Por Franklin Távora (1876)
A resposta que a esta pergunta deram as mulheres foi o continuarem o terço alguns minutos antes interrompido, resposta que há de perdurar nas tradições populares, como um traço característico da firmeza e do valor das gentes do Norte naqueles tempos de grandeza de animo que raro aparece hoje.
— Ah ! estão rezando. Fogo, Manuel Corisco. fogo, Mulatinho, fogo, Trovão !
De repente um clarão afogueado inundou o terreiro, e indicou que a ordem do capitão do bando ia ser prontamente executada.
— Depressa, depressa — gritou Joaquim.
— Enquanto o diabo esfrega um olho, o mocambo fica torrado, e as caiporinhas são nossas —respondeu José Trovão, chegando a chama do seu facho a um montão de cangalhas, tripeças, gamelas e outros objetos encontrados no alpendre, e que ele havia apinhado de propósito, para servirem de combustíveis, ao pé das quatro janelas da casa.
Esta operação reproduziu se na porta fronteira, nas portas e janelas laterais, no peitoril de madeira e nas toscas colunas que sustentavam de espaço a espaço o telheiro do alpendre.
Quando o espírito racional ultrapassa os limites que o separam dos instintos da fera; quando o homem deixa atrás de si, na sua marcha descendente, o animal cerval que bebe o sangue por natural fatalidade a que não pode resistir, não raro figura de protagonista de dramas que, como este, enlutam a história e envergonham a humanidade.
A porta principal tinha sido respeitada. Diante dela estendeu se e, elo chão, formando se em semicírculo, o bando dos salteadores, os quais ao espetáculo das chamas que do peitoril passando às paredes e destas à coberta, envolveram em poucos momentos a casa e formaram uma só chama, uma fogueira, única, gigantesca e medonha, só tinham infames graçolas e indecentes insultos para as vítimas. Sujos, maltrapilhos, nas mãos as facas nuas e os bacamartes sinistros, semelhavam, ao clarão da fogueira imensa, uma legião de demônios que só as crepitantes labaredas separavam dos anjos.
— Quando se resolverem a não morrer assadas na coivara, como lagartixas, abram a porta e saiam sem susto que não havemos de brigar — disse Joaquim.
O estalido da madeira, do barro, das telhas abafou em poucos momentos as vozes das mulheres.
— Que fazem, que não saem logo ? — perguntou o Mulatinho depois de alguns minutos de espera infrutífera.
— Venham para fora, raparigas — acrescentou o Trovão.
Ainda bem não tinha preferido estas palavras, quando a frente da casa vinha abaixo, atirando torrões abrasados contra as feras que, afrontando o pudor com expressões obscenas, assistiam, ébrios de ferocidade, à medonha representação.
— Parece me que as caiporinhas se escaparam — disse Joaquim.
A esta voz todos os malfeitores correram à porta principal sobre cujos portais descansavam uns restos de caibros incendiados.
Descarregando então os coices dos bacamartes sobre a porta, fizeram na em pedaços, e invadiram o estreito espaço aonde as chamas ainda não haviam chegado.
Ao mesmo tempo um grito, a que melhor se chamara o eco de uma angústia longamente recalcada e de súbito desprendida, dominando o estrondear do incêndio, veio ressoar no pátio.
— Minha mãe, minha mãe não morrerá no fogo !
Então viu se uma cena horrivelmente bela. Luísa, saltando por cima da caliça e dos enxaiméis abrasados, ganhava o pátio com Florinda nas costas, semelhando uma visão ígnea, fantástica e sobrenatural.
Os malvados, sem se podarem governar, voltaram um passo atrás, não tanto pela estranha e fugitiva aparição, como principalmente por verem no lugar ocupado, havia pouco, por aquelas contra cujo pudor a sua brutal concupiscência se aguçava, pequenos troncos carbonizados em torno da mesa sobre a qual ardia nesse momento última imagem.
— Diabo ! — bradaram com raiva concentrada os algozes, mais dignos de compaixão do que as vítimas.
— Todas mortas ! — acrescentou o Mulatinho com uns longes de pesar que acusava a malograda e lasciva esperança.
— Só nos resta uma — disse o Trovão, correndo em busca de Luísa, que havia caído quase sem sentidos no terreiro junto ao cadáver de Matias.
— Cá está ela. — São duas, são duas.
— Esta é minha — exclamou o Trovão, acercando se de Florinda para assenhorear se dela.
— Trovão do diabo ! — exclamou o Mulatinho com indescritível expressão. — Não vês que é uma defunta.
Florinda estava na realidade morta.
— Resta me a outra.
— A outra ? Não vês que o Joaquim já a tem em seus braços ?
— Há de ser minha, custe o que custar — redargüiu o negro.
— A outra é minha — disse um terceiro a cuja voz estremeceram irresistivelmente os dois bandidos.
Era o Cabeleira.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Cabeleira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16631 . Acesso em: 28 fev. 2026.