Por José de Alencar (1856)
Amar quinze dias uma sombra, sonhá-la bela como um anjo, e por fim encontrar uma velha de cabelos brancos, uma velha coquette e namoradeira! Não, era impossível! Naturalmente a minha desconhecida tinha fugido antes que eu tivesse tempo de vê-la.
Essa esperança consolou-me ; mas durou apenas um segundo.
A velha falou e na sua voz eu reconheci, apesar de tudo, apesar de mim mesmo, o timbre doce e aveludado que ouvira duas vezes.
Em face da evidência não havia mais que duvidar. Eu tinha amado uma velha, tinha beijado a sua mão enrugada com delírio, tinha vivido quinze dias de sua lembrança.
Era para fazer-me enlouquecer ou rir; não me ri nem enlouqueci, mas fiquei com um tal tédio e um aborrecimento de mim mesmo que não posso exprimir. Que peripécias, que lances, porém, não me reservava ainda esse drama, tão simples e obscuro!
Não distingui as primeiras palavras da velha logo que ouvi a sua voz; foi só passado o primeiro espanto que percebi o que dizia.
— Ela não gosta de bailes.
— Pois admira, replicou o cavalheiro; na sua idade!
— Que quer! não acha prazer nestas festas ruidosas e nisto mostra bem que é minha filha.
A velha tinha uma filha e isto podia explicar a semelhança extraordinária da voz. Agarrei-me a esta sombra, como um homem que caminha no escuro.
Resolvi-me a seguir a velha toda a noite, até que ela se encontrasse com sua filha : desde este momento era o meu fanal, a minha estrela polar.
A senhora e o seu cavalheiro entraram na saleta da escada. Separado dela um instante pela multidão, ia segui-la.
Nisto ouço uma voz alegre dizer da saleta:
— Vamos, mamã!
Corri, e apenas tive tempo de perceber os folhos de um vestido preto, envolto num largo burnous de seda branca, que desapareceu ligeiramente na escada. Atravessei a saleta tão depressa como me permitiu a multidão, e, pisando calos, dando encontrões à direita e à esquerda, cheguei enfim à porta da saída, O meu vestido preto sumiu-se pela portinhola de um cupê, que partiu a trote largo.
Voltei ao baile desanimado; a minha única esperança era a velha; por ela podia tomar informações, saber quem era a minha desconhecida, indagar o seu nome e a sua morada, acabar enfim com este enigma, que me matava de emoções violentas e contrárias.
Indaguei dela.
Mas como era possível designar uma velha da qual eu só sabia pouco mais ou menos a idade?
Todos os meus amigos tinham visto muitas velhas, porém não tinham olhado para elas.
Retirei-me triste e abatido, como um homem que se vê em luta contra o impossível.
De duas vezes que a minha visão me tinha aparecido, só me restavam uma lembrança, um perfume e uma palavra!
Nem sequer um nome!
A todo momento parecia-me ouvir na brisa da noite essa frase do Trovador, tão cheia de melancolia e de sentimento, que resumia para mim toda uma história. Desde então não se representava uma só vez esta ópera que eu não fosse ao teatro, ao menos para ter o prazer de ouvi-la repetir.
A princípio, por uma intuição natural, julguei que ela devia, como eu, admirar essa sublime harmonia de Verdi, que devia também ir sempre ao teatro.
O meu binóculo examinava todos os camarotes com uma atenção meticulosa; via moças bonitas ou feias, mas nenhuma delas me fazia palpitar o coração.
Entrando uma vez no teatro e passando a minha revista costumada, descobri finalmente na terceira ordem sua mãe, a minha estrela, o fio de Ariadne que me podia guiar neste labirinto de dúvidas.
A velha estava só, na frente do camarote, e de vez em quando voltava-se para trocar uma palavra com alguém sentado no fundo.
Senti uma alegria inefável.
O camarote próximo estava vazio; perdi quase todo o espetáculo a procurar o cambista incumbido de vendê-lo. Por fim achei-o e subi de um pulo as três escadas.
O coração queria saltar-me quando abri a porta do camarote e entrei. Não me tinha enganado; junto da velha vi um chapeuzinho de palha com um véu preto rocegado, que não me deixava ver o rosto da pessoa a quem pertencia. Mas eu tinha adivinhado que era ela; e sentia um prazer indefinível em olhar aquelas rendas e fitas, que me impediam de conhecê-la, mas que ao menos lhe pertenciam.
Uma das fitas do chapéu tinha caído do lado do meu camarote, e, em risco de ser visto, não pude suster-me e beijei-a a furto.
Representava-se a Traviata e era o último ato; o espetáculo ia acabar, e eu ficaria no mesmo estado de incerteza.
Arrastei as cadeiras do camarote, tossi, deixei cair o binóculo, fiz um barulho insuportável, para ver se ela voltava o rosto.
A platéia pediu silêncio; todos os olhos procuraram conhecer a causa. do rumor; porém ela não se moveu; com a cabeça meio inclinada sobre a coluna, em uma lânguida inflexão, parecia toda entregue ao encanto da música.
Tomei um partido.
Encostei-me à mesma coluna e, em voz baixa, balbuciei estas palavras :
— Não me esqueço!
Estremeceu e, baixando rapidamente o véu, conchegou ainda mais o largo burnous de cetim branco.
(continua...)
ALENCAR, José de. Cinco Minutos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16677 . Acesso em: 14 jan. 2026.