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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Uma moça loureira, que está de janela e que é do número dessas que sabem estar de janela, põe em ação a ciência mais difícil do mundo, e que é ao mesmo tempo tão positiva como matemática, e tão cheia de coisas nenhumas como a diplomacia. Ela tem vista tão segura, que pelo menear da bengalinha conhece o jovem que vem no princípio da rua; pelo tirar do chapéu adivinha se é moça ou velha a pessoa a quem ele cortejou; e pelo cortejo que recebe, se o padecente inda tem de voltar pela mesma rua ou não. Tem o ouvido tão apurado, que, pelo som da corneta, prediz o oficial que comanda a guarda que vai passar; pelo longínquo tropear de um ginete, quem é o cavaleiro que o cavalga; e pela boa-tarde que lhe dá a vizinha, sabe logo se ela já o viu... ou se ainda espera. E a mãozinha de moça loureira que está de janela?... com os seus dedinhos cor-de-rosa, fala essa mão ainda mais que um papagaio de seminário! um lenço nessa mão move-se e dá mais sinais que o telégrafo do castelo; uma rosa ou um cravo entre os seus dedos é mais brilhante que a fogueira de Sesto, mais eloqüente que um discurso de Lamartine. E uma moça loureira não perde nada; antes de tudo tira partido nessa posição: se, por exemplo, apanha um mocinho, um sobrinho, uma criança enfim de poucos meses... que de carícias não recebe o pobre inocente!... ensina-lhe adeus a com mãozinha... abraça-a mil vezes... e em conclusão a criança não é mais do que um trunfo, no qual se embarca uma bisca.

E se há loureiras como ela?... misericórdia! isso sim é que é maçonaria, onde não penetra o vulgo profano; elas fazem elas um tratado de aliança tal, que deve causar inveja a todos os diplomatas das quatro grandes potências: a mais sonsa delas vale o dobro do príncipe de Meternich. Velha ou moça, que passa, não vai sem sofrer uma análise crítica e miúda de todos os seus vestidos, e a enumeração de todas as imperfeições do seu físico; velho ou moço, que tem a desgraça de fazer por ali seu caminho, não volta o canto sem levar nas costas a sua alcunha; e os senhores apaixonados tenham também paciência; será bom que vão passando com a certeza de que, se as queridas lhe perdoam, as vizinhas não podem deixar de lhes fazer ao menos uma careta, de dizer ao menos — que tolo! Ainda o que vale é que às vezes tais enredos e ciúmes se levantam entre elas, que mutuamente se beliscam e se atrapalham, que faz gosto ouvi-las e vê-las, de tão lindamente arrufadas que ficam.

Julga muita gente que, logo que olha para a moça loureira que está de janela, pode dizer a respeito do que está ela pensando, do que ela cuida, e o que ela sente; pois elas riem-se! e riem-se com razão; porque lá dos segredos da arte das janelas ainda ninguém tocou o fundo... Os vaidosos acreditam ter compreendido assaz, por haver tirado as seguintes conseqüências:

1ª — Moça que estando de janela tem os olhos fitos no lado do mar, é porque espera que venha alguém desse lado.

2ª — Moça que não conversa com as vizinhas, que olha ora para baixo, ora para cima, sempre cuidadosa e suspirante, é porque não sabe por onde surdirá um rapagão, que, por ciumento ou adoidado, não tem nem hora, nem ponto certo em que apareça.

3ª — Moça sentada à janela com a face pousada sobre a mão tem saudades.

4ª — Moça que, quando sente vir o predileto da parte de cima, fita os olhos no lado de baixo, e, ao senti-lo defronte da janela, faz com a cabeça um movimento, formando um arco de círculo, e olha para a parte donde ele veio, fingindo não tê-lo visto, está de arrufos.

5ª — Moça que, ao ver aproximar-se o jovem que a requesta, volta-lhe as costas e foge para dentro, morre por ele.

Mas basta de falar em janelas, e já que por demais foi longe a reflexão sobre tal ponto, seja em compensação ligeira a que tocar aos primos.

Um jovem primo é pouco mais ou menos o espírito maligno em forma humana, calçando botas e vestindo casaca; há uma tal queda para os primos, que se faz preciso andar sempre com os olhos bem abertos sobre eles.

Um jovem primo foi uma criança, que brincou o tempo será com as primas, que chamou a uma delas minha mulher, e foi por essa chamado meu marido; que se acostumou desde então a entrar em casa delas sem bater palmas, que fez quadrinhas para os lenços delas, que é o compadre das suas bonecas, e que agora ou é desses que fazem garbo da liberdade que têm com as primas, e, à vista de gente, grita, corre e patusca com elas, e então não passa de moço de bom-tom fogo de palha, casca de grande coisa com âmago de coisa nenhuma; ou, pelo contrário, é um primo com cara de tolo, que não perde terço nem novena, que reza muito na presença dos tios, e tem um oratório em casa, onde faz festas aos santos da sua devoção, e que, enfim, em noites de reunião em casa das primas, enquanto elas palestram, dançam e se divertem, ele se deixa ficar em um dos cantos da sala, bocejando e cochilando, uma vez por outra dando tabaco ao tio, espevitando as velas, e indo ajudar as primas a preparar o chá.

Esta é que é a casta de primos mais perigosa no seio de uma família do que um doente de sarampo ou bexigas.

Félix, a quem de antes conhecemos, pois que já o encontramos almoçando com a família de Venâncio, é um primo do primeiro gênero; perdido de amores por sua prima Rosinha, tem mais ciúmes dela do que uma criança do colo de sua mãe; Rosa, que o vê com olhos de quem quer casar, e que além disso é moça entendida em negócios diplomáticos, o julga um moço que, por falta de outro, lhe poderá servir para marido; e por conseqüência, segundo a tática, que em outras pode ser observada, nem o despede, nem se deixa dominar; trá-lo atrás de si, como o seu gatinho; se o vê exasperado e disposto a fugir-lhe, sorri-se para ele, e assim o amansa, e o faz beijar-lhe os ferros; se o observa muito altaneiro e confiado em sua constância, não olha para ele um dia inteiro, e o põe com o juízo em voltas, e a esperança em alarma. Já se vê, portanto, que Félix pertence ao número dos tolos de amor.

(continua...)

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