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#Romances#Literatura Brasileira

Sonhos d’Ouro

Por José de Alencar (1872)

Guida dizia a verdade. Se era já moça na flor da beleza e na graça, tinha contudo a ingênua isenção da menina. Seu coração ainda estava em botão; seus pensamentos, embora alguma vez se embalassem nos sonhos azuis de um futuro risonho, eram em geral absorvidos pelo estudo, ou pelo prazer dos passeios e divertimentos inocentes. 

Não brincava mais com bonecas, é verdade; suas bonecas eram “Edgard” e “Sofia”, ou as flores de seu jardim. Mas também ninguém a via tomar ares melancólicos e atitudes pensativas, suspirar a cada instante, ou recitar poesias de amor, acentuando as frases apaixonadas do poeta. Em uma palavra, não era romântica. Tinha a suas amigas afeição sincera; mas não lhes emprestava a linguagem ardente, que afetam certas moças, e que faz supor, sob pretexto de amizade, a expansão de algum amor oculto, ou pelo menos de um amor ideal criado pela imaginação. 

Por isso dificilmente podiam os adoradores de Guida iludir-se a respeito de sua indiferença. As palavras da menina não tinham sentido ambíguo, nem misteriosa alusão; o olhar, o sorriso, o gesto eram transparentes e não conheciam o jogo cruel de semear esperanças e excitar desejos, para depois machucá-los, como as flores ou as fitas que se trouxe no cabelo. 

Assim o espírito sério de Nogueira não se deixava embair por seu amor-próprio; ele acreditava que Guida não dava a menor preferência a qualquer de seus adoradores; mas pensava que de repende podia seu coração desabrochar, e nesse momento se despertariam as impressões gravadas n’alma da menina. Toda sua tática se limitava a imprimir no espírito de Guida, como em uma cera branda, a admiração por seu talento e a confiança em seu futuro brilhante. 

Mas, apesar de hábil, o futuro deputado estava apaixonado pela moça, e tanto bastava para tirar-lhe a calma necessária de seu plano. Assim, na ocasião do almoço, ouvindo referir o incidente do serviço prestado por Nunes, tivera uma suspeita; e para esclarecê-la fizera a propósito da flor uma alusão que lhe valera a réplica irônica da moça. 

Arrependera-se e esperava a primeira ocasião para desvanecer a desagradável impressão. 

Eram estas cismas que ainda o preocupavam no jardim, enquanto fumava o segundo charuto: 

- Quem será esse moço?... dizia ele consigo, arrancando distraidamente as pétalas de uma rosa. Foi hoje a primeira vez? Guida passeia a cavalo todos os dias; não o terá encontrado anteriormente?... Algum romance começado... quem sabe! O Guimarães saiu com o criado. Aposto que foi em busca do sujeito para apresentá-lo hoje mesmo. Não há dúvida! Por que motivo ela daria tamanha atenção àquele boneco, se não fosse o desejo de obter dele um serviço? E o tolo prestou-se!... 

Nogueira meditou alguns instantes, e por fim murmurou: 

- A coisa desta vez é séria! 

Atirando fora  aponta do charuto, entrou na sala. 

 

 

Enquanto sucediam estes fatos, Ricardo, a causa involuntária deles, estava bem tranqüilo em casa de D. Joaquina. De volta do passeio, saboreou com o amigo o frugal almoço da boa senhora. Ainda estavam à mesa galhofando e rindo, quando ouviram o som do búzio, e pouco depois apareceu-lhes o Simão pescador, alegre, corado e bem disposto. 

Trazia várias selhas de cipó cheias de peixe; uma delas era destinada a D. Joaquina, a quem Gertrudes a mandava de presente. 

- Oh! já está bom? Perguntou-lhe Ricardo. 

- Ora, senhor; para bem dizer, não tinha moléstia; andava banzeiro, mas a moça me trouxe felicidade. Depois daquele dia em que ela ralhou comigo, o senhor bem viu, não há mãos a medir. É peixe tanto, que a rede quase não agüenta. 

- Está bom; estimo muito! 

Depois de algumas palavras trocadas com a velha, o pescador despediu-se: 

- Adeus, sinhá dona. Ainda vou levar este peixe à casa do comendador, o pai da moça. Bom freguês! 

Este fato deixou alguma impressão no espírito de Ricardo, que lembrou-se da cena a que assistira domingo passado. 

Haverá criaturas abençoadas, que tenham o dom de comunicar aos outros sua influência propícia? pensou o moço. Tendo a presença do pescador despertado a lembrança de Guida, Ricardo contou a Fábio o seu encontro pela manhã e o incidente da flor. 

- Bem, creio que sempre tomamos a praça de assalto! exclamou Fábio.

- Não abandonas tua idéia! 

- Ora, se fosse comigo o encontro desta manhã, agora estaria eu almoçando em casa do Soares.

- E de que te servia isto? 

(continua...)

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