Por Aluísio Azevedo (1891)
A duquesa de Bourbon, apesar de casada, vivia publicamente com Du Chayla. Law levava a sua amante à corte. A princesa de Conti, filha do rei, posto que devota, já velhusca e cheia de aparentes escrúpulos, confessava não poder dispensar a consolação de seu sobrinho La Vallière. A outra princesa de Conti, a moça, essa, a despeito dos ciúmes que mantinha pelo marido, só deixou o seu amante La Fare, quando o substituiu por Clermont; a irmã dela, M'le de Charolais, dava os mais terríveis escândalos com o duque de Richelieu. As filhas do duque de Orléans, então regente, levaram mais longe a sua depravação, porque tinham no próprio pai 0 principal cúmplice das suas orgias. A irmã da duquesa de Bourbon, Mlle de la Roche-surYon, célebre pela sua beleza, não se separava de Marton, estivesse onde estivesse, e ameaçava de furar os olhos com um punhal, que ela trazia sempre na liga, àquela que lho roubasse ainda que por um instante. Mme du Maire, tendo aliás como amante vitalício o cardeal de Polignac, íntimo de seu esposo, disfarçava-se freqüentemente em regateira, para correr as ruas e vielas de Paris em busca de aventureiros de todo o gênero.
O pior no entanto, estava no que não se pode contar nestas páginas. Toute chair étail détournée de sa voie, como disse Voltaire a esse respeito, e como o provaram com os fatos mais indecorosos as próprias delfinas de Luís XIV e Mme de Maintenon, e o chevalier de Vendôme, e o Sr. de Chambonas, e, mais que todos e que todas, a formosa duquesa de Chartres, que se recolheu ainda moça ao convento de Chelles, não para se penitenciar dos seus pecados contra a natureza, porém, sim, para poder, ali, naquele doce e obscuro viveiro de almas adolescentes, agravá-los mais à farta e mais à vontade.
Frei Ozéas tinha nessa época vinte e cinco anos.
Havia feito seus estudos e recebera as primeiras ordens no seminário de Borgonha, sua província natal; depois atirou-se para Paris, onde se ordenou, justamente no começo da regência do Duque de Orléans.
Dotado de temperamento bastante sensual para arrastá-lo, e sem força na sua fé para poder resistir à corrente de perdições desse tempo ele, se não foi tão ferozmente devasso como Dubois ou tão friamente libertino como Dorat, acompanhou todavia o exemplo dos seus confrades e com eles arrastou a batina pelos antros mais escorregadios do jogo, da embriaguez e da prostituição.
Chegou a fazer parte dessas ridículas e terríveis sociedades secretas, que infestavam o reinado de Luís XV, centros criados com o fim exclusivo de exercer o gozo, mas o gozo requintado, torturado, burilado a ponta de agulha; gozo como só se inventou nesse tempo, gozo à Chambonas e à Pompadour, de quem ele tirou 0 estilo complicado e extravagante. Vintimille, então arcebispo de Paris, devasso como os demais parisienses dessa época, mas enfim arcebispo, esteve a ponto de mandar Ozéas para a Bastilha, como sucedeu com o padre Tencin, com Adrien Aubert, com Chegny, Pierre de Galon e outros muitos religiosos de sangue quente.
Mas quando Ozéas chegou aos quarenta e cinco a cinqüenta anos, começou a cair em si, e pela primeira vez pensou na perdição da sua alma, tão comprometida; e, ou fosse que os requintados prazeres lhe desfibrassem as energias da carne, ou fosse que uma grande e miraculosa transformação moral se operasse com efeito em todo o seu ser, o fato é que ele, fulminado de súbito pela consciência dos seus pecados sem remissão, desabou em fundo arrependimento e protestou nunca mais, nunca mais cometer a menor ação que de longe pudesse envergonhar a sua responsabilidade de sacerdote.
Era tarde. Nada mais hipotético do que apagar um passado. Por mais brilhante e intensa que fosse a luz do seu arrependimento, lá estava o gigantesco espectro dos crimes cometidos, para antepor-se entre eles, e encher de sombra o remorso aquela consciência de sacerdote pecador. Por mais sincera e convicta que fosse a sua nova lei de conduta, por mais leal e verdadeira a sua nova linha de virtude, sua alma chorava perdida para sempre, porque para sempre se sentia corrompida e suja.
Então Ozéas começou a dar-se todo, de espírito e corpo, à sua reabilitação.
Cegava-o ardente desejo de conseguir o seu fim.
Principiou por deixar de ser padre, para meter-se na ordem dos missionários de S. Francisco de Paulo, denominados—"Os mínimos". Fez voto de pobreza absoluta e abriu mão de tudo, tudo que possuía; o que, aliás, não era pouco, porque além dos seus bens de família, Ozéas metera-se a especular no jogo feroz que Law criara sob a regência, e chegara a acumular uma bonita soma de seis milhões de francos.
Desde então, noite e dia, hora a hora, instante a instante, a sua única preocupação era expurgar a alma das passadas conspurcações. E nunca ninguém se mostrou tão empenhado em reabilitar-se do passado. Por mais escabroso que fosse o ato de piedade, Ozéas não desdenhava afrontá-lo, como se a sua fé, por muito tempo adormecida, acordasse de súbito, à vida de sacrifícios e provações.
Quer onde houvesse soluços e dores, chagas e lágrimas a suster, aflições a reprimir, ali estava ele apresentando os ombros para todas as cruzes, que os seus semelhantes não pudessem suster.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.