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#Contos#Literatura Brasileira

Linha reta e linha curva

Por Machado de Assis (1871)

- Respondeu por escrito que eu era um tolo e me deixasse daquilo. Não disse positivamente tolo, mas vinha a dar na mesma. É preciso confessar que semelhante resposta não era própria. Voltei atrás e nunca mais amei. 

- Mas amou naquela ocasião? perguntou Adelaide. 

- Não sei se era amor, respondeu Tito, era uma cousa... Mas note, isto foi há uns bons cinco anos. Daí para cá ninguém mais me fez bater o coração. 

- Pior para ti. 

- Eu sei! disse Tito levantando os ombros. Se não tenho os gozos íntimos do amor, não tenho nem os dissabores, nem os desenganos. É já uma grande fortuna! 

- No verdadeiro amor não há nada disso, disse sentenciosamente a mulher de Azevedo. 

- Não há? Deixemos o assunto; eu podia fazer um discurso a propósito, mas prefiro... 

- Ficar conosco, Azevedo atalhou-o. Está sabido. 

- Não tenho essa intenção. 

- Mas tenho eu. Hás de ficar. 

- Mas se eu já mandei o criado tomar alojamento no Hotel de Bragança... 

- Pois manda contra-ordem. Fica comigo. 

- Insisto em não perturbar a tua paz. 

- Deixa-te disso. 

- Fique! disse Adelaide. 

- Ficarei. 

- E amanhã, continuou Adelaide, depois de ter descansado, há de nos dizer qual é o segredo da isenção de que tanto se ufana.

- Não há segredo, disse Tito. O que há é isto. Entre um amor que se oferece e... uma partida de voltarete, não hesito, atiro-me ao voltarete. A propósito, Ernesto, sabes que encontrei no Chile um famoso parceiro de voltarete? Fez a casca mais temerária que tenho visto... sabe o que é uma casca, minha senhora? 

- Não, respondeu Adelaide. 

- Pois eu lhe explico. 

Azevedo olhou para fora e disse: 

- Aí chega a D. Emília. 

Com efeito à porta do jardim parava uma senhora dando o braço a um velho de cinqüenta anos. 

D. Emília era uma moça a que se pode chamar uma bela mulher; era alta na estatura e altiva de caráter. O amor que pudesse infundir seria por imposição. De suas maneiras e das suas graças inspirava um não sei que de rainha que dava vontade de levá-la a um trono. 

Trajava com elegância e simplicidade. Ela tinha essa elegância natural que é outra elegância diversa da elegância dos enfeites, a propósito da qual já tive ocasião de escrever esta máxima: "Que há pessoas elegantes, e pessoas enfeitadas." 

Olhos negros e rasgados, cheios de luz e de grandeza, cabelos castanhos e abundantes, nariz reto como o de Safo, boca vermelha e breve, faces de cetim, colo e braços como os das estátuas, tais eram os traços da beleza de Emília. 

Quanto ao velho que lhe dava o braço, era, como disse, um homem de cinqüenta anos. Era o que se chama em português chão e rude, - um velho gaiteiro. Pintado, espartilhado, via-se nele uma como que ruína do passado reconstruída por mãos modernas, de modo a ter esse aspecto bastardo que não é nem a austeridade da velhice, nem a frescura da mocidade. Não havia dúvida de que o velho devia ter sido um belo rapaz em seus tempos; mas presentemente, se algumas conquistas tivesse feito, só podia contentar se com a lembrança delas. 

Quando Emília entrou no jardim todos se achavam de pé. A recém-chegada apertou a mão a Azevedo e foi beijar Adelaide. Ia sentar-se na cadeira que Azevedo lhe oferecera quando reparou em Tito que se achava a um lado.

Os dous cumprimentaram-se, mas com ar diferente. Tito parecia tranqüilo e friamente polido; mas Emília, depois de cumprimentá-lo, conservou os olhos fitos nele, como que avocando uma memória do passado. 

Feitas as apresentações necessárias, e a Diogo Franco (é o nome do velho braceiro), todos tomaram assentos. 

A primeira que falou foi Emília: 

- Ainda hoje não vinha se não fosse a obsequiosidade do Sr. Diogo. Adelaide olhou para o velho e disse: 

- O Sr. Diogo é uma maravilha. 

Diogo empertigou-se e murmurou com certo tom de modéstia: - Nem tanto, nem tanto. 

- É, é, disse Emília. Não é talvez uma, porém duas maravilhas. Ah! sabes que me vai fazer um presente? 

- Um presente! exclamou Azevedo. 

- É verdade, continuou Emília, um presente que mandou vir da Europa e lá dos confins; recordações das suas viagens de adolescente. 

Diogo estava radiante. 

- É uma insignificância, disse ele olhando ternamente para Emília. 

- Mas o que é? perguntou Adelaide. 

- É... adivinhem? É um urso branco! 

- Um urso branco! 

- Deveras? 

- Está para chegar, mas só ontem é que me deu notícia dele. Que amável lembrança! 

- Um urso! exclamou ainda Azevedo. 

Tito inclinou-se ao ouvido do amigo, e disse em voz baixa:

(continua...)

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