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#Contos#Literatura Brasileira

Longe dos olhos

Por Machado de Assis (1876)

Que fez então ela? Recorreu ao tempo. 

— Quando meu pai vir que eu sou constante, pensou Serafina, há de consentir no que pede o coração. 

E dizendo isto, entrou a lembrar-se das amigas a quem acontecera o mesmo e que à força de paciência e tenacidade domaram os pais. O exemplo alentou-a; sua resolução era definitiva. 

Outra esperança tinha a filha do desembargador; era que o filho do comendador se casasse, o que não era impossível nem improvável. 

Nesse caso, cumpria-lhe ser com João Aguiar extremamente reservada a fim de que ele não viesse a conceber esperanças a seu respeito, o que tornaria muito precária a situação e daria triunfo ao pai. Ignorava a boa moça que João Aguiar fazia a mesma reflexão, e pelo mesmo motivo se mostrava frio com ela. 

Um dia, andando as duas famílias na chácara da casa do comendador, em Andaraí, aconteceu encontrarem-se os dois numa alameda, quando justamente não passava ninguém. Ambos mostraram-se incomodados com aquele encontro e de boa vontade teriam recuado; mas não era natural nem bonito. 

João Aguiar resolveu cumprimentá-la apenas e ir adiante, como quem levava o pensamento preocupado. Parece que isto foi fingido demais, porque no melhor do papel, João Aguiar tropeça num pedaço de cana que se achava no chão e cai. A moça deu dois passos para ele, que apressadamente se levantou: 

— Machucou-se? perguntou ela. 

— Não, D. Serafina, não me machuquei, disse ele, limpando com o lenço os joelhos e as mãos. 

— Papai está cansado de ralhar com o feitor; mas é o mesmo que nada. João Aguiar apanhou o pedaço de cana e atirou-o para uma moita de bambus. Durante esse tempo vinha-se aproximando um moço, visita da casa, e Serafina pareceu um tanto confusa com a presença dele, não porque ele viesse mas por achá-la a conversar com o bacharel. A leitora, que é perspicaz, adivinhou já que é o namorado de Serafina; e João Aguiar, que não é menos perspicaz que a leitora, percebeu a coisa do mesmo modo. 

— Ainda bem, disse ele consigo. 

E cumprimentando a moça e o rapaz ia seguindo pela alameda fora quando Serafina amavelmente o chamou. 

— Não nos acompanha? disse ela. 

— Com muito gosto, balbuciou o bacharel. 

Serafina fez um sinal ao namorado para que ele se tranqüilizasse, e os três seguiram a conversar de coisas que não interessam à nossa história. 

Não; há uma que interessa e não posso omitir. 

Tavares, o namorado da filha do desembargador, não compreendeu que ela, chamando o filho do comendador a seguir caminho com eles, tinha por fim evitar que o pai ou a mãe a encontrasse só com o namorado, o que agravaria singularmente a situação. Há namorados a quem é preciso dizer tudo; Tavares era um deles. Inteligente e atilado em todas as outras coisas, era neste particular uma verdadeira toupeira. Por esse motivo, apenas ouviu o convite da moça, a cara, que já anunciava mau tempo, passou a anunciar temporal desfeito, o que também não escapou ao bacharel. 

— Sabe que o Dr. Aguiar levou agora uma queda? disse Serafina olhando para Tavares. 

— Ah! 

— Não desastrosa, disse o bacharel, isto é, não me fez mal nenhum; mas... ridícula. 

— Ah! protestou a moça. 

— Uma queda é sempre ridícula, tornou João Aguiar em tom axiomático; e podem já imaginar o que seria do meu futuro, se eu fosse... 

— O quê? perguntou Serafina. 

— Seu namorado. 

— Que idéia! exclamou Serafina. 

— Que dúvida pode haver nisso? perguntou Tavares com um sorriso irônico.

Serafina estremeceu e baixou os olhos. 

João Aguiar respondeu rindo: 

— A coisa era possível, mas deplorável. 

Serafina lançou um olhar de repreensão ao seu namorado e voltou-se rindo para o bacharel. 

— Não diz isso por desdém, acho eu? 

— Oh! por quem é! Digo isto porque... 

— Aí vem Cecília! exclamou a irmã mais moça de Serafina, aparecendo no fim da alameda. 

Serafina que estava a olhar para o filho do comendador viu-o estremecer e sorriu-se. O bacharel olhou para o lado de onde logo apareceu a dama dos seus pensamentos. A filha do desembargador inclinou-se para o ouvido de Tavares e murmurou: 

— Ele diz isto... por causa daquilo. 

Aquilo era a Cecília que chegava, não tão formosa quanto queria João Aguiar, nem tão pouco como parecia ao comendador. 

Aquele encontro casual na alameda, aquela queda, aquela vinda de Tavares e de Cecília tão a propósito, tudo melhorou a situação e desafogou a alma dos dois jovens destinados por seus pais a um casamento que lhes parecia odioso. 



III 




(continua...)

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