Por Machado de Assis (1886)
Das investigações resultou para o espírito de Vicente o mais completo assentimento à união dos dois namorados.
Resolvido a isso, entendeu que mostrar-se ignorante por mais tempo era prolongar uma situação esquecida para os dois e um cuidado para o seu espírito de pai. Dizer francamente a Emília que ele sabia dos sentimentos que a ligavam a Valentim, era, ao parecer do pai, encaminhar para os dois corações o complemento da felicidade sem hesitações nem mortificações íntimas.
Pensando assim, Vicente foi diretamente à filha e disse-lhe:
— Emília, nunca pensaste no casamento?
— Eu, meu pai?
— Sim, tu.
— Que pergunta, meu pai!
— É uma pergunta. Responde.
— Nunca!
— Ora, para que dizes isso assim abaixando os olhos e ficando com as faces vermelhas? Anda lá, minha filha, tu já pensaste no casamento...
— Meu pai quer que eu lhe fale a verdade?
— Nunca se mente a um pai.
— Pois sim; já pensei no casamento.
— Ah... E...
— E?...
— E pensaste que eu mais dia menos dia havia de bater a bota e que tu ficavas sozinha no mundo.
— Oh! meu pai...
— Em tal caso, era preciso que o marido substituísse o pai... Ora, para substituir um pai como eu, é preciso um marido como eu fui... Que te disse teu coração?
— Não consultei...
— Não? É mentira...
— Disse...
— Valentim?
— É verdade, meu pai.
— Pois bem... Acho que fazes boa escolha. É um bom moço, ativo e que parece gostar de ti com extremo. O segredo nestas coisas seria agora uma hipocrisia sem nome. Melhor é que sejamos francos. Tu o amas e fazes bem. Se Valentim hesita em pedir-te em casamento, não o deixes nessa hesitação...
— Oh! obrigada, meu pai.
E Emília, deitando a cabeça no seio de Vicente, deixava correr pelas faces lágrimas de contentamento.
Na primeira ocasião em que Emília se encontrou a sós com Valentim disse-lhe que tinha razões para crer que seu pai não aceitaria mal uma proposta de casamento. Valentim pareceu morrer de alegria com a notícia.
Todavia, passaram-se dois, três, cinco, dez dias, sem que Valentim dissesse nada nem a Emília nem a Vicente.
Emília insistiu.
— Creio que você não me ama, disse ela ao rapaz.
— Por quê, meu coração?
— Porque nem falou ainda a meu pai... Olhe, estou certa de que ele não aceitará mal o pedido...
— Concluis disto que te não amo?
— Pois então?
— Escuta, Emília, disse Valentim, quero proceder como cavalheiro e homem de juízo. Sabes que, como médico, não tenho um só doente a quem curar. Novo ainda, não tenho prática nem nomeada.
— Ah! disse a moça.
— Não me interrompas... Ouve: sendo assim, propor-me a ser teu marido é propor-me a fazer a tua desgraça, quando o que eu desejo neste mundo, mais do que a salvação, é fazer-te a mais feliz das mulheres... que fazer? Fui a um dos ministros e pedi-lhe um emprego... por estes dias serei despachado. Com ele posso ser teu marido, e sê-lo-ei, Emília, juro-te...
Estas palavras ditas no tom mais insinuante convenceram a rapariga. Um beijo, um só, mas casto, mas profundo, mas daqueles que fundem duas existências em uma só, terminou a conversação e selou o juramento.
Emília deu conta a seu pai dos projetos de Valentim. Vicente ouviu a narração de sua filha com a alma nadando em júbilo. Era aquilo mesmo que ele desejara ao marido de sua filha: a prudência, o tino, a dedicação.
A primeira vez em que Valentim entrou em casa, Vicente não se pôde ter; atirou-se-lhe
aos braços.
— Muito bem, meu rapaz.
— Que é? perguntou Valentim, sem compreender.
— Muito bem. Vejo que és um homem honesto. Teus projetos mostram de tua parte que és o mais próprio marido que se podia escolher para minha filha... Queres que eu te chame meu filho?
— Meu pai! disse Valentim, deitando-se-lhe nos braços.
Desde então ficou assentado que Valentim, apenas empregado, casaria com Emília. Foi deste modo romanesco, fora dos hábitos comuns, que se tratou o casamento da filha de Vicente.
Puseram-se todos a esperar o despacho de Valentim. Todavia, ou porque não houvesse ainda bom lugar a dar a Valentim, ou porque alguma estrela má perseguisse a família do pobre Vicente, o que é certo é que o despacho não apareceu ainda dois meses depois das cenas que narramos.
Valentim, quando se tratava disso em conversa, respondia ao seu futuro sogro e à futura mulher que o ministro costumava a afirmar-lhe que podia contar com o despacho, mas que deixasse esperar melhor ocasião.
E nessa expectativa andavam todos.
Mas os dias e os meses corriam.
Um dia entrou Valentim em casa da namorada dando gritos de grande contentamento:
— Que é isso? perguntou-lhe Vicente.
— Meu sogro, tudo está arranjado.
— Ah!
(continua...)
ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.