Por Lima Barreto (1911)
— Que tenho? Invadem o palácio... Aqui, ao menos a gente está isolada, não precisa estar a toda hora em contato com eles; mas lá — não há outro remédio! D. Celeste, após uma pausa, refletiu:
— Os deputados e governadores não deviam estar em dependência tão estreita desse povinho — não acha você, Edgarda?
— Creio, mas... Dizem que eles devem ouvir todo o mundo, para bem representar a vontade do povo, por quem são eleitos.
— O povo! Eleitos! Nós é que sabemos como é isso, minha cara Edgarda; nós sabemos disso...
A mulher do senador Macieira riu-se sublinhando a frase; a visita, porém não a acompanhou inteiramente no seu ceticismo pelo nosso aparelho político.
D. Alice, a mãe do senador, vinha entrando, ereta, alta, lembrando ainda o gesto senhorial e distinto, o donaire que devia ter em moça. As massagens não conseguiam disfarçar as rugas da velhice, mas as pinturas davam aos cabelos o vivo negror natural.
Contudo, havia nos olhos alguma coisa de moço; um certo calor, uns fortes reflexos luminosos que aqueciam a sua fisionomia que nevava. Ainda era uma bela velha, cheia de naturalidade, de gestos e encanto de maneiras.
Depois dos cumprimentos, D. Edgarda perguntou à velha D. Alice:
— Então, D. Alice vai também?
— Não, não posso. As viagens fazem-me mal, não posso suportá-las...
Demais o Felicianinho vai formar-se e eu não quero... não quero ir.
A nora atalhou:
— Você não imagina, Edgarda, a ternura que mamãe tem pelo
Felicianinho... É Felicianinho para aqui, é Felicianinho para ali... Nem para Macieira, que é seu filho, nem para mim, nem para o Orestes, que é seu neto, ela tem os mimos que tem para o Felicianinho.
— Ora! Vocês foram felizes; tiveram pai e mãe e fortuna... Ele é órfão e pobre — não acha que faço bem, Edgarda? Neste mundo, a falta de amor, de carinho, faz mais mal do que a do dinheiro, não é?
— Não há dúvida que sim, mas, às vezes, também estraga — aduziu Edgarda.
— Isso é quando se trata desse amor por aí — fez a velha — mas o da mãe, nunca é demais.
Quando na rua, a mulher de Numa hesitou em se firmar na natureza do sentimento da velha D. Alice. Às vezes, parecia-lhe um simples amor de mulher; em outras, um grande amor de mãe; mas, afinal, concordou que havia as duas coisas juntas, misturadas de tal forma que não se podia saber qual dos dois sentimentos dominava.
O que mais a impressionou, não foi a certeza a que ela chegou de haver em D. Alice uma curiosa mistura ou combinação daqueles dois sentimentos tão diferentes; o que mais admirou foi a candura e a inocência que a velha revelava falando daquele jeito dos seus sentimentos pelo rapaz.
Sentia-se desculpada, perdoada, não porque o amasse como mulher, mas porque amava também o rapaz como mãe; seguia-lhe os estudos, socorria-o de todo o jeito, trazia-lhe sempre diante dos olhos o futuro e a glória.
D. Edgarda já estava no bonde que parou um pouco adiante para dar entrada a um senhor alto que todos os passageiros cumprimentaram. O senador Carlos Gerpes entrou no veículo com agilidade e desempeno. Olhou com aquele seu fino olhar os circunstantes, olhar sempre para frente, de quem beira precipícios. Não tardou em dar com Edgarda e veio colocar-se num banco, adiante, de modo que lhe pudesse falar.
— Já sei — disse ele — que o Numa, hoje ou amanhã falará sobre o orçamento do Exterior... Deve fazê-lo. É moço e convém aparecer... Hoje, a minha atividade está reduzida; mas, na idade dele, não perdia vasa... Foi ao Lírico?
— Ainda não. Numa não tem podido ir... O senhor sabe...
— Deve ir. Que propriedade, que naturalidade! Os papéis de amorosa então ela os faz muito bem... O amor moderno... Não há aquelas imprecações, aqueles estos antigos... Oh! É perfeito!
(continua...)
BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.