Por Mário de Andrade (1947)
E pressentira uma vergonha que a inundava de remorsos felizes. Praquê contara o seu olhar na janela enfrestada do quarto, o ouvido, a cara toda enfim na umidade de setembro, aprendendo o esperanto fácil dos gatos da noite? “J’attrape mes rhumes à cause de ces chats. ..”E se resfriava inda mais, devorando homeopatias. Nos seus quarenta e três anos de idade, Mademoiselle estava tomada por um vendaval de mal de sexo. Não se compreendia, nunca tivera aquilo em sua virgindade tão passiva sempre. Amara sim, duas vezes, mas nunca desejara. Agora, as meninas tinham chegado, era o vendaval, tão estalantes de experiências próximas, que puseram tuaregues no corpo de Mademoiselle. E Mademoiselle estava... só um verbo irracional dirá no que Mademoiselle estava: Mademoiselle estava no cio.
O vendaval. Ela sentia masculinos “ces personnages” que a frolavam no escuro do quarto, na fala das meninas, na desvirginação escandalosa das ruas. Agora Mademoiselle anda de a-pé e procura no jornal onde é o lugar de encontro das multidões. Mas não vai lá, tem medo. Não é feliz, mas também não pode-se dizer que ficasse infeliz, Madempoiselle estava gostosa. E nessa paciência compensadora dos tímidos, ela ia saborear todos os dias nas conversas com as meninas, um naco elástico dos gozos que em pouco elas irão viver. Quase sempre era assim mesmo: era ela a concluir em malícia as frases inventadas pelas alunas, que por certo ficariam muito atrapalhadas se a quarentona as deixasse continuar o que inventavam até um fim inexistente e siquer pressentido.
— Un après-midi nous avons vu un homme avec une barbe, vous comprenez... derrière la cathédrale de Rouen... Alor, vous comprennez...
— Ma chère enfant, j’estime que vous allez trop loin. Je vous défend de continuer! E decisória, pxx: Ce qui se passait derrière la cathédrale de Rouen, voyons! se passe derrière toutes les cathédrales!
Mas não só ela concluía assim as investigações das meninas. Era ela mesma a propor os assuntos mais salgados. E quando os propunha, chegando o instante da verdade, sem coragem para continuar, ela exclamava o “quelle sottise”e reticenciava mais claro que tudo:
— Et alors... c’était comme derrière la cathédrale de Rouen.
A catedral contava tudo. E era deliciosamente punidor o tudo que contava a catedral. Mademoiselle arranjava as rendinhas, agitada. Alba esperando, se entregara ao cacoete favorito, aquela mania desagradável de dobrar o pulso, forcejando pra tocar o antebraço com o polegar. Mademoiselle volta à vida, com a irritação:
— Alba, pourquoi faites-vous çà...
E a menina entre envergonhada e atacante:
— Excusez-moi, Mademoiselle... c’est de la cochonnerie.
— Cochonnerie!
Aquilo a espantava enfim. As meninas andavam empregando “cochonerie” sem o menor propósito. Alba trocou o olhar preventivo com a mana, mas contendo o riso, se escondeu numa inocência espantada, afirmando que a professora mesmo é que dissera serem “cochonneries” as coisas inúteis.
— Moi, mon enfant!
— V’oui! le jour que les ouvriers se donnaient la main!
O caso é que três dias antes elas liam no jardim aproveitando o solzinho raro daquele setembro chuvoso e passara na rua um casal de operários se dando a mão. Decerto o rapaz estava querendo dizer coisas bem íntimas, porque a moça procurava se desprender, ambos forcejavam e riam numas gargalhadas que enfeitaram toda a rua. Mademoiselle saiu da leitura e se perdeu, seguindo os namorados com os olhos e a vida. As meninas também tiveram a atenção chamada pelos risos, mas percebendo o que era, apenas dois namorados, quiseram voltar à leitura geográfica lhes contando coisas mais novidadeiras. Mas o perdimento de Mademoiselle despertou a vontade de maliciar. Alba disse:
— Qu’es-ce qu’ils font?
Mademoiselle corou vivo e trouxe os olhos para as duas. Mas assim pegada em pecado não lhes agüentou o olhar agudo, já rindo muito. Quis disfarçar, arranjando a rendinha, e murmurou o mais inocente que pôde fingir, uma resposta que considerou perfeita:
— Ils se donnent la main.
Mas Lúcia no sufragante:
— Pour quoi faire!
Mademoiselle fitou indignada a menina. Chegou a estremecer na visão. Pois elas bem não tinham visto o que se passara atrás da catedral de Ruão! Deu um daqueles muxoxos, meio nojo, meio desnorteamento, que lhe mereciam todas as cochoneiras dessa vida:
— ... pour quoi faire...pxx!„.
Alba e Lúcia a examinavam deliciadas. Mademoiselle fazia força pra se acalmar, “pour quoi faire..." Ela bem sabia que não se deve deixar perguntas de criancinhas sem resposta. Era melhor fingir desinteresse por aqueles dois “personnages gluants”, se dando a mão com tanta imoralidade. E voltou ao livro enquanto ainda sussurrava só consigo, aturdida, “pour quoi faire”...
(continua...)
ANDRADE, Mário de. Atrás da catedral de Ruão. In: ANDRADE, Mário de. Contos novos. São Paulo: Martins, 1947.