Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
E o arbustinho foi crescendo... foi crescendo... era uma roseira. Começou a florescer e botou três botões: um do lado esquerdo, outro da parte direita, e o terceiro em cima.
Quando os botões estavam completamente desenvolvidos, eu vi um batel que vinha saindo dentre os dois montes e navegando pelo lago.
O batel era lindíssimo, as cortinas eram de franjas de ouro, as velas de seda, os marinheiros tinham cintas marchetadas de esmeraldas e diamantes; e o dono do batel vestia com riqueza tal, que só se vê em sonhos, e que não se pode explicar em desperto.
O dono do batel saltou no prado, e apesar de sua magnificência, tive medo de seu olhar, que era feroz, de seu sorrir, que era medonho, de suas mãos, que eram de desmesurada grandeza.
E ele veio vindo... veio vindo... até que parou defronte da roseira.
Eu levantei a cabeça, olhei para o meu anjo, e vi-o tremendo de susto, e me olhando com expressão de dor tão profunda, que desatei a chorar desolada.
O dono do batel não quis ver as minhas lágrimas...
Com ar pretensioso, com passo firme, aproximou-se da roseira, e colheu o primeiro botão. .. era o do lado esquerdo.
Mas quando o quis levar aos lábios para beijá-lo... o botão se foi mirrando...
mirrando... mirrando... até que se sumiu de todo, e se esvaiu em um sopro, que simulou um suspiro.
O meu anjo soltou um grito de prazer, e o batel e seu dono desapareceram inopinada... inexplicavelmente.
Tudo mais ficou como estava; e a roseira com os dois botões que lhe restavam.
E logo depois eu vi, não um batel, mas um carro que vinha saindo dentre os montes e navegando pelo lago.
O carro era todo de prata e puxado por grandes cavalos negros, riquissimamente ajaezados, que bufando, nadavam, como se fossem peixes. Os criados venciam em magnificência e luxo aos marinheiros do batel. Outra vez riqueza e brilhantismo; mais riqueza ainda do que há pouco.
E saltou no prado o dono do carro de prata. Vinha coberto de vestes muito ricas e muito lindas e tinha o peito cheio de brilhantes medalhas; mas apesar disso eu vi que seu olhar estava amortecido, seu rosto pálido e rugoso e suas mãos já trêmulas: era um velho.
E ele veio vindo... veio vindo... até que parou defronte da roseira.
Eu levantei a cabeça, olhei para o meu anjo e vi-o tremendo de susto e me olhando com expressão de dor tão profunda que desatei a chorar desolada.
O dono do carro de prata não quis ver as minhas lágrimas...
Com ar também pretensioso, mas com passos mal seguros, aproximou-se da roseira e colheu o segundo botão... era o do lado direito.
Mas quando o quis levar aos lábios para beijá-lo... o botão se foi abrindo... abrindo... abrindo... as pétalas de rosa se foram uma a uma transformando em penas de mil cores, até que todo o botão se metamorfoseou em passarinho, que se escapou das mãos trêmulas do velho, e voou direito para o céu.
O meu anjo soltou um grito de prazer, e o carro e o velho desapareceram como o batel e seu dono.
Tudo mais ficou como estava. Somente a roseira é que tinha dois botões de menos.
Só restava o terceiro botão.
Veio vindo enfim por entre os dois montes e navegando pelo lago, não um batel, nem um carro de prata puxado por cavalos negros, mas uma grande cesta formada por um belo tecido de rosas, e conduzida por formosas garças que traziam suas asas brancas fora d’água.
Soou de novo a música maviosa e doce, e as garças exalaram por seus bicos aromas deleitosos... mas dessa vez eu não adormeci entre os perfumes e as harmonias.
E saltou no prado um mancebo tão bonito... tão bonito... com seus cabelos negros e ondeados, e um sorrir que era todo meiguice e ternura!... não havia nem riqueza, nem magnificência: havia graça e beleza.
E ele veio vindo... veio vindo... até que parou defronte que da roseira.
Eu levantei a cabeça, olhei para o meu anjo, e o vi como nadando entre a dúvida e a esperança, e olhando ora para mim, ora para o mancebo, com ternura tanta, que eu fiquei também ansiosa e anelante, olhando ora para o meu anjo, ora para o belo mancebo, que eu já temia ver passar sem colher o botão de rosa, que único restava.
O moço da cesta florida pareceu adivinhar minha esperança e sorriu com um sorrir tão meigo!...
Com ar gracioso e leves passos aproximou-se da roseira e colheu o terceiro botão...
Mas quando o quis levar aos lábios para beijá-lo, o botão se foi abrindo...
abrindo... abrindo... até deixar patente todo o seu seio... Não havia pétalas de rosa... lá estava o meu coração...
O anjo, que tinha o rosto de minha mãe, bateu as asas, e baixando o vôo, veio beijar-me nos lábios... e voou depois para o céu...
E o mancebo correu a mim para beijar-me também; porém eu tive medo, muito medo desse beijo e soltando um grito... despertei.
Era dia.
Fiquei ainda uma longa hora na cama, pensando no meu sonho...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.