Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— A moça apontou-me para um quartinho escuro e triste, onde gemia uma creança; corri a ver a infeliz; era um menino de quatro annos: eondoido de seus soffrimentos e de sua pobreza, começava a examinal-o, quando ouvi rodar uma sege...

— Que logro!

— É certo : saltei para a sala ; mas a velha me disse com triste sorriso ;

— é tarde! já partio.

— E quem é ella ?...

« —Um anjo do caridade, senhor.

« — Exactamente, exclamei eu, era isso o que eu procurava ; posso considerar-me casado.

Quando torna ella aqui ?

- Não sei; apparece, como a Providencia, sempre que se faz necessaria,

- «_ E que vem fazer?...

- « _ Que vem fazer ?... Ah! senhor, vem vestir a mim e a meus filhos ; vem ajoelhar-se aos pés daquella cama velha, e com suas mãos tão finas e mimosas banhar os pés de meu filho doente ! vem dizer-lhe palavras de amor, e fazel-o tomar remedios sem chorar, nem contrafazer-se; vem animar-nos a fé e accender-nos a esperança, e sempre acha occasião para, sem que ninguém a veja, deixar uma boa somma de dinheiro em baixo do meu travesseiro.

- « — E como se chama?...

- « — Ella diz que se chama minha irmã,

- « — Irmã dos pobres ! é.isso mesmo : estou definitivamente casado.

- « — Ah ! senhor!

- « — Onde mora ella?

- « — Não o quer dizer.

- « — É bonita ?...

« — Oh ! se o è... e que graça,., e que voz... e que olhos !...

« — Exactamente !... eu a sonhei tal e qual.

« — Tal e qual, como, senhor?...

« — Tal e qual como ella é ; boa duvida!

« — E o senhor sabe como ella é ?...

« A pergunta da velha embatucou-me; como não tive que responder, desviei-me da questão

« — E vós quem sois, boa mulher ?... contaime a vossa historia.

« — A minha historia é bem simples, disse a velha; moça pobre, tive a fortuna de me casar com um excellente homem ; era um bom carpinteiro que ganhava com a sua incho bastante para sustentar a sua família ; tinha sido voluntario da independencia, bateu-se nobremente por ella, e ganhou a sua medalha da campanha da Bahia ; ha cinco annos adoeceu, e ficando alguns mezes de cama, acabou mais de miseria do que da molestia; ninguém se lembrou d'elle!.. Se eu tivesse uma bandeira nacional para amortalhalo!... mas não tive : embrulhei o seu cadaver no ultimo lençol que nos restava, e pendurei a seu pescoço a medalha da independencia ; a Misericordia fez o resto, enterrando o corpo do antigo soldado; creio que ninguém reparou na medalha e foi bom isso.

« — Porque ?...

« — Porque os vivos havião de envergonhar-se do morto.

« A velha, apezar de pobre, fallava como um deputado.

« — E depois?... perguntei.

« — Depois, senhor, vivi e sustentei meus quatro filhos como pude : Deus me protegeu até hoje, e continua sempre a proteger-me ; mas, confesso o meu grande peccado : quando rebentou esta peste maldita, evi dous de meus filhos cahidos, quasi que desesperei!... Felizmente um anjo de caridade entrou-me em casa, e comsigo me trouxe a esperança e a coragem.

« — E esse anjo ?

« — Sahio daqui, ha pouco.

« _ Sim, bem sei ; mas, boa mulher, eu tenho absoluta necessidade de saber quem elle é, como se chama, e onde mora...

« — Como posso eu dizel-o ?...

« — Oh ! mas se é essencial !... eu devo casarme com aquella senhora ; é uma cousa decidida.

« — E possivel, senhor !...

« — Falta-me só conhecel-a ..

« — A velha olhou para mim espantanda; sem duvida alguma pensou que tinha diante de si algum doido ; receiando porém offender-me com o seu olhar, baixou a cabeça, e apanhando um fio de .seda que encontrara a seus pés, começou a enrolal-o por entre os dedos.

« Bem se diz que ás vezes a fortuna pende de um fio!

« Vi a minha felicidade pendendo d'aquelle fio de seda.

« Lembrei-me da bolsa de seda.

« — Boa velha, creio que o fio que enrolaes nos dedos foi da bolsa de seda, que o vosso anjo de caridade tecia.

« É verdade.

« Então essa bella senhora, quando vera a esta casa, costuma trazer algum trabalho para se entreter, não ?...

« Ah, não, senhor : ella ás vezes demora-se aqui uma, duas, e até três horas, conforme julga necessario, para prestar-nos soccorro; e ha alguns dias apenas traz essa bolsa que está tecendo, segundo diz, para dal-a de presente a uma amiga que faz aimos domingo.

« — Domingo ? depois d'amanhã ?...

« — Sim, senhor.

« — Bravo ! vou saber quem é esse anjo de caridade ; domingo é o dia do leilão a favor da pobreza, e a bolsa de seda. não se destina a outro fim ; já conheço a côr da tal bolsinha... vou encontrar e conhecer minha mulher !

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →