Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Assim, pois, descontente de si mesmo e sem ter acertado com o caminho que lhe cumpria seguir, Luciano entrou em casa; mas, ao tocar á porta da sala, parou de subito, ouvindo pronunciar o seu nome e o de Dionysia.
Eugênio conversava com Guilherme e o objecto da conversação era o projectado casamento de seus filhos.
Luciano escutou attento.
— Emfim, meu amigo, dizia Eugênio concluindo ; Deos nos ajude ; mas receio muito que a pertinacia inexplicavel de meu filho acabe por destruir de todo as nossas esperanças.
— E eu não receio nada, respondeu Guilherme; devemos acreditar que Luciano começa já a pensar muito seriamente em Dionyia, e eu aposto que antes de dous mezes morrerá de amores por ella. Temos empregado um systema admiravelmente combinado : o rapaz vai ficar preso na rede qne lhe armámos.
Luciano vio brilhar a seus olhos como uma luz no meia das trevas : o seu orgulho reanimou-se de subito; saudou a lucta que para elle principiava de novo, e ufano e decidido entrou na sala, e, depois de breves momentos de conversação, disse :
— Perdão, meu pai; perdão, Sr. Guilherme : preciso recolher-me e dormir cedo, pois que me preparo para uma importante caçada amanhã. Dizem-me que o monte vizinho da fazenda do Sr. Guilherme é rico de pacas soberbas, e se não houver nisso offensa do direito de propriedade, protesto que nestes ultimos quinze dias que me restão de ferias na roça, o Sr. Guilherme ouvirá diariamente da sua fazenda nos tiros da minha espingarda os signaes das minhas victorias.
— Sabemos que é um excellente caçador.
— Determinei sel-o e fui : quando me decido a qualquer cousa, nem recuo, nem desanimo.
Luciano retirou-se.
Eugênio e Guilherme olharão um para o outro e puzerão-se a rir.
— Tem uma cabeça de fogo! disse o primeiro.
— E ao mesmo tempo tem a balda de todos os moços, que pensão sempre que enganão os velhos, observou o segundo.
III.
O companheiro que nas suas caçadas mais agradava a Luciano, era Baptista, lavrador vizinho e compadre de seu pai, e que com os seus sessenta janeiros não se trocava em vigor, agilidade e destreza por nenhum dos velhos de trinta annos que vivem no seio dos prazeres da cidade.
Baptista era realmente o melhor dos companheiros que poderia ter encontrado o estudante : conhecia todas as florestas, como Luciano o Jardim Botanico e as ruas da capital: marcava todos os pontos dos bosques por uma arvore mais notavel, por alguma fonte, pedra ou furna que nelles havia : designava com certeza as melhores esperas, e os lugares mais se guros para se fazer uma caçada feliz, e, além disso, era a chronica viva daquellas circumvizinhanças; sabia dez mil historias a respeito da gente da terra, tinha sempre um caso novo que referir, e mordaz sem que fosse naturalmente máo, e somente pelo desejo de parecer engraçado, divertia sempre o estudante na ida e na volta, e nas horas de reunião no fim das caçadas.
Baptista applaudíra muito a lembrança que tivera o estudante de ir cagar na floresta vizinha da fazenda de Guilherme, e mais alegre e fallador do que nunca ia de caminho enterrando vivos e desenterrando mortos.
Já havia dado conta dos nomes e da vida dos moradores de quantos sitios ião encontrando perto da estrada, quando, ao tomarem por um trilho que os levava á floresta, ao chegarem ao sopé do monte que buscavão, disse elle a Luciano:
— Este bosquesinho que nos fica á mão direita separa este monte do campo da fazenda do Sr. Guilherme, e pôde atravessar-se em um quarto de hora : se lhe aborrecer- a caçada, e preferir a dar tiros nas pacas, armar laços a uma moça bonita, a viagem é curta.
O estudante fez um movimento de máo humor.
— Não vá desconfiar : a cousa não é para isso; não gosta da filha do Sr. Guilherme eu já sei; são gostos, e se não houvesse máo gosto, o amarello não teria extracção.
— Subamos o monte, ou, se lhe parecer, soltemos já os cães.
— Não : isso ha de ser um pouco mais acima : veja porém que sitiosinho bonito vamos deixar aqui á mão esquerda, e logo á subida do monte : ouve este ruido de agua ? é de uma pequena cachoeira que vem do alto, e cahe no meio de um grupo de arvores formando um formoso lago junto do sitio,
— Fico sciente : subamos...
— Sim ; mas o que não sabe é que o sitio pertence ao meu compadre Pereira, que é casado com a minha comadre Antonia...
— A noticia é realmente interessante...
— Mete-me abulha, heim? pois saiba mais que a comadre Antonia tem parentes na cidade...
— Deveras? isso então é extraordinario !
— Morreu-lhe, ha um anno, uma irmã que lá tinha casado com um pobre diabo, e deixou uma filha a quem o pai condemnou a vir morar na roça com a tia, receioso de que a rapariga se extraviasse...
— Uma cabecinha de vento...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.