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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Nessas horas do ocaso o sertão perde o aspecto morno, acerbo e desolador que toma ao dardejar do sol em brasa. A sombra da tarde reveste-o de seu manto suave e melancólico; é também a hora em que chega a brisa do mar e derrama por essa atmosfera incandescente como uma fornalha, a sua frescura consoladora.  

À medida que se aproximam da fazenda, o capitão-mór Campelo ia observando com maior atenção o estado dos terrenos que atravessava, e a propósito dirigia a palavra, umas vezes à sua mulher, outras a um dos acólitos, o que parecia o cabo da escolta e que lhe ficava mais próximo. 

Ao longo do caminho, de um e outro lado, alvejavam, entre as maravalhas dos ramos queimados pelo sol, as ossadas dos animais que já tinham sucumbido aos rigores da sêca. 

— A sêca por aquí foi rigorosa, D. Genoveva, que poder de gado se perdeu. 

— Há de ver, sr. Campelo, que poder de gado se perdeu. 

— Com isso já conto eu; as ossadas que temos encontrado estão mostrando. Não é um boi que lá está caído, Agrela? 

— Lá ao pé da marizeira, sr. capitão-mór? Aquele já esticou a canela. 

— Aposto que deixaram entupír as cacimbas? acudiu D. Genoveva. 

— Não duvido; respondeu Campelo. 

Nesse momento chegavam os viajantes a uma pequena elevação, donde se avistava ao longe, sôbre aquela mata adusta, a copa verde e frondosa de uma prócera oiticica. 

Um dos acostados que trazia a trombeta a tiracolo, levou-a à bôca e tocou uma alvorada cujos sons festivos deramaram-se pelo espaço e encheram a solidão. 

O fogoso cavalo em que montava a gentil donzela, já excitado desde que primeiro sentia as auras da terra natal, com os rebates da trombeta se arremessou impetuoso pelo caminho da fazenda. 

D. Flor deixou-o desafogar aquele generoso anelo que também lhe assomava n’alma ao reconhecer os sítios onde passara a sua infância e lhe corriam felizes os anos da juventude. 

Logo abaixo da eminência, o caminho dividia-se; uma trilha estendia-se pelos tabuleiros, a outra serpejava pelo doce aclive que já alí formavam as abas da próxima serra. Sôbre essa lomba, cujo terreno estava menos abrasado por causa das filtrações da montanha, as árvores ainda conservavam a folhagem, que tornava-se mais embastida e virente, à proporção que se avizinhavam das cabeceiras do Sitiá. 

Foi por êste último caminho que tomou a donzela. 

— Flor! gritara D. Genoveva, chamando-a.  

Mas ela voltou-se para sorrir à sua mãe, fazendo-lhe um gesto prazenteiro, e deixouse levar pelo árdego ginete. 

A moça breve desapareceu encoberta pelo mato aí mais fechado, e revestido ainda de alguma rama, embora rara e crestada. 

Com a rapidez do galope, o vento agitava os cabelos castanhos da donzela, fustigando-lhe o rosto, e ela experimentava um indizível prazer, como se a terra de seu berço lhe abrisse os braços carinhosa, e a estivesse apertando ao seio, e cobrindo-lhe as faces de beijos. 

Cerrando a meio os olhos, engolfada nessa ilusão, parecia-lhe que a terra tomava as feições da ama que a criara, da boa Justa, de quem se apartara pela primeira vez com tamanha saudade. 

De repente o brioso cavalo que relinchava de alegria, erriçou a crina e soltou do peito um ornejo surdo, lançando os olhos pávidos para a esquerda do caminho. 

D. Flor pensando que êsse terror proviria de ter o baio pressentido no mato a carniça de alguma rês, afagou-lhe o pescoço com a mãozinha afilada, excitando os brios do animal por uma carícia da voz. 

Mas o cavalo estacou espavorido, com o pêlo híspido e as narinas insufladas pelo terror. 

 

II – Desmaio 

 

A par com a comitiva, mas por dentro do mato, caminhava um viajante à escoteira. 

Parecia acompanhar o capitão-mór, porém de longe, às ocultas, pois facilmente percebia-se o cuidado que empregava para não o descobrirem, já evitando o menor rumor, já afastando-se quando o mato rareava a ponto de não escondê-lo.  

Sua paciência não se cansava; tinha caminhado assim horas e horas, por muitos dias, com a perseverança e sutileza do caçador que segue o rasto do campeiro. Não perdia de vista a comitiva, e quando a distância não lhe deixava escutar as falas, adivinhava-as pela expressão das fisionomias que seu olhar sagaz investigava por entre as ramas. 

O cavalo cardão, que êle montava, parecia compreendê-lo e auxiliá-lo na emprêsa; não era preciso que a rédea lhe indicasse o caminho, O inteligente animal sabia quando se devia meter mais pelo mato, e quando podia sem receio aproximar-se do comboio. Andava por entre as árvores com destreza admirável, sem quebrar os galhos nem ramalhar o arvoredo. 

(continua...)

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