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#Contos#Literatura Brasileira

O oráculo

Por Machado de Assis (1886)

— Então? que disse o oráculo?

— Ah! meu pai! o oráculo disse que não!

— Então o oráculo, continuou Atanásio, é contrário ao teu casamento com o sr. Leonardo?

— É verdade.

— Pois sinto dizer que sou de opinião contrária ao sr. oráculo, e como a minha pessoa é conhecida enquanto a do sr. oráculo é inteiramente misteriosa, há de fazer-se o que eu quiser, mesmo apesar do sr. oráculo.

— Ah! não!

— Como, não? Queria ver isso! Se eu aceitei essa idéia de consultar bruxarias foi para brincar. Nunca me passou pela cabeça ceder lá às decisões de oráculos misteriosos. Tuas primas são de minha opinião. E demais, eu quero desde já saber que bruxarias são essas... Meus senhores, vamos descobrir o tal oráculo.

A este tempo apareceu um vulto na porta e disse:

— Não precisa!

Todos voltaram-se para ele. O vulto deu alguns passos e parou no meio da sala. Tinha um papel na mão.

Era o oficial de marinha de que falei acima, trajando casaca e luva branca.

— Que faz aqui o senhor? perguntou o velho espumando de raiva.

— Que faço? Sou o oráculo.

— Não aturo caçoadas desta natureza. Com que direito se acha neste lugar? Henrique Paes por única resposta deu a Atanásio o papel que trazia na mão.

— Que é isto?

— E a resposta à sua pergunta.

Atanásio chegou-se para a luz, tirou os óculos do bolso, pô-los no nariz e leu o papel. Durante este tempo, Leonardo tinha a boca aberta sem compreender nada. Quando o velho chegou ao meio do escrito que tinha na mão, voltou-se para Henrique e disse com o maior grau de assombro:

— O senhor é meu genro!

— Com todos os sacramentos da igreja. Não leu?

— E se isto for falso!

— Alto lá, acudiu um dos sobrinhos, nós fomos os padrinhos, e estas senhoras as madrinhas do casamento de nossa prima D. Cecília B... com o sr. Henrique Paes, o qual se efetuou há um mês no oratório de minha casa.

— Ah! disse o velho caindo numa cadeira.

— Mais esta! exclamou Leonardo procurando sair sem ser visto.

Epílogo

Se perdeu a noiva, e tão ridiculamente, nem por isso Leonardo perdeu o lugar. Declarou ao velho que faria um esforço, mas que ficava para corresponder à estima que o velho lhe tributava.

Mas estava escrito que a sorte tinha de perseguir o pobre rapaz.

Daí a quinze dias Atanásio foi acometido de uma congestão de que morreu. O testamento, que fora feito um ano antes, nada deixava a Leonardo. Quanto à casa, teve de liquidar-se. Leonardo recebeu a importância de quinze dias de trabalho.

O mal-aventurado deu o dinheiro a um mendigo e foi atirar-se ao mar, na praia de Icaraí. Henrique e Cecília vivem como Deus com os anjos.

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