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#Ensaios#Literatura Brasileira

À Margem da História

Por Euclides da Cunha (1909)

A este propósito poderiam citar-se numerosos casos delatadores da política bifronte, do mesmo passo reconstituinte e demolidora, que com o rigorismo de um decalque retrata na ordem moral do Peru o contraste físico entre o Ocidente obscurecido, onde as energias se quebrantam malignadas pela história emocional epidêmica dos pronunciamentos - e o Levante resplandecente, onde alvorecem as esperanças renascidas.

Aponte-se um exemplo.

Em 1841 a República estava a pique das maiores catástrofes. Imperava D. Agustín Gamarra. Aquele zambo cesariano refletia nos atos tumultuários os desequilíbrios de seu temperamento instável, de mestiço, ferrotoado dos temores e das impaciências de um prestígio improvisado, à ventura, nos sobressaltos das guerrilhas.

O seu governo — governo de quem inaugurou no Peru o regime das deposições apeando o virtuodo La Mar — foi naturalmente agitadíssimo. O restaurador imposto pelas armas dos chilenos, de Bulnes, sobre os destroços da efêmera confederação perúvio-boliviana, assediado pelas ambições contrariadas, pelas exigências dos condutícios incontestáveis e pelas ameaças dos conspiradores recidivos, tonteava na vertigem daquela eminência, onde chegara desprendendo-se da parceria dos cholos e pisoando todos os melindres aristocráticos da terra que sobre todas herdara a sobranceria tradicional da Espanha. Nas conjunturas prementes dependeu-lhe, por vezes, a fortuna, até do gesto de uma mulher - a sua própria esposa, amazona gentilmente heróica, que não raro travando de uma espada e precipitando-se, à espora feita, a cavalo, pelo campo das manobras ou no mais aceso dos combates, ia eletrizar com a presença encantadora os coronéis embevecidos e os regimentos vacilantes...

Assim não se poderiam exigir à vida em tanta maneira perturbada e romântica, daquele presidente, ponderosas medidas administrativas. Acompanhamo-la apenas com o interesse artístico de quem segue a urdidura de imaginosa novela sulcada de episódios alarmantes, ou dramáticos, até desfechar no sacrifício, inútil e glorioso, do protagonista, sucumbindo sob uma carga furiosa dos lanceiros bolivianos nas esplanadas de Viacho...

Mas no volver de uma das páginas salteia-nos esta surpresa:

"El cidadão Agustín Gamarra — Gran mariscal restaurador del Perú, benemérito a la patria in grado heróico y eminente, etc.

"Considerando que para promover la navigación por vapor en el rio de Amazonas y sus confluentes és necessário proporcionar facilidades y ventagens que indemnicen a los empresários...

"Decreta: 1º Se concebe al ciudadano brasileiro D. Antonio Marcelino Pereira Ribeiro el privilegio exclusivo de navegar por buques de vapor en el rio Amazonas, en la parte que corresponde al Perú e todos sus afluentes.

"... 3º Los buques de vapor levarón el pabellón brasileiro...

"Dada en la casa de Gobierno de Lima a 6 de Julio de 1841."

Este decreto, extratado nos trechos principais, inculca ao mesmo tempo o caudilho, no recacho presuntuoso que lhe emprestam aqueles adjetivos e substantivos constrangidos a escoltarem-lhe o nome, e o governante, que primeiro traçou aos seus patrícios a marcha regeneradora para o Oriente. Mas não o reproduzimos apenas para realce dos aspectos contrariantes da História Peruana; senão também para destacar aquela figura de brasileiro, que seria inexpressiva se não constituísse o primeiro termo de uma série de compatriotas obscuros, erradios dos nossos fastos e elegendo-se por atos memoráveis entre os melhores servidores da nação vizinha.

De fato, à medida que se rastreia a marcha peruana para o levante, exposta em todos os seus pormenores, miudeada em regulamentos, em decretos, em circulares e em ofícios — porque é a suprema preocupação política, militar e administrativa do Peru — observa-se nas referências obrigatórias e incisivas ao elemento brasileiro, o intercurso de uma outra avançada obscura, mas vigorosa, e contrapondo-se-lhe numa expansão tão enérgica, para o ocidente, que com os seus efeitos a despontarem de longe em longe, precisamente nos períodos mais decisivos da primeira, se restauraria todo um capítulo da nossa História, que se perdeu ou se fracionou despercebido à visão embotada dos cronistas, para ressurgir agora, esparso em fragmentos surpreendentes, nas entrelinhas da História de outro povo. É o que demonstram outros casos, entre nós inéditos. Apontemo-los de relance.

No período abrangido pelos governos do austero Marechal Castilla, as explorações prosseguiram. Castelnau desceu das cabeceiras do Urubamba às ribas do Amazonas; Maldonado imortalizou-se descobrindo, numa excursão temerária, a nova estrada para o Atlântico ajustada ao sulco desmedido do Madre de Diós; e Raimondi desvendou os tesouros da mesopotâmia de 16.000 léguas quadradas de terras exuberantes, interferidas pelos cursos do Huallaga e do Ucaiáli. Por fim Montferrir calculou, rigorosamente, as riquezas da Canaã vastíssima: 50.000.000 de hectares, valendo o mínimo de meio bilhão de pesos.

(continua...)

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