Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Prudêncio – Eu sou o que diz o meu nome: Prudêncio! O homem da prudência; não hei de nunca desonrar a minha espada de tenente de ordenanças em bernardas de pouco mais ou menos; chegue, porém, o dia de uma grande e verdadeira batalha, em que haja cargas de cavalaria, descargas de infantaria, trovoada de artilharia, e verão como brilho no meu elemento!
Afonsina – Com vossa mercê na batalha há de haver por força uma carnagem horrorosa!
Plácido, Leonídia e Afonsina, juntamente.
Se os tambores rufassem deveras,
À peleja os guerreiros chamando,
O tenente Prudêncio, chorando, Fugiria medroso e poltrão.
Prudêncio – Não!não! não!
Se os tambores rufassem deveras,
À peleja os guerreiros chamando, Meu ginete veloz cavalgando,
Eu voara com a espada na mão.
Façam de conta
Que negra afronta Sem mais tardar Corro a vingar.
A uns degolo,
Outros esfolo,
Outros imolo, Sem trepidar.
Zás! Cutilada!
Zás! Estocada! Zás! Pistolada!
Sem descansar:
E derribando,
E cutilando,
E decepando
Sem respirar,
Só me detenho
No fero empenho,
Quando não tenho Mais quem matar.
(Ouve-se o rufar de tambores)
(Assusta-se) Misericórdia! Que é isto?
Plácido, Leonídia e Afonsina – Avante! Avante! Prossiga! Chama o tambor os guerreiros!
Prudêncio – Estou com dor de barriga.
Leonídia – Que tremor é esse, mano Prudêncio? dir-se-ia que tem medo!
Prudêncio – Não é medo, não; mas vocês sabem que eu sou muito nervoso, e assim...um rufar de repente...
Afonsina (Que tem ido à janela) – Sossegue, meu tio: é apenas a guarda do paço que se vai render.
Prudêncio – E quem foi que se assustou aqui?
O rufo dos tambores
Exalta o meu valor
Com a durindana em punho,
Nas asas do furor,
Eu levo aos inimigos A morte e o terror.
Plácido, Leonídia e Afonsina, juntamente
O rufo dos tambores
Abate o seu valor;
Não sabe mais da espada,
Tem medo e não furor, E em dores de barriga Disfarça o seu terror.
Afonsina – Realmente, meu tio, vossa mercê vale os doze Pares de França juntos!
Prudêncio – Eu sou assim; sou o homem das grandes ocasiões!
CENA II
Os precedentes e Luciano
Luciano – Mas o pior é, tio Prudêncio, que as suas grandes ocasiões não chegam nunca.
Prudêncio – Ora, eis aí o senhor espalha-brasas conosco! Faça coro ali com a senhora, e venha também divertir-se comigo.
Luciano – Nada de amofinar-se; o dia de hoje é de festa, e portanto não se enfade.
Plácido – Entretanto, vejo-te de chapéu na mão, e disposto a roubar a Afonsina algumas horas de um dia, que deveria ser todo consagrado a ela.
Luciano – Meu pai, eu conto com o perdão de Afonsina e com o seu, asseverando que somente motivos da mais grave importância me obrigam a sair por uma hora.
Prudêncio – Oh! Pois não! O senhor anda sempre ocupado com assuntos da mais elevada transcendência; não há bernarda em que não entre, nem revolucionário a quem não conheça; agora então vive sempre pelas grimpas; freqüenta a casa do advogado Rocha, já é maçom, e ainda ontem foi duas vezes à casa do ministro José
Bonifácio.
Plácido – Muito bem, Luciano! Muito bem! Estas amizades fazem a tua glória: vai, meu filho, e continua a proceder como até aqui. (Tocam cornetas)
Prudêncio – Pior vai ela! Que diabo de tempo em que a cada instante se ouvem os ecos das cornetas e o rufar dos tambores!
Luciano – Creio que hoje deve ter lugar algum acontecimento importante; o nosso magnânimo Príncipe está a chegar de S. Paulo; mas...tio Prudêncio, por que não vai saber que novidades há?
Prudêncio – Pensa que tenho medo? ... pois vou imediatamente. (À parte) Hei de pôr a cabeça na rua; mas, pelo sim, pelo não, deixarei o corpo no corredor. (Vai-se) Luciano — Meu pai, procurei um meio de afastar o tio Prudêncio, porque antes de sair preciso dizer-lhe duas palavras em particular.
Leonídia – Visto isso, também devemos retirar-nos?
Luciano – Por um instante só, minha mãe.
Leonídia ( A Plácido) – Acho Luciano hoje mais sério do que costuma mostrar-se.
Luciano (A Afonsina) – Afonsina, eu voltarei nas asas do amor.
Afonsina (A Luciano) – Nunca sem tardar muito para a minha saudade.
Leonídia – Vem, Afonsina. (Vai-se)
Afonsina (À parte) – E ainda não sei o que contém a caixa nem a sala. (Vai-se)
brasileiros; A morte ou a vitória! CENA IV
brasileiros; A morte ou a vitória!
CENA IV
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Amor e Pátria. [S.l.]: [s.n.], s.d.. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16668 . Acesso em: 29 dez. 2025.