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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Betica

Por Gregório de Matos (1969)

Betica: a bom mato vens
com teu dá cá, com teu toma,
o diabo te enganou,
não pode ser outra cousa.
Viste-me acaso com jeito,
de comissário da frota,
que faz roupa de francês
dos borcados de Lisboa?
Sou eu acaso o Mazulo,
que, do que tem de outras contas,
dá sem conta cada um ano
cem mil cruzados à Rola?
Sou Mataxim por ventura,
que vim onte ontem d'Angola,
e dos escravos alheios
faço mercancia própria?
Menina, eu bato moeda?
eu sou um pobre idiota,
que para um tostão ganhar
estudo uma noite toda.
Cem mil-réis me vens pedir?
a mim, cem mil-réis, demônia?
se eu algum dia os vi juntos,
Deus mos dê, e mos comei.
Se eu nascera Genovês,
ou fora visrei de Goa,
vinte quatro de Sevilha,
ou quarenta e oito de Roma:
Dera-te, minha Betica,
pela graça, com que tomas,
mais ouro, que vinte minas,
mais sedas, que trinta frotas.
Mas um pobre estudantão,
que vive à pura tramóia,
e sendo leigo, se finge
cleriguíssimo corona:
Que pode, Betica, dar-te,
se não qués versos, nem prosa?
eu não dou senão conselhos,
se mos paga, quem mos toma.
Se me há de custar tão caro
erguer-te uma vez as roupas,
com outra antes de barrete,
do que castigo de gorra.
Para que sendo tão rica
pedes como pobretona,
se esses teus dentes de prata
estorvem o dar-te esmolas!
Que mais cabedal desejas,
se és tão rica de parolas,
que com vários chistes pedes
todo um dia a mesma cousa?
Tu pedindo, e eu negando,
que cousa mais preciosa,
que val mais, do que desejas,
e a ti nada te consola.
Cem mil-réis de uma só vez?
pois, pobreta, à outra porta;
Deus te favoreça Irmã,
não há trocado; perdoa.
Não há real em palácio,
ando baldo, perdi a bolsa;
que são os modos, com que
se despede uma pidona.

TORNA ESTA DAMA A INVESTIR SEGUNDA VEZ AO POETA PEDINDOLHE HUMA GALA, E ELLE FAMOSAMENTE SE DESEMPULHA DESTE MODO.

Culpa fora, Brites bela,
não vos dar aquela gala,
em que o vosso amor me fala
tantas vezes com cautela:
mas que gala será? Tela?
Tela não, minha menina,
porque como sois tão fina,
e tão lindo serafim,
para luzirdes assim
vossa gala é serafina.

PICADA BETICA, DE QUE O POETA LHE NÃO DESSE A GALA, LHE APPARECEO EM CERTA OCCASIÃO COM HUMA SAYA DE SEDA AMARELLA, MAS O POETA SE DESPICA COM ESTAS DÉCIMAS.

1 Toda a noite me desvelo
por saber, com que conselho
para meter de vermelho,
vos vestistes de amarelo:
não sabe o vosso Donzelo,
qual amante, ou quais amores
vos deu a gala de flores:
porque assim como chamais
para a cama oficiais,
para a gala coadjutores.

2 Como se fora o deitá-la
render um forte iminente,
andais ajuntando gente,
para deitar uma gala:
noutra cousa se não fala,
mais que a gente, que fazeis,
porque quando os convoqueis,
e eles vos forem galando,
mil galas vos irão dando,
com que mil galas tereis.

3 De tanto amante sem conto
a gala haveis recebido,
que nos pontos do cosido,
cabe a cada amante um ponto:
não vos sinto outro desconto,
sendo a vossa obrigação
tanta quantos pontos são:
senão, que um e outro se afoite,
irem pagar-se de noite
nos pontos, que se lhes dão.

4 Não tendes, que vos queixar
destas minhas travessuras,
porque eu vos bato as costuras,
para o vestido assentar:
se todos hão de pagar
em chegando a vos dormir,
deixai também repartir
por mim esta obrigação,
que os mais de vestir vos dão,
e eu vos corto de vestir.

CERTO COMISSARIO DA PRAYA SEU AMAZIO, SABENDO, QUE ANTES DE ELLA IR À SUA CASA, COSTUMAVA PRIMEYRO TRATAR CO MANUEL RAMOS PARENTE, LHE PREPAROU UMA LAVAGEM DE PIMENTAS, DE QUE FICOU EM MISERAVEL ESTADO.

1 Dá-me, Betica, cuidado,
o desastre, que tivestes,
quando gulosa comestes
o paio salpimentado:
não era inda divulgado
vosso mal, vosso desmaio,
quando eu soube como um raio
de u'as agulhas ferrugentas,
que comestes as pimentas,
mas não gostastes do paio.

2 Em vinganças tão cruentas
tenho por justas seqüelas,
que, a quem dais dor de canelas, vos dê dores de pimentas:
mais vezes do que duzentas vos mandou pôr atalaia
o vosso amigo da praia,
e vendo, que o outro malho
vos punha de vinha-d'alho
quis pôr-vos de jiquitaia.

3 Fez bem vosso barregão, pois que via com seu olho,
que vínheis com tanto molho, de botar-lhe o pimentão:
vós vínheis de outra ocasião que ele viu, e coligiu,
e como tanto o sentiu
(sendo vós sua manceba)
que muito, que vos receba
com puta que te pariu.

4 Ele vos pôs justamente
Betica, em tanto perigo,
porque se tendes amigo,
não tenhais outro parente:
nem se sofre à boa mente
(inda que sejam subornos
a beleza, e os adornos)
que uma Moça de reclamos
se deite à sombra dos Ramos,
se os Ramos produzem cornos.

5 E pois vos vejo estalar
tomara agora saber,
em que vaso heis de cozer,
o que haveis de manducar?
eu não hei de lá chegar,
bem que a estrela violenta
me inclina, arrasta, e atenta,
pois tendes vaso tão mau,
que sobre ser bacalhau
tem muchíssima pimenta.
6 Mas deixada esta matéria,
a saber de vós me alhano,
que é feito daquele abano,
com que à noite da miséria
a vossa negra Quitéria
(sendo na gema do inverno)
vos abanava o interno
do vaso, que em viva chama
vos ardia mais na cama,
que o Avarento no Inferno.

AS DIFFERENÇAS QUE TINHÃO SEOS QUATRO AMANTES, SOBRE QUEM À HAVIA DE LEVAR.

(continua...)

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