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#Comédias#Literatura Brasileira

O Namorador ou a Noite de São João

Por Martins Pena (1845)

LUÍS – Ó Júlio, que bela patuscada, hem?

JÚLIO, à parte – Vem mangar comigo.

LUÍS – Não há melhor! Foguetes para atacar, música para dançar, e sobretudo moças para namorar. O tio João festeja o nome de seu santo com grandeza. Tu não tens foguetes?

JÚLIO, com mau modo – Não.

LUÍS – Nem namorada?

JÚLIO, ao mesmo – Não.

LUÍS – Ó alma de cântaro, marreco de gesso! Não tens namorada, quando aquela sala está cheia de meninas tão encantadoras? Não tens namorada? Então que viste fazer?

JÚLIO – Obsequiar à pessoa que me convidou, portando-me com decência.

LUÍS – Como diabo entendes tu as coisas às avessas? Quando se convida para uma soirée, ou outra qualquer patuscada, rapazes solteiros, é para que eles namorem. Todos sabem que sem namoro as mais brilhantes reuniões esfriam e poucas horas duram. Sem namorar as moças ficam amuadas, as velhas dormem e os velhos roncam. Sem namoro, essa vivacidade que se nota nos olhares e gestos das meninas desaparece e morre, falta de alimento. Sem esse grande excitativo, o desejo de conquistar adormece no coração e leva a moleza ao corpo e o aborrecimento à alma. Tudo fica triste e sem sabor. Os pai e mãe de família cedo retiram-se com as filhas, porque não vêem possibilidade de pescarem noivos para elas onde não há namoro prometido. Mais três ou quatro contradanças e não se vêem esses casais solitários no meio de esplêndido baile, sentados nos cantinhos da sala, alheios a tudo o que se passa ao redor dela, e que tanto servem para divertimento de todos. Cessa a maledicência, desaparecem esses segredinhos que se dizem ao ouvido e que fazem corar. Numa palavra, tudo esfria, emudece, dorme! O namoro é a alma da vida, a existência necessária de todas as reuniões. É o centro ao redor do qual giram todas as afeições, intrigas, gentes e despesas. Por ele é que a menina se enfeita, que os rapazes se desafiam, e se individa o homem. Por ele é que o pobre pai de família paga a ladroada conta das francesas. Enfim, é o motor universal, é o “fogo viste lingüiça” das sociedades. Por isso é que eu todas as vezes que sou convidado para algum baile ou patuscada como esta, namoro a torto e a direito, para obsequiar o dono da casa.

JÚLIO – Ah, é para obsequiar os donos das casas? Devem-te ficar muito agradecidos.

LUÍS – E que não fiquem pouco se me dá. Faço o meu dever. Tenho feito as moças lá dentro andarem numa dobradura, inclusive a minha bela priminha.

JÚLIO, travando-lhe do braço – Isto é uma traição!

LUÍS – Hem?

JÚLIO – É uma traição que cometes para comigo de quem te dizes amigo. Sabes muito bem, porque já te tenho dito, que eu amo a tua prima.

LUÍS – E o que tem isso? Tu namoras e eu também namoro; o caso não é novo – vê-se todos os dias isso.


JÚLIO – É preciso acabarmos com este gracejo. Não zombo.


LUÍS – Nem eu.

JÚLIO – Falo muito sério.

LUÍS – Que diabo de tom é esse?

JÚLIO – Faze por toda a parte este papel de namorador e de tolo, acompanha-te sempre dessa leviandade e ar gracejador por desprezo pelo homem sensato, que pouco se me dá disso; nenhum interesse tenho eu em corrigir-te...

LUÍS – O caso vai de pregação.

JÚLIO – Mas não lances um só olhar para Clementina, não lhe digas uma só palavra de galanteio ou sedução, porque então te haverás comigo e tarde te arrependerás.

LUÍS – Quem, eu?

JÚLIO – Sim, tu.

LUÍS – Isto é uma ameaça?

JÚLIO – É, sim.

LUÍS – Ah, a coisa chegou a esse ponto? Pois meu amigo, andou muito mal; os seus ciúmes o deitaram a perder.

JÚLIO – Isso veremos.

LUÍS – Até agora eu namorava a prima inocentemente e sem intenção, como faço com todas as moças que encontro; isto é um hábito em mim. Mas agora, já que se formaliza e ameaça-me, hei-de lhe mostrar que não só namorarei a priminha de noute e de dia, como também casar-me-ei com ela.

JÚLIO, raivoso – Oh!

LUÍS – O que não tem podido fazer de mim o amor, fará o amor-próprio. Estou resolvido a casar-me.

JÚLIO, segurando-lhe na gola da casaca – Não me leves ao desespero! Desiste? (Aqui aparece no fundo

Clara, que se encaminha para eles.)

LUÍS, segurando na gola da casaca de Júlio – Não quero! (Júlio agarra com a outra mão na gola da casaca de Luís, que faz o mesmo, empurrando-se mutuamente.)

JÚLIO – Não me faça praticar uma ação que nos perderia a ambos.

LUÍS – Perdido já eu estou, porque me vou casar.

(continua...)

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