o nome. Respondeu, e o desconhecido, sabendo que havia sido roubado disse: “Não se incomode, venha comigo.” Daí a pouco estava senhor de sua fortuna. O desconhecido indagou: “O senhor sabe quem sou eu?” “Não”, retrucou o negociante. “Sou o diabo”, disse o outro; e desapareceu.

— Compreendeu?

— Pois não, Senador — fez a moça entre um sorriso.

— Eu, minha senhora, não deixo nunca um canto sem vela; e creio que Cogominho faz o mesmo.

Gerpes não pode continuar a expor pitorescamente a sua filosofia política; outro prócer da República veio tomar o bonde ao lado do colega.

— Como vais, Gerpes?

— Como vais, Martinho? Não conheces D. Edgarda?

O novo passageiro pôs o pince-nez e olhou a senhora com um frio olhar perscrutador, olhar de médico, de médico de consultório freqüentado, e respondeu:

— Não tenho a honra...

— D. Edgarda, esposa do Deputado Numa.

— Ah! Bem!... Já sei que seu marido vai falar.

— É verdade — disse a moça.

— Não convinha alongar o debate — observou Gerpes.

— É... O Bastos quer mostrar que não são só os deputados do Estado dele que o defendem, mas o partido inteiro.

Abriu o Diário Mercantil e correu ligeiramente os olhos sobre a folha.

— Leste o artigo do Fuas Bandeira? — perguntou Gerpes.

— Li.

— Definiu-se.

— É um aviso seguro.

Nada mais disse, encolheu-se, pondo-se a ler o jornal que desdobrara. Martinho era uma das culminâncias da política republicana. Não era só a sua fama de talento e a grande reputação de clínico que lhe davam um grande prestígio; concorria também para isso a estranheza de suas vidas e dos seus gostos.

Alcandorado em um casarão, vivia sibaritamente isolado, cercado de livros, de curiosidades e de sapos. Tinha uma coleção de batráquios de todas as regiões do globo. sapos gigantes, sapos minúsculos, sapos com chifres, sapos com cauda, até um imenso e desmedido sapo, remanescente de uma idade morta, adquirido por alto preço a um paleontologista americano.



(continua...)

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