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#Comédias#Literatura Brasileira

Lição de Botânica

Por Machado de Assis (1906)

— Oh! o meu jardim é composto de plantas vulgares.  


BARÃO, gracioso 

— É porque as melhores flores estão dentro de casa. Mas V.  Exa. engana-se; não venho pedir nada do seu jardim.  


D. LEONOR 

— Ah!  


BARÃO 

— Venho pedir-lhe uma coisa que lhe há de parecer singular.  


D. LEONOR

 — Fale.  


BARÃO 

— O padre desposa a igreja; eu desposei a ciência. Saber é o meu estado  conjugal; os livros são a minha família. Numa palavra, fiz voto de celibato.  


D. LEONOR 

— Não se casa.  


BARÃO 

— Justamente. Mas, V. Exa. compreende que, sendo para mim ponto de fé  que a ciência não se dá bem com o matrimônio, nem eu devo casar, nem... V. Exa. já  percebeu.  


D. LEONOR 

— Coisa nenhuma.  


BARÃO 

— Meu sobrinho Henrique anda estudando comigo os elementos da  botânica. Tem talento, há de vir a ser um luminar da ciência. Se o casamos, está perdido.  


D. LEONOR 

— Mas...  


BARÃO, à parte 

— Não entendeu. (Alto.) Sou obrigado a ser mais franco. Henrique  anda apaixonado por uma das suas sobrinhas, creio que esta que saiu daqui, há pouco.  Impus-lhe que não voltasse a esta casa; ele resistiu-me. Só me resta um meio: é que V. Exa.  lhe feche a porta.  


D. LEONOR 

— Senhor barão!  


BARÃO 

— Admira-se do pedido? Creio que não é polido nem conveniente. Mas é  necessário, minha senhora, é indispensável. A ciência precisa de mais um obreiro: não o  encadeiemos no matrimônio.  


D. LEONOR 

— Não sei se devo sorrir do pedido.  


BARÃO 

— Deve sorrir, sorrir e fechar-nos a porta. Terá os meus agradecimentos e  as bençãos da posteridade.  


D. LEONOR, sorrindo 

— Não é preciso tanto; posso fechá-la de graça.  


BARÃO 

— Justo. O verdadeiro benefício é gratuito.  


D. LEONOR

— Antes, porém, de nos despedirmos, desejava dizer uma coisa e  perguntar outra. (O Barão curva-se.) Direi primeiramente que ignoro se há tal paixão da  parte de seu sobrinho; em segundo lugar, perguntarei se na Suécia estes pedidos são usuais.  


BARÃO 

— Na geografia intelectual não há Suécia nem há Brasil; os países são  outros: astronomia, geologia, matemáticas; na botânica são obrigatórios.  


D. LEONOR 

— Todavia, à força de andar com flores... deviam os botânicos trazê las consigo.  


BARÃO 

— Ficam no gabinete.  


D. LEONOR 

— Trazem os espinhos somente.  


BARÃO 

— V. Exa. tem espírito. Compreendo a afeição de Henrique a esta casa.  (Levanta-se.) Promete-me então...  


D. LEONOR, levantando-se 

— Que faria no meu caso?  


BARÃO 

— Recusava. 


D. LEONOR

— Com prejuízo da ciência?  


BARÃO 

— Não, porque nesse caso a ciência mudaria de acampamento, isto é, o  vizinho prejudicado escolheria outro bairro para seus estudos.  


D. LEONOR 

— Não lhe parece que era melhor ter feito isso mesmo, antes de  arriscar um pedido ineficaz?  


BARÃO 

— Quis primeiro tentar fortuna.  


Cena VI  

D. Leonor, Barão, D. Helena  


D. HELENA, entra e pára 

— Ah!  


D. LEONOR 

— Entra, não é assunto reservado. O Sr. Barão de Kernoberg... (Ao Barão.) É minha sobrinha Helena. (A Helena.) Aqui o Sr. Barão vem pedir que não o  perturbemos no estudo da botânica. Diz que seu sobrinho Henrique está destinado a um  lugar honroso na ciência, e... Conclua, Sr. Barão.  


BARÃO 

— Não convém que se case, a ciência exige o celibato.  


D. LEONOR 

— Ouviste?  


D. HELENA

— Não compreendo...  




(continua...)

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