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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Valentim da Fonseca e Silva era filho de um fidalgo português e de uma rapariga do Brasil, e teve o seu berço ou no Rio de Janeiro ou mais provavelmente na província de Minas Gerais, onde seu pai era contratador de diamantes. Foi levado por ele para Portugal, donde voltou órfão e ainda jovem, repelido pelos parentes, e trazendo por herança única o vício minhoto que sempre conservou na fala. Aprendeu no Rio de Janeiro a arte torêutica, e foi um arquiteto e um entalhador de primeira ordem. As igrejas do Carmo e da Cruz, a capela-mor da de S. Francisco de Paula e o chafariz do largo do Paço documentam o seu merecimento ainda hoje.

Devemos agradecer aos parentes do pai de Valentim o ímpeto de vaidade com que empurraram para o Brasil aquele pobre menino, que entre nós se fez um grande homem e que honrou a pátria com seu imenso talento.

O mestre Valentim queixava-se de que Luís de Vasconcelos, que se dizia tão seu amigo e que tantos tributos pedia à sua capacidade artística, desse-lhe sempre mais elogios do que dinheiro; parece, porém, que não havia muito fundamento nas queixas do artista, a quem jamais sobrava o ouro, porque, amando muito o belo sexo e tendo especial predileção por estrangeiras, pagava uma fingida e interesseira gratidão por preço tanto mais elevado quanto era maior a impressão que causava o seu rosto feio e exterior pouco simpático.

Mas Luís de Vasconcelos tinha em grande estima o mestre Valentim; aprazia-se com as suas originalidades e com a sua franqueza de artista e confiava muito na sua probidade e inteligência, fazendo-se até às vezes acompanhar por ele, quando saía a examinar o andamento das obras que estava mandando executar.

Corria ainda o ano de 1779, e em um dia, ao cair da tarde, o vice-rei, que da janela do palácio vira o mestre Valentim dirigindo os últimos trabalhos do chafariz que do meio da praça fora removido nesse ano para junto do mar, ordenou que o fossem chamar, e, apenas o viu aparecer, convidou-o a segui-lo em um passeio pela cidade.

Montaram ambos a cavalo, e Luís de Vasconcelos, tomando a dianteira, depois de demorar-se um pouco observando a obra do cais que se principiara a construir em frente do palácio, partiu para o morro de Santa Teresa, onde se renovavam os aquedutos. Encaminhou-se pelas ruas de S. José e da Ajuda, ladeou o convento das freiras, preferindo à rua dos Barbonos o seguir pelo largo da Ajuda, e pela margem de uma feia lagoa que dali se estendia até ao fim da atual rua do Passeio.

O mestre Valentim sorrira-se maliciosamente vendo o vice-rei tomar aquela direção. É verdade que o boqueirão da Ajuda, cujo seio se compreendia no espaço que vai desde a ponta do Calabouço20 até ao monte de Nossa Senhora da Glória, oferecia uma vista magnífica; mas a lagoa que ali se encontrava era repugnante: formada pelas águas da chuva que ficavam estagnadas, mostrava-se de feio aspecto, às vezes exalava um cheiro desagradável e, na opinião de muitos, passava por ser um foco de peste. Chamavam-na lagoa do Boqueirão.

Por que fizera caminho por aquele sítio o vice-rei? Por que se sorrira maliciosamente mestre Valentim? Eles lá o sabiam.

O lugar era desestimado; a povoação da cidade interrompia-se naquele ponto, onde apenas se viam três ou quatro humildes casinhas, e entre essas uma quase à beira da lagoa, e que, diante da porta e a dez passos, tinha uma bela palmeira e junto desta uma cerrada moita de arbustos. Mas nem a palmeira, nem a moita de arbustos teriam feito notar a pobre casinha, se à sua janela não aparecesse muitas vezes o mais lindo rosto de moça morena que porventura havia na cidade.

Quando o vice-rei passou, a moça correu à rótula para vê-lo, e o mestre Valentim sorriu-lhe pela segunda vez.

Chegaram enfim os cavaleiros e subiram o morro de Santa Teresa. Examinaram as obras e conversaram tão longamente a respeito dos aquedutos que começava a escurecer, quando desceram. Mas Luís de Vasconcelos, não querendo ainda voltar a palácio, rodeou o outeiro das Mangueiras, que então existia, ocupando o lugar da rua que teve depois o mesmo nome, e partiu a galope em direitura ao Botafogo, prolongando tanto o seu passeio que eram nove horas da noite, quando de volta passava diante da romanesca ermida de Nossa Senhora da Glória.

A lua estava brilhante, a viração soprava docemente, a cidade parecia ir tranqüilamente adormecendo.

– Mestre – disse o vice-rei – acabaremos a pé o nosso passeio.

Valentim sorriu-lhe pela terceira vez e apeou-se.

Os criados tomaram conta dos cavalos e partiram adiante.

O vice-rei e o artista ficaram sós e foram seguindo. Ao chegarem de novo junto do monte das Mangueiras, que era um espigão do morro de Santa Teresa, Luís de Vasconcelos parou e disse:

– Temos montes demais na cidade, mestre. Eis aqui um outei-ro que podia bem desaparecer, sendo substituído por uma rua que facilitaria a comunicação do bairro que deixamos com a rua dos Barbonos e com aquela a que o marquês, meu feliz antecessor, legou o seu nome.

(continua...)

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