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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

—Repara no que te ensina a rosa, disse Anica; repara e compreende quanto te pode aproveitar a miopia: as flores que mais almejas distinguir e admirar não são as do nosso jardim, são as que enfeitam e enchem de magia os salões das sociedades, que não freqüentas, são as jovens formosas com que sonhas em sonhos doidos de amor ainda mais doido; essas, porém, assemelham-se à rosa d'Alexandria, tem espinhos que te despedaçariam o coração.

Anica interrompeu-se por breves instantes para suspirar; eu ouvi o suspiro, e ia perguntar-lhe, na minha simplicidade, se estava incomodada, quando ela continuou, dizendo:

—Contenta-te, pois, com a angélica que é suave ao tacto e que te pode embalsamar a vida do retiro com o perfume do amor e da virtude.

Fiquei mudo: tinha compreendido o apólogo apesar da minha miopia moral.

Anica faz talvez um esforço para vencer o pudor e perguntou-me:

—Sabes quem é a angélica?...

Instintivamente me fingi mais pobre de espírito do que sou, e respondi perguntando:

—A angélica? pois não é aquela flor que me deste?...

Deixamos o jardim: eu saia dele com um espinho de roseira na ponta do nariz, e Anica provavelmente com o espinho da minha indiferença no seio.

Senti que chegara a ser cruel; mas eu nem sabia se Anica era bonita ou feia; porque nunca pudera ver-lhe distintamente o rosto: se fosse bonita não seria o seu amor a mais doce consolação para mim?

Tive uma idéia inspirada metade pela gratidão, metade pela curiosidade maliciosa, a idéia de ver se Anica era bonita ou feia, se me seria possível amá-la. Chegando a sala, sentei-me e pedi à prima que me tirasse o espinho da ponta do nariz.

A inocente moça prestou-se a fazer a fácil operação: armou-se da tesoura mais delicada que achou, com os macios dedos da mão esquerda segurou-me o nariz, com a mão direita dirigiu a ponta da tesoura, e cuidadosamente ocupada em extrair-me o espinho, chegou seu rosto tão perto dos meus olhos que mais não era possível.

Durante três ou quatro minutos vi, distingui, apreciei suficientemente o rosto de Anica... não era o rosto com que eu sonhava, não era o das descrições das heroinas dos romances que me tinham lido... não era.

O rosto da prima Anica e muito respeitável; mas em consciência esta muito longe de ser angélico.

A prova de que é muito respeitável esta em que não tive necessidade de expelir de minha alma o menor desejo desrespeitoso, achando-se esse rosto por alguns minutos ainda mais peito dos meus lábios, do que dos meus olhos.

A prova concludentíssima de que Anica não é angélica, está em que a operação me pareceu tão dolorosa como demorada.

Anica tivera a bondade de fazer-me ouvir a significação moral do seu apólogo da rosa d'Alexandria e da angélica. O apólogo não lhe aproveitou; mas a culpa disso não esta em mim. Ofereço agora, não a Anica, porque me pesaria molestá-la, porém às senhoras a quem o caso possa interessar, a moralidade da história da extração do espinho da ponta do meu nariz.

É uma pequenina história que também pode correr, como apólogo. A moralidade é esta:

Moça que não for bonita não se preste a extrair espinho da ponta do nariz de homem míope.



VI

No princípio do ano corrente de 186... o excelente sistema de governo que nos rege, deu-me o sinal da minha regeneração civil; e política.

Sem que o mano Américo, a tia Domingas e a prima Anica disso previamente soubessem, fui incluído na lista dos jurados da minha freguesia; quando chegou-nos a notícia do fato consumado houve em nossa casa uma espécie de consternação.

Até que ponto chega o amor dos parentes, a influência do sangue da família! meu irmão, minha tia, e minha prima sobressaltaram-se ante o perigo que eu corria por me haverem reconhecido dotado de senso comum!

Era certamente porque o mano Américo via que não lhe era possível ser também jurado por si e por mim. Eu ia começar a ficar exposto as ciladas do mundo e dos homens sem consciência. O juiz de direito que presidira a revisão da lista dos jurados, resolvera um problema até então intrincadíssimo, declarando que eu podia ser jurado, e que por conseqüência eu tinha senso comum, condição exigida pela lei.

Eu fui alheio a tudo isso: estava mesmo convencido pelo mano Américo e pela tia Domingas que ate o senso comum me faltava; confesso, porém, que mudei de opinião com íntima e mal disfarçada alegria.

Um juiz de direito não pode julgar de modo torto: ao menos tem a seu favor a presunção de direito, que em falta de todos os outros fundamentos é fundamento que supre todos os outros; para mim que não sei aprofundar as coisas, um juiz de direito é sempre tão infalível na ciência do direito, como um padre na ciência do latim.

Por conseqüência fiquei convencido de que tinha senso comum.

Ninguém faz idéia do profundo contentamento que me deu esta convicção.

E não era para menos.

(continua...)

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