Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  O rapaz assistira imóvel à rápida cena, partido entre o pensamento da defesa e a admiração pela coragem da linda companheira, que afrontava-se com o terrível facínora.  

Vendo este sumir-se no mato, escapara-lhe dos lábios aquela exclamação de surpresa, e acompanhou-a logo de um gesto que não era de vã ameaça, mas de firme resolução. 

- Algum dia nos havemos de encontrar! 

- Que lhe fez ele? perguntou a menina a rir. 

Em seu lindo semblante já não restavam traços da comoção que nela produzira a cena anterior. Como a onda cristalina, que turva um instante a asa negra da borrasca e logo após reflete a bonança do céu, era seu olhar sereno e meigo. 

  Ninguém diria que nesse corpo mimoso dormia a alma que se revelara poucos momentos antes e parecia espedaçar o frágil e delicado invólucro; ninfa celeste a romper a argila de sua formosa crisálida. 

- Que me fez, Inhá? repetiu Miguel surpreso da pergunta. 

- Foi você quem buliu com ele, que ia seu caminho descansado. 

- Para a tocaia! 

- De quem? interrogou a menina assustada. 

- Sei lá! Quando o bugre sai da furna, é mau sinal: vem ao faro do sangue como a onça. Não foi debalde que lhe deram o nome que tem. E faz gabo disso! 

- Então você cuida que ele anda atrás de alguém? 

- Sou capaz de apostar. É uma coisa que toda a gente sabe. Onde se encontra Jão Fera, ou houve morte ou não tarda. 

  Estremeceu Inhá com um ligeiro arrepio, e volvendo em torno a vista inquieta, aproximou-se do companheiro para falar-lhe em voz submissa. 

- Mas eu tenho-o encontrado tantas vezes, aqui perto, quando vou à casa de Zana, e não apareceu nenhuma desgraça. 

- É que anda farejando, ou senão deram-lhe no rasto e estão-lhe na cola. 

- Coitado! Se o prendem! 

- Ora qual. Dançará um bocadinho na corda! 

- Você não tem pena? 

- De um malvado, Inhá! 

- Pois eu tenho! 

- Mas por que é que este demônio que não faz caso de ninguém, e até mata as crianças, sofre tudo de Inhá, como ainda há pouco? Por que é? 

- Não sei, Miguel! disse a menina com ingenuidade. 

- Estou vendo que você tem algum patuá, como dizem as pretas da fazenda.  

- E tenho mesmo! Olhe! aqui está! exclamou a menina a rir-se, mostrando um bentinho que tirou do seio, onde o trazia com uma cruz, preso a um cordão de ouro. Então é encanto; não há dúvida, replicou Miguel sorrindo. 

- E eu digo que não. 

- Ora, todos sabem! 

- Ninguém sabe, nem eu mesma, só Deus; mas eu cuido uma coisa. 

- O que? 

- É porque não tenho medo dele. 

- Qual!... 

- Nenhum; nenhum! 

- Mas você ficou mais branca do que uma cera, que eu bem vi. 

- De raiva só! respondeu a menina com expressão. 

  Tinham os dois companheiros chegado ao lugar, onde a vereda que seguiam atravessava um carreador. Perto dali ficava a tronqueira de bater, a qual dava entrada às terras de uma fazenda, cercadas pelo fosso largo e profundo, que serve para resguardar a cultura contra o gado daninho. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →