Por Machado de Assis (1892)
— Por que não se portou ele como o Oliveira, que me respeita? continuou consigo. Entrara o quarto mês das relações, e o respeito do advogado não diminuiu. Jantaram juntos algumas vezes, e chegaram a ir juntos ao teatro. Oliveira, abriu até um capitulo de confidências com ela, não amorosas, é claro, mas de sensações, de impressões, de cogitações. Um dia, disse-lhe que, em pequeno, tivera desejo de ser frade; mas levado ao teatro, e assistindo à comedia do Pena, O noviço, o espetáculo do menino, vestido de frade, e correndo pela sala, a bradar: eu quero ser frade! eu quero ser frade! fez-lhe
perder todo o gosto da profissão.
— Achei que não podia vestir um hábito assim profanado.
— Profanado, como? O hábito não tinha culpa.
— Não tinha culpa, é verdade; mas eu era criança, não podia vencer essa impressão infantil. E parece que foi bom.
— Quer dizer que não seria bom frade?
— Podia ser que fosse sofrível; mas eu quisera sê-lo excelente.
— Quem sabe?
— Não; dei-me tão bem com a vida do foro, com esta chicana da advocacia, que não é provável tivesse a vocação contemplativa tão perfeita como quisera. Há só um caso em que eu acabaria num convento.
— Qual?
Oliveira hesitou um instante.
— Se enviuvasse, respondeu.
Genoveva, que sorria, aguardando a resposta, fez-se rapidamente séria, e não retorquiu. Oliveira não acrescentou nada, e a conversa naquele dia acabou menos expressiva que das outras vezes. Posto que tivesse o sono pronto, Genoveva não dormiu logo que se deitou; ao contrario, ouviu dar meia-noite, e esteve ainda muito tempo acordada.
Na manhã seguinte, a primeira coisa em que pensou foi justamente na conversação da véspera, isto é, naquela última palavra de Oliveira. Que havia nela? Aparentemente, pouco; e pode ser que, na realidade; ainda menos. Era um sentimento de homem que não admitia o mundo, depois de roto o consórcio; e iria refugiar-se na solidão e na religião. Confessemos que não basta para explicar a preocupação da nossa viúva. A viúva, entretanto, não viveu de outra coisa, durante esse dia, salvo o almoço e o jantar, que ainda assim foram quase silenciosos.
— Estou com dor de cabeça, respondeu à mãe, para explicar as suas poucas palavras.
— Toma antipirina.
— Não, isto passa.
E não passava. “, pensava Genoveva; logo, era uma censura a ela, por não ter feito o mesmo. Mas que razão havia para desejá-la recolhida a um mosteiro? Pergunta torta; parece que a pergunta direita seria outra: “ Mas se não era direita, era natural, e o natural é muitas vezes torto. Pode ser até que, bem exprimidas as primeiras palavras, deixem o sentido das segundas; mas, eu não faço aqui psicologia, narro apenas.
Atrás daquele pensamento, veio outro mui diverso. Talvez que ele tivesse tido alguma paixão, tão forte, que, se casasse e enviuvasse... E por que não a teria ainda agora? Pode ser que amasse a alguém, que pretendesse casar, e que, se acaso perdesse a mulher amada, fugisse ao mundo para sempre. Confessara-lhe isto, como usava fazer a outros respeitos, como lhe confessava opiniões, que dizia não repetir a ninguém mais. Essa explicação, posto que natural, atordoou Genoveva ainda mais que a primeira.
— Afinal, que tenho eu com isto? Faz muito bem.
Passou mal a noite. No dia seguinte foi com a mãe fazer compras à Rua do Ouvidor, demorando-se muito, sem saber por quê, e olhando para todos os lados, sempre que saía de uma loja. Passando por um grupo estremeceu e olhou para as pessoas que falavam, mas não conheceu nenhuma. Tinha ouvido, entretanto, a voz de Oliveira. Há vozes parecidas com outras, que enganam muito, ainda quando a gente vai distraída. Há também ouvidos mal educados.
A declaração de Oliveira de que entraria para um convento, se chegasse a enviuvar, não saía da cabeça de Genoveva. Passaram-se alguns dias sem ver o advogado. Uma noite, depois de cuidar no caso, Genoveva olhou para o retrato do marido antes de deitar-se; repetiu a ação no dia seguinte, e o costume dos primeiros tempos da viuvez tornou a ser o de todas as noites. De uma vez, mal adormecera, teve um sonho extraordinário.
Apareceu-lhe o marido, vestido de preto, como se enterrara, e pôs-lhe a mão na cabeça. Estavam em um lugar que não era bem sala nem bem rua, uma coisa intermédia, vaga, sem contornos definidos. O principal do sonho era o finado, cara pálida, mãos pálidas, olhos vivos, é certo, mas de uma tristeza de morte.
— Genoveva! disse-lhe ele. Nhonhô! murmurou ela.
— Para que me perturbas a vida da morte, o sono da eternidade?
— Como assim?
— Genoveva, tu esqueceste-me.
— Eu?
— Tu amas a outro.
Genoveva negou com a mão.
— Nem ousas falar, observou o defunto.
— Não, não amo, acudiu ela.
Nhonhô afastou-se um pouco, olhou para a antiga esposa, abanou a cabeça incredulamente, e cruzou os braços. Genoveva não podia fitá-lo.
— Levanta os olhos, Genoveva.
Genoveva obedeceu.
— Ainda me amas?
— Oh! ainda! exclamou Genoveva.
— Apesar de morto, esquecido dos homens, hóspede dos vermes?
— Apesar de tudo!
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um sonho e outro sonho. A Estação: Jornal Ilustrado para a Família. Rio de Janeiro, 31 maio 1892.