Por José de Alencar (1860)
Antônio – É escusado começares com choradeiras; não adiantam; o casamento sempre se há de fazer.
CENA IV
(Os mesmos e Luís)
Luís – Não, Antônio.
Carolina – Meu primo!
Antônio – Oh! Estavas aí, rapaz? Chegaste a propósito, mas que queres tu dizer?
Margarida – Ele não aceita.
Antônio – Espera, Margarida! Fala, Luís.
Luís – Tratava-se aqui de fazer Carolina minha mulher; mas faltava para isso uma condição indispensável.
Antônio – Qual?
Luís – O meu consentimento. Não pedi a mão de minha prima, nem dei a entender que a desejava.
Margarida – Mas tu lhe queres bem, Luís?
Luís – Eu, Margarida?
Antônio – Tens uma paixão forte por ela; eu sei.
Carolina – É verdade?
Luís – Parece-me que desde que moro nesta casa não dei motivos para me fazerem esta exprobração. Trato Carolina como uma irmã, ela pode dizer se nunca uma palavra minha afez corar.
Carolina – Não me queixo, Luís.
Luís – Creio, minha prima; e se falo nisto é para mostrar que seu pai se ilude: nunca tive a idéia de que um dia viesse a ser seu marido.
Antônio – Mas então explica-me essa história dos tipos.
Luís – Dos tipos?... Não sei o que quer dizer.
Margarida – Uma noite na tipografia estavas distraído e em lugar de copiar o papel, escreveste não sei quantas vezes o nome de Carolina.
Carolina – O meu nome?... Como, mãezinha?
Antônio (a Luís) – Ainda pretendes negar?
Luís – Mas era o nome de outra moça...
Carolina – Chama-se Carolina, como eu?
Luís – Sim, minha prima.
Antônio – Pensas muito nessa moça, para distraíres por ela a tal ponto.
Margarida – Com efeito quem traz assim a lembrança de um nome sempre na idéia...
Luís – Que fazer, Margarida? Por mais vontade e prudência que se tenha, ninguém pode arrancar o coração; e nos dias em que a dor o comprime, o nome que dorme dentro dele vem aos lábios e nos trai. Tive naquele dia esse momento de fraqueza; felizmente, não perturbou o sossego daquela que podia acusar-me. Agora mesmo ela ignora que era o seu nome.
Antônio – À vista disso decididamente não queres casar com tua prima?
Luís – Não, Antônio; agradeço mas recuso.
Antônio – Por que razão?
Luís – Porque ela... porque...
Margarida – Já não disse! Não lhe tem amor; gosta de outra.
Carolina – E vai casar com ela!
Antônio – Olha lá; se é este o motivo, está direito; mas se não tens outra em vista, diz uma palavra, e o negócio fica decidido.
Carolina – Meu pai!... Vamos. Sim, ou não?
Luís – Não, amo a outra...
Carolina – Ah!...
Antônio – Está acabado! Não falemos mais nisto.
Carolina – Obrigada; Luís, sei que não mereço o seu amor. Luís – Tem razão, Carolina: deve agradecer-me.CENA V (Antônio, Margarida e Carolina)
Antônio – Margarida, tu conheces alguma outra moça na vizinhança que se chame Carolina?
Margarida – Não: mas isto não quer dizer nada: pode ser que aquela de quem Luís falou more em outra rua.
Antônio – Não acredito.
Carolina – Meu pai deseja por força que Luís seja meu marido. Ainda cuida que ele gosta de mim.
Antônio – Disto ninguém me tira.
Margarida – Mas, homem, não o ouviste afirmar o contrário?
Antônio – Muitas vezes a boca diz o que o coração não sente.
Carolina – Ora, meu pai, por que motivo ele encobriria?
Antônio – O motivo? Tu és quem pode dizer (Vai a sair)
Carolina – Eu?...
Margarida – Sabes que mais? Antônio, vieste hoje da loja todo cheio de visões. Que te aconteceu por lá?
Antônio – Eu te digo, mulher. Contaram-me há dias, e hoje tornaram a repetir-me, que um desses bonequinhos da moda anda rondando a nossa rua por causa de alguma menina da vizinhança.
Carolina – Ah!
Margarida – Então foi por isto que assentaste de casar Carolina?
Antônio – Uma menina solteira é um perigo neste tempo. (Saindo)Estes sujeitinhos têm umas lábias!
Margarida – Para aquelas que querem acreditar neles. (Pausa. Batem na porta)
Carolina – Estão batendo.
Margarida – Há de ser a moça dos vestidos.
CENA VI (Helena, Margarida e Carolina)
Helena – Adeus, menina. Boa noite, Sra. Margarida.
Margarida –Boa noite.
Carolina – Venha sentar-se.
Margarida – Aqui
está uma cadeira.
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.