Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

— Suspeclus et varicator judex, sr. padre-mestre, seria o ouvidor se não guardasse a ordenação, quando por ela requerido, ou mesmo que o não fosse, pois era o caso de proceder-se ex officio, sicut — Filipina no liv. 5º, tit. 45, § 3, “Mendes a Castro” — Praxe, Parte 1ª, livro 1º, cap. 2º, n.º 38, e Senador Sardinha, alegação 96, nº 22, ubi refert judicatum. 

O licenciado, erriçando a cabeleira com o castão da bengala, ameaçava despenhar sobre os dois êmulos uma cascata de citações atinentes ao caso sem esquecer os comentários e castigações dos respectivos doutores. Infelizmente um rebuliço do povo atalhou aquela torrente de erudição forense. 

As janelas da casa da Câmara se abriam; e a sineta do campanário anunciou que o Senado da leal cidade de São Sebastião ia entrar em vereação, para deliberar sobre os negócios da república. 

Entre os de maior monta que naquele dia tinham de ocupar a atenção dos conselheiros do povo fluminense, avultava o caso gravíssimo da excomunhão do ouvidor. 

Quem refletir na disciplina rigorosa que ainda naquela época exercia a Igreja sobre o poder temporal, embora já decaída do que fôra em antigas eras, compreenderá quanto a pena severa fulminada contra o primeiro ministro da Justiça de El-Rei, por ele posto na capitania, devia abalar os povos sujeitos à sua jurisdição, e derramar na cidade o terror e a consternação. 

Apesar de não ser então a população fluminense, como atestam os documentos da época, das mais fervorosas no zelo católico e exemplares na prática do catecismo, todavia dominava na massa geral o respeito tradicional que infundia a religião de seus maiores, e aumentado pela supertição própria daqueles tempos de ignorância. 

O conflito que o prelado levantava com a majestade secular, colocava os moradores da terra em colisão terrível, perplexos entre o acatamento que deviam como fiéis às censuras da Igreja, e a obediência que tinham de guardar como súditos aos ministros da república. 

Imagine-se pois a ansiedade com que esperavam todos a junta dos vereadores em Câmara para destrinçar com o parecer dos doutos caso tão abstruso e emaranhado, livrando os povos do perigo iminente de ficarem, ou excomungados ou rebeldes. 


II 

 

A MAIS AFIADA LÍNGUA ENTRE AS FAMOSAS QUE ENTÃO

HAVIA NA LEAL CIDADE DE S. SEBASTIÃO 

 

Em outro ponto do rossio, para o lado da Misericórdia, tinha-se formado novo motim de gente, que se apinhava para ouvir os pormenores do caso. 

Quem falava era uma velha, de trunfa bem riçada em topete, com a mantilha trançada acima do ombro e repuxada por baixo do braço direito, o qual gesticulava de uma maneira desabrida. 

Tinha a regateira uns olhos tão pequenos que pareciam dois caroços de feijão-preto embutidos na testa; as pestanas, as comera a sapiranga que lhe arroxeava as pálpebras. A boca, de bom tamanho, desdentada na frente, em falando, o que era o seu estado habitual, mostrava uma língua fina e ligeira, que espevitava os beiços delgados, como o ferrão de uma vespa devorando por dentro a casca de uma goiaba. 

Essa lingüinha afiada, que tinha fama de cortar como nenhuma outra na pele do próximo, pertencia à Srª. Pôncia da Encarnação, que fazia vida de regateira; mas não se ocupava de outra cousa senão de espreitar por detrás da rótula o que ia pela rua, para enredar os vizinhos e falar mal da vida alheia. 

Fronteiro a ela, e seu atento ouvinte, aparecia o Belmiro, sujeito esgrouvinhado e macilento, com um corpo desengonçado sobre duas pernas de taquari. 

As pastas de alvaiade que tinha pelo cabelo ruivo e assanhado, bem como as dedadas de oca e zarcão, apalpadas nas mangas e peitos do gibão de cor indescritível, estavam-lhe denunciando o oficio de pintor. 

— Ninguém me tira de que tudo isto não passa de artes daquele capeta, Deus me perdoe, do Garatuja... Sabem? O cujo da Rosalina, que ela chama de enjeitado!... Nanja eu, que engula essa! Ai, a sujeita é matreira! Lá isso é, não tenham dúvida! Como ela arranjou o tal enjeitadinho tão a ponto, que foi mesmo um trás, zás; saiu por uma porta, entrou por outra, e manda El-Rei meu senhor que me conte novas. E o maganão do alferes, que ainda anda na corte requerendo licença para meter-se em matrimônio, e já o filho... Olhem que não sou eu quem diz, a cidade anda cheia... e já o filho quer passar-lhe a perna. Pois não verão frango com gogo? O peralvilho do enjeitado a se derrengar com a filha do tabelião, a Marta!... Sonsa como ela só! É rapariguinha para dar sota e basto a um seminário inteiro de minoristas, e ainda sobra! De olho só, gentes, não estejam aí a maldar; só de piscar o olho e namorar de janela é que eu falo, que lá do mais não sei!... Enfim eu cá não meto minha mão no fogo por ninguém! Deus me defenda!... Tomara eu poder com os meus pecados, quanto mais ainda por cima carregar lá com a culpa do que os outros fazem! 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →