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#Comédias#Literatura Brasileira

Os ciúmes de um Pedestre ou o Terrível Capitão do Mato

Por Martins Pena (1846)

PEDESTRE – Por que gritavas?

BALBINA – Pensei que eram ladrões. Ouvi bulha aqui na sala...

ALEXANDRE, à parte – Como o meu coração bate! Prudência... (Principia a fazer sinais para Balbina.)

PEDESTRE – Fui eu que entrei, e mais cedo do que costumo. Encontrei este tratante dormindo na calçada, aqui mesmo defronte da porta. Estava tomando fresco... Ladrões, dizes tu? Ladrões em casa de pedestre? Tão tolos não são eles. Aqui não há que roubar, e vinham entregar-se com a boca na botija, pois não?

BALBINA, reconhecendo Alexandre - – Meu Deus!

PEDESTRE – Hem?

BALBINA, disfarçando – Nada, não senhor. (À parte:) Que loucura! (Neste tempo Alexandre tem na mão uma cartinha, que mostra a Balbina.)

PEDESTRE – Anda, vai-te deitar, que estás sonhando. E tu... (Volta-se para Alexandre e o surpreende mostrando a carta a Balbina.) Ah! (Salta sobre ele e arrancalhe a carta.)

BALBINA, à parte – Meu Deus!

PEDESTRE – Ah, patife, tu trazes cartinhas! (Voltando-se para a filha:) E tu as recebes... Velhaca!

BALBINA, recuando – Meu pai!

PEDESTRE – Vejamos quem te escreve, para depois castigar-te. (Abre a carta e lê:) “Meu amor... (Falando:) Ah, já és seu amor? (Continuando a ler:) Apesar das cautelas de teu pai, um estratagema me conduzirá junto de ti... (Falando:) Ah, um estratagema! (Olha receoso ao redor de si)... e arrancando-te à sua crueldade, serás minha esposa.” (Falando:) Não tem assinatura... (Fica pensativo.)

BALBINA, à parte – Eu tremo!

ALEXANDRE, à parte – O que fará? Em boas meti-me!

PEDESTRE caminha para Alexandre sem dizer palavra e dá-lhe uma bofetada – Principio por ti ... (Alexandre, esquecendo-se do caráter que representa, quer ir sobre o Pedestre, mas vendo Balbina, que com as mãos postas pede-lhe que se modere, contém-se. Pedestre, agarrando Alexandre pela gola da camisa:) Quem mandou esta carta?

ALEXANDRE, à parte – Felizmente não me conhece...

PEDESTRE – Quem mandou esta carta? Fala, ou eu...

ALEXANDRE – Não sei, não sinhô; foi um branco que me deu.

PEDESTRE – Que branco?

ALEXANDRE – Não sei, não sinhô.

PEDESTRE – Ah, não sabes? (Querendo puxar da espada.)

BALBINA – Meu pai!

PEDESTRE – Espera tu, que temos também que falar. (Para Alexandre:) Então? Quem é o branco?

ALEXANDRE – Eu vou contá tudo. Um branco me disse: José, toma dez tostões; quando dé meia-noite vai para o Beco dos Aflitos fazê negro fugido... E quando o pedestre que mora lá mesmo no Beco dos Aflitos sair, deixa ele prendê você e levá para casa... E entrega esta cartinha à sinhá Balbina... Está... Mas não sei quem é o branco... Foi para ganhar dez tostões...

PEDESTRE – Hum, é assim? Que trama! Vem cá, negrinho da minha alma, tratante... Amanhã, hem? Correção, cabeça rapada e... (Faz sinal de dar pancada.) Mas antes, hem? meu negrinho, hei de te dar uma reverendíssima maçada de pau bem repinicadinha. Vem cá, meu negrinho...

ALEXANDRE, querendo resistir – Mas sinhô...

PEDESTRE – Vem cá, vem cá... (Vai levando-o para o segundo quarto à esquerda e mete a chave na fechadura, para abrir a porta.)

BALBINA, à parte, enquanto o Pedestre abre a porta – Pobre Alexandre, a quanto se expõe ele por mim! Mas que loucura a sua, assim disfarçar-se!

PAULINO, à parte, espiando do armário. Isto principia muito mal... E acabará ainda pior!

PEDESTRE, empurrando Alexandre para dentro do quarto – Entra! (Fecha a porta e tira a chave.)

BALBINA, à parte, a tremer de susto – Ai de mim! Matai-me, meu Deus! (Pedestre encaminha-se para Balbina e, chegando junto dela, observa-a por alguns instantes, calado. Balbina treme de susto, enquanto o pai a observa. Pedestre, sem dizer palavra, volta-se, e abrindo a gaveta da mesa, dela tira uma palmatória. Balbina, vendo-o tirar a palmatória.) Ah!

PEDESTRE, indo para ela – Dá cá a mão!

BALBINA – Meu pai!

PEDESTRE – Dá cá a mão!

BALBINA – Oh! (Recuando.)

PEDESTRE, seguindo-a – Dá cá a mão!

BALBINA, escondendo as mãos atrás das costas – Não sou criança para levar de palmatória!

PEDESTRE – Não és criança... Mas és namoradeira, e eu cá ensino as namoradeiras a palmatória. Santo remédio! Venha!

BALBINA – Meu pai, meu pai, pelo amor de Deus!

PEDESTRE – Ah, a menina tem namorados, recebe cartinhas e quer casar-se contra minha vontade! Veremos... Venha, enquanto está quente... Venha!

BALBINA, caindo de joelhos – Por piedade!

PEDESTRE – Só quatro dúzias, só quatro dúzias...

BALBINA – Oh, não, não, meu pai! (Abraçando-lhe as pernas) Meu pai, que lhe fiz eu? Que culpa tenho eu, se me escrevem? Posso eu impedir que me escrevam?

PEDESTRE – Pode, pode! Não dê corda! Venha!

BALBINA – Mas isso é uma injustiça! Eu não conheço ninguém, não vejo ninguém, vivo aqui fechada...

(continua...)

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