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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

A saudade, que o devorava, já não era essa tristeza lânguida e melancólica, que se entorna do coração com certa suavidade como o perfume de uma flor mirrada, e se espairece nos ares nas asas do devaneio como uma nuvem dourada pelos fulgores da aurora. Era o negrume carregado de uma noite pesada, muda e funérea; de uma noite toldada, sem luz de estrelas nem lampejos de harmonia, nem fragores de tempestades.

Era a paixão com todas as suas cruéis inquietações e anelos febris, com todas as suas sombrias apreensões no futuro, e suas doces e pungentes recordações no passado.

A tudo isto vinha-se juntar um sentimento de dolorosa compaixão pela sorte de sua querida companheira. Ah! quão sozinha, quão desamparada a havia deixado na solidão do lar quase deserto, entregue às angústias da saudade, como flor mimosa exposta a todos os rigores do sol canicular! Pobrezinha! a injusta prevenção dos pais de Eugênio, retirando-lhe sua estima e amizade, a privavam da única consolação que lhe restava, tirando-lhe até os meios de saber notícias do amigo ausente! Com que amargura não exprobrava a sua mãe no íntimo da alma aquele iníquo e desalmado procedimento! Como não o teria profligado, amaldiçoado mesmo, se não partisse de uma mãe, a quem respeitava e amava!...

Pelas suas Eugênio aquilatava as angústias de Margarida. Ele a via todas as tardes — e seu coração adivinhava — encaminhar-se para as paineiras do vargedo pálida e chorosa, com as madeixas revoltas e dispersas pelos ombros, como palmeiras a que o sopro violento da tormenta vergara o colo, derriçara os galhos e emaranhara os leques emurchecidos. Ali a via sentada largo tempo com os olhos fitos nos campos da fazenda paterna, triste como Eva exilada do paraíso, regando com as lágrimas as raízes daquelas árvores queridas, companheiras e confidentes fiéis das alegrias do passado e das amarguras do presente.

Entranhando-se nestas tristes imaginações Eugênio estoreia convulsivamente as mãos e o sofrimento lhe espremia do coração duas lágrimas, que o fogo do desespero lhe queimava nas pálpebras sem dar-lhes tempo a rolarem pelas faces, e a muito custo podia conter no peito um brado de blasfêmia e um ímpeto de revolta.

Cedendo, porém, ao peso de seu infortúnio o moço não ousava, nem tentava combater a paixão, que fazia a tortura da sua vida.

Sabia isso impossível; mas o seu espírito crente e religioso só julgava realizável a sua redenção por um favor especial do céu, pelo influxo da graça divina, favor que não esperava, nem ousava implorar, porque dele se julgava indigno; ou quem sabe? — tinha medo de ser atendido, e parecia-lhe que faltando-lhe aquele amor não poderia mais viver, faltar-lhe-ia o ar e a luz, e a terra e o céu se aniquilariam para ele.

Assim o infeliz moço agarrava-se à sua saudade e ao seu infortúnio, como o escorpião que rodeado de chamas se atraca à própria cauda, que o morde e que o lacera.

O abatimento e melancolia de Eugênio longe de desvanecer-se pareciam irse agravando com o tempo, fenômeno singular naquela idade, em que as dores da alma parecem dissipar-se com a mesma facilidade com que se evaporam as ligeiras névoas ao primeiro sopro das brisas travessas da manhã.

Entretanto, já quase um ano havia decorrido, e os padres começando a inquietar-se à vista do estado deplorável a que se ia reduzindo o pobre moço, entenderam que deviam lançar mão de meios mais enérgicos e positivos para debelar a paixão que não só o desviava do sacerdócio, como mesmo ameaçava levá-lo ao túmulo. Foi então que começaram as práticas e confidências íntimas com o padre diretor. A princípio e por muito tempo nenhum resultado tiveram, e o padre já desalentado quase desistiu da empresa. Suas palavras, conselhos e exortações não conseguiam produzir a menor mossa no espírito do mancebo, o qual revelandolhe sem rebuço o estado de sua alma, confessava sua fraqueza ou antes impotência para combater o mal que o assoberbava e às mais calorosas e eloqüentes objurgações do padre opunha um desanimado e glacial — não posso.

— Não posso! — dizia ele. — Bem vejo que tudo quanto V. Rma. me propõe é justo, razoável e salutar; quero fazer tudo quanto me aconselha; mas há uma força superior à minha vontade, um poder contra o qual vão quebrar-se todos os meus esforços. Não posso.

CAPÍTULO XVI

Mais um ano se passou empregado naquele inútil porfiar do padre diretor, que empenhara em vão todo o esforço e perseverança para arrancar o mancebo àquele estado de desânimo e abatimento. Este, não vendo outra solução senão a morte à sua cruel situação, abandonava indefeso o coração ao abutre da angústia, que o devorava.

Desalentados por fim os reverendos preceptores, deliberaram entre si e convieram em um expediente do qual esperavam pronto e seguro resultado. Escreveram ao pai do estudante fazendo-lhe ver o estado de melancolia e prostração em que vivia, e como apesar de todos os esforços por eles empregados a sua constante preocupação não o abandonava, continuando a mostrar-se inteiramente avesso ao estado sacerdotal.

(continua...)

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