Por Franklin Távora (1879)
O seu desejo de vingança, há pouco tão cru e exaltado, esfriou inopinadamente; foi substituído pelo terror. Os papéis trocaram-se. Era ela que estava agora nas mãos do marido. Ainda quando Maurícia referisse o que vira, ninguém acreditaria em suas palavras; Bezerra já não estava no mesmo caso; tinha consigo uma prova material da sua culpa; podia esmagá-la, atirando simplesmente o papel sobre a mesma, como se esmaga uma cobra, atirando-se-lhe uma pedra sobre a cabeça.
Passados alguns instantes, disse consigo:
— Mas, quem sabe se não está nisto a minha salvação? Quero crer que esteja; não é possível que Bezerra, lendo semelhantes revelações de um coração altamente apaixonado, queira ainda que eu vá viver com ele. Virá, talvez, à terra, o formoso castelo que acabo de erigir para Virgínia; mas o meu infortúnio terá encontrado o seu termo. Entre mim e o meu indigno marido, ter-se-á levantado uma barreira eterna, que ele não transporá nunca mais. Estarei livre, embora com uma nota, que o tempo há de apagar.
Como se tais idéias lhe ocorressem por intuição sobrenatural, Maurícia sentiase reanimada. Onde um momentos antes estivera a sombra da morte, estava agora suavíssimo bálsamo de consolação tão grande que apagou toda a sua mágoa.
Chegou ao espelho, alisou o cabelo e encaminhou-se com Virgínia para a porta.
Já a vinham chamar por parte de Albuquerque.
Não foi sem pronunciada palidez que entrou na sala. Estavam aí, sentados ao lado de D. Carolina, perto do sofá, Albuquerque e Bezerra, e ao pé de Alice, junto da porta que dava para o terraço, Paulo e Martins. Este havia chegado um minuto antes de Maurícia entrar.
Quando ela apontou na porta, Bezerra levantou-se e foi pressuroso ao seu encontro. Fazia três anos que a não via. Abraçou-a respeitosamente diante de todos. Maurícia sentiu-se, então, enfraquecer novamente. Conheceu que estava ameaçada de dobrada desgraça; A sua prevenção fora enganosa. O seu tirano não se deu por achado. Isto queria significar que aos seus olhos ela havia de ser inevitavelmente vítima de dúplice vingança.
Bezerra estava pálido, mas mostrava-se satisfeito. Tinha risos que à sua mulher se afiguraram infernais. Raras vezes a hipocrisia representou melhor o seu papel.
Maurícia, entretanto, no meio do turbilhão de idéias contrárias que lhe enchiam a imaginação, não podia esquecer-se de Ângelo. Quando seu marido a abraçou, entre expansivo e reservado, ela teve desejos de lhe fugir. Pareceu-lhe que o direito de aconchegá-la ao seio já não lhe pertencia, e tinha passado ao homem que se mostrava louco de amor por ela. Aquele era indigno de seu corpo; estava ao nível da Janoca da Januária, perdia-se abaixo dos seus pés.
Compreendendo que Bezerra premeditaria contra o seu rival desapiedada vingança, começou a sentir por este tormentos imaginários. Jurou morrer ao lado de Ângelo, caro objeto de seu exclusivo amor. A presença do marido, longe de a prender na sala, apartou-a em espírito para fora desse estreito âmbito onde mal cabia as paixões despertas. Ela ia em busca do bacharel, nas asas de uma saudade imensa. Parando no ponto onde uma hora antes se tinham separado, perguntou a si mesma, no deserto, que testemunhara o seu colóquio: “Onde estará ele? Que pensamentos terá agora?”
Ângelo, entretanto, volvera ao Recife, levando em sua alma a vaga impressão da felicidade, que o embriagara com alguns momentos, e que era o resultado das palavras que ouvira de Maurícia, do amplexo que parecia tê-la ainda aconchegado ao corpo, do beijo que ele sentia perfumar-lhe os lábios.
Chegara cedo à estrada, e não saíra mais.
Estava entregue à sua embriaguez, pensando na felicidade que devia trazerlhe a vida com essa mulher adorável. Este pensamento não era constante. Em seu espírito, davam-se mutações rápidas; Tão depressa passavam aí cenas felizes, como dramas desgraçados. Bezerra não lhe saía da cabeça. Mais de uma vez, afigurou-se-lhe seu sonho despedaçado entre os dedos dele, como as nuvens cor de rosa se despedaçam não raro entre as pontas dos altos picos.
Num desses momentos, um carro parou à porta do sítio, e logo depois Martins entrou no aposento do advogado.
— Sabes donde venho?
— Julgava-te em casa.
— Fui ao Caxangá. Tinha ajustado com Bezerra encontramo-nos no engenho. Ângelo empalideceu.
— Parece que não gostas do Bezerra. Pois olha, deves mudar de opinião, como eu mudei. Andava prevenido, mas convenci-me da minha sem-razão.
— Estiveste com ele lá?
— Estive; Virgínia casa-se no sábado, e Maurícia manda convidar-te para o casamento.
Ângelo mal pode acreditar nestas palavras.
— Pois não é o melhor. Queres saber o melhor? Maurícia vai viver outra vez com o marido. A separação era uma coisa que me trazia descontente. Eugênia vivia desgostosa e envergonhada. Mas que tens?
Ângelo sentira uma comoção mortal.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.