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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Não me recrimines, meu bom amigo! Sei quanto te devo, e sei melhor que o teu coração é o único de que ainda não descri inteiramente; mas, por isso mesmo, não me abandones, não me deixes a sós com este desespero, que só espera pela tua ausência para me devorar. Fica ao meu lado... eu me farei forte, eu terei coragem! Hei de vê­la aparecer, enlevada no seu véu nupcial, branca e fugitiva como a nuvem que se some para sempre; hei de vê­la, coroada de flores amorosas, as faces enrubescidas de sensual enleio, os olhos fulgurantes de desejo por outro homem!... e não soltarei um lamento, e não proferirei uma blasfêmia! Inveja, decepções, mortíferos ciúmes, tudo me ficará cá dentro, premido e recalcado com os escombros do meu pobre amor! Tudo sofrerei, vencido e humilhado, contanto que ma deixem ver hoje, contanto que me deixem penetrar, pela última vez, da suprema luz daqueles olhos ainda de virgem, e aperceber minha alma com a imagem dela, antes que ela se despoje eternamente da sua castidade! Depois, farei o que quiseres... fugiremos para longe do Brasil... tomaremos o primeiro paquete para a Europa... percorreremos o mundo inteiro, abriremos uma ruidosa vida de prazeres e de perigos! teremos amantes em todas as cidades, orgias e duelos em todas as paragens; mas, por piedade! deixem­me ver Ambrosina, antes que ela resvale nos braços do miserável que ma roubou! E tu, meu bom Gaspar, não me abandonarás, não é verdade?... tu continuarás a ser para mim o mesmo amigo fiel, o mesmo inseparável irmão, o mesmo extremoso pai!

O outro apertou­o contra o peito.

— Sim, sim... respondeu comovido; bem sabes que sim! Serei sempre o mesmo, não para te deixar correr à solta, como um boêmio, por esse mundo afora, mas para despertar em ti o gosto pela vida real e pelo trabalho fecundo... Olha! já daqui se avista a chácara do grande velhaco. Deitam fogos! Deve ir animado o bródio! Mas vê se me compõe um pouco esse teu ar, homem! Não sei que parecerás aos folgazões com essa cara de carpideira de velório!

E, à proporção que se adiantavam, iam já sentindo com efeito avultar­se no ar um quente rumor de festa que ferve ao longe; ao passo que em torno deles vinha, do fundo negrume daquela noite sem estrelas e sem lua, um monótono coaxar de charco e um agoureiro corvejar de aves sinistras.

Os dois amigos chegaram defronte da bela chácara do comendador. O mais velho bateu no ombro do outro:

— Vê lá como te portas, hein!...

E, embrenhando­se pelo empavezado jardim, galgaram depois uma escadaria de granito, que dava para sombria e vasta varanda, trasbordante de roseiras em flor; transposta a qual, se acharam eles num luzido salão, ainda quente de estrondoso banquete que aí ardera durante a noite.

Via­se ao centro a grande mesa, devastada e abandonada, como um campo depois de medieválica peleja a ferro frio, e, no meio, do destroço, dominante, e altiva, erguia­se intacta, numa apoteose de açúcar e fios de ovos, uma noivazinha de alfenim, coroada de áureos caramelos e vestidas de papel de seda.

Essa ridícula boneca, que se poderia derreter com um bochecho d’água, representava, entretanto, ali, naquele centro burguês e pretensioso, nada menos que a instituição mais respeitável da sociedade, representava a família. Naquele alfenim, frágil, cândido e consagrado, havia a doçura do lar doméstico, toda a pureza do amor conjugal e também toda a fragilidade da honra de um marido.

No meio do geral desbaratamento das vitualhas e dos postres, a simbólica boneca fora respeitada, por damas e cavalheiros, como ídolo divino.

Gabriel teve vontade de despedaçá­la.

Já quase ninguém havia no salão do banquete. Tinham­se os convivas despejado pelas outras salas e pelo jardim, cuja luminária à veneziana começava a derreter­se; alguns coziam a digestão refestelada pelas poltronas e pelos divãs macios; outros bebericavam ainda aos bufetes e faziam brindes, sobre a posse, à ventura dos cônjuges. A festa, que havia começado desde a véspera, tocava afinal no seu término e dissolvia­se em cansaço.

Gaspar e Gabriel conseguiram, sem chamar a atenção de pessoa alguma, chegar a um aposento mais afastado, onde se não via viva alma.

— O que é da noiva!... perguntou Gabriel a um criado do libré, que apareceu depois, indagando deles se precisavam de alguma cousa.

— A noiva? Acaba, neste instante, de retirar­se com o noivo para o rico pavilhãozinho cor­de­rosa que lhes foi preparado... Olhe! olhe! meu senhor! Aqui desta janela ainda os pode ver! Ali vão eles!

— Gabriel correu ao lugar indicado. Ambrosina, pelo braço do noivo, fugia efetivamente para o escondido ninho dos seus amores, esgueirando­se arisca por entre as sombrias árvores do jardim.

— Onde fica o pavilhão?...

— O pavilhãozinho dos noivos? Pois vossemecê não sabe?! Fica, meu rico senhor, ao fundo da chácara, para o lado do mar... Que pena não o ter ido ver enquanto esteve ontem franqueado... De tudo o que se preparou aqui para esta festa, é sem dúvida a peça mais bonita!

Ao fundo da chácara... para o lado do mar... repetia entredentes Gabriel, apalpando contra o peito um punhal que levava oculto.

— Bem, disse Gaspar, assim que o criado se arredou; já viste afinal a noiva, creio que agora podemos bater em retirada... Não nos convém ficar por muito tempo aqui!...

— Vai tu, se quiseres... eu inda fico...

(continua...)

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