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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

Salpicou o magistrado esta última palavra com um riso de mofa, e guardou no fundo da gaveta os tais autos, passando a examinar o seguinte da rima que tinha à esquerda, e que a um e um transferia para a direita. 

— Oh! oh! oh!... exclamou entre riso. Patrono do réu, o Duro! Há de levar a liçãozinha do costume, para não se ter em conta de grande letrado! ... Cuida lá de si para que pode ensinar aos mais, o pedante!... 

Sem consultar a ordenação, nem recorrer ao sujo canhenho, travou o nosso magistrado da pena, e escreveu dum jacto Indeferido, tendo o cuidado de calcar a mão para fazer uma letra bem grossa, já que não podia em voz ainda mais grossa chimpar o despacho lacônico e peremptório na bochecha do bacharel. 

Destas ingenuidades que tinha o Mustre a sós entre si, não vão fazer mau juízo a seu respeito. Passava por um dos magistrados mais honestos, que desde a criação da Ouvidoria-Geral do Rio de Janeiro haviam nela servido. 

Em seu tempo, e isto basta para honrar sua memória, cessou uma baleia que toda a gente repetia na cidade. Corria que certos mercadores de São Sebastião metiam-se com os ouvidores logo que estes chegavam à terra, e tanto faziam que os induziam a aceitar de empréstimo alguma soma, com que os tinham a jeito para seus pleitos e os de seus aderentes. 

Também diziam de outros que, rendidos aos encantos de alguma ninfa da Carioca, trocavam a venda de Têmis pela de Cupido; e lá se iam ao sabor dos afagos, as sentenças com que Vênus comprava seus atavios e galas. 

Ninguém ousou jamais suspeitar o Dr. Mustre de uma peita ou suborno. Cumpria à risca a ordenação não recebendo cartas relativas a demandas; e levava este escrúpulo ao ponto de tratar as partes desabridamente, quando o procuravam. 

Tinha pois a consciência de ser um magistrado integérrimo. E seguro de que não o podiam comprar, nem influir por empenho ou ameaça, no exercício de sua jurisdição, do mais não se preocupava. Assim entendia que lhe era lícito sofismar uma lei para dar quinau em um advogado; demorar um processo para vexar a parte e obrigá-la à bajulação; inclinar-se em um ponto controvertido à decisão que favorecia seus amigos; satisfazer enfim todos seus caprichos e veleidades, dando-lhes a feição de opiniões. 

É esta a pior espécie dos maus juízes. Acastelados na sua honestidade, que nem sempre é inexpugnável, põem a Justiça ao serviço de suas paixões e venetas; e quando vem o clamor, não falta quem os defenda como íntegros, lançando à conta de erro, o que aliás foi astúcia. 

Seriam oito horas da noite, quando bateram rijo à porta exterior da recâmera. Surpreso de que o viessem perturbar àquela hora em seu trabalho, ergueu-se o Dr. Pedro de Mustre para ver quem o procurava. 

— Com licença de Vossa Mercê, senhor doutor ouvidor-geral! disse o Sebastião Ferreira arremetendo pela porta adentro. 

— Servo do senhor doutor ouvidor-geral!... disse da porta o licenciado João Alves de Figueiredo, já nosso conhecido. 

— Pode entrar, senhor licenciado; boa-noite, Sebastião Ferreira! Que novidade há? 

Ainda revolto pela cena da encapelação, o homem não esperou que voltasse o ouvidor a seu telônio, e foi desde a porta acompanhando-o com a sua queixa. 

— Aqui me tem Vossa Mercê em sua presença para querelar do prelado e seus fâmulos que esta mesma tarde me perseguiram com voltas e assuadas; chegando sua malvadez a ponto de me maltratarem gravemente o corpo em diversas partes, como vossa mercê pode ver, sem o menor respeito, já não digo à minha pessoa, mas à justiça de El-Rei, nosso senhor cujo sou oficial. 

Falou neste jeito por meia hora o Sebastião Ferreira, contando os pormenores da afronta que sofrera e acabou apresentando ao Dr. Mustre sua querela em que requeria devassa na forma da Ordenação. 

Adivinhou logo o ouvidor que o requerimento era obra do licenciado, e preparou-se para notar-lhe os lapsos ou descuidos, a fim de acachapar o velho advogado com a ciência que lhe dava o provimento de El-Rei; porque da que se bebe nos livros, tinha bem pouca. 

Essa presunção de grave jurista ia a ponto no magistrado, que sua rubrica era Dr. Portugal, querendo assim reviver para si a fama de seu homônimo, o Dr. Domingos Antônio Portugal, desembargador da Casa da Suplicação e autor da obra Tractatus de Donationibus Regiis. 

Entretanto apesar dessas fumaças, o nosso ouvidor não queimava as pestanas sobre os livros, e além das Ordenações e das Extravagantes, era milagre encontrar-se em casa dele outra qualquer letra de forma. 

Acabando de ler o requerimento espalmou o doutor a mão sobre o papel e disse com um sorriso: 

— Careço de competência, senhor licenciado! 

— Com a devida vênia, a ord. do livro 2.º, tít. 1.º, § 27, é expressa. 

(continua...)

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