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#Romances#Literatura Portuguesa

Os Brilhantes do Brasileiro

Por Camilo Castelo Branco (1869)

― Com quem? com quem? – tornou a perguntar. – Com dez milhões de diabos, com quem gastaste um conto e seiscentos e ...

― Não foi em coisas que me desonrassem, nem a ti...

― Então diz em que foi?

― Não posso.

― Não podes? Raios!... pois não podes? Então quem é que pode?

― Não posso.

― Arrebento! Tu não me cegues, mulher! Olha que eu já te não vejo nem enxergo! Com quem gastaste um conto e seiscentos e...

― Mata-me que te perdôo a morte – volveu ela tranqüilamente. – Morrerei sem remorsos nem vergonha. As jóias de minha mãe valem quatro a cinco contos de réis. Faz de conta que estás pago do roubo que te fiz: lá as tens.

A história não é essa, não é o dinheiro... – replicou briosamente o marido. – O que se quer saber é a quem deste o capital?

― A quem o precisava para não ser infeliz.

― Essa é boa! Então deste um conto e seiscentos e cinqüenta mil réis de esmola?

― Dei.

― Mas a quem? a quem? com dez milhões de...

― Não te posso dizer mais nada, Hermenegildo... A criada está inocente. Não a prendas. ― Há de ir presa até dizer a quem deste o dinheiro ― Ela morrerá sem o dizer.

― Pois há de morrer... – vociferou Barrosas saltando e batendo com os dois pés em cheio no soalho. – E tu... não sei o que será de ti...

― Mata-me que eu não tenho pena de deixar o mundo... – murmurou sossegadamente, mas debulhada em lágrimas, a pálida senhora.

Hermenegildo rolou a sua pessoa fumegante escadas a baixo. Entrou no escritório do administrador, chamou de parte a autoridade, e contou-lhe o ocorrido com a mulher, insinuando o magistrado a sacar da criada o segredo.

― O meu dever é aceitar as declarações voluntárias da criada – disse o administrador. – Não posso incutir-lhe terrores, nem devassar os segredos da vida doméstica de vossa senhoria. Se sua senhora diz que a criada está inocente, a confissão da ré não basta a destruir o depoimento da ama, sendo de mais a mais muito natural que os brilhantes se hajam vendido por consentimento de sua esposa; aliás, desde muito que ela teria dado pela falta. Enfim, sou obrigado a interrogar a ama e a crida, uma na presença da outra.

― Essa vergonha é que eu não quero! – obstou desabridamente o brasileiro.

― O interrogatório há de ser secreto: não há testemunhas que divulguem este ato impreterível de justiça – contraveio a autoridade. – Se sua senhora disser de modo convincente: “a criada cumpriu as minhas ordens”, é certo que a moça não pode ser pronunciada, visto que obedeceu a sua ama; e os desvios dos bens comuns feitos pela esposa não é roubo, nem a cumplicidade da criada é punível. Se sua esposa foi burlada por algum industrioso, e quiser declarar-se, o meu dever é seguir o fio do enredo; mas o que eu não posso é interrogá-la sobre segredos da sua vida íntima. Isso pertence a vossa senhoria mediante processo de outra natureza...

― Então... afinal diz-me vossa senhoria que... – interrompeu o brasileiro, zangado.

― Que vou mandar chamar sua senhora...

― Pois chame! – bradou ele. – Este negócio há de aclarar-se... Não se me importa a vergonha nem o diabo! Eu sou um homem de bem, Sr. Administrador!

― Quem o duvida?

― Ninhos atrás das orelhas não mos fazem!

― Com razão...

― O meu dinheiro quero saber que fim levou...

― Essas averiguações é que são delicadas, Sr. Fialho, - aconselhou a autoridade. - E parecia-me razoável e prudente que vossa senhoria as guardasse para o secreto da sua casa.

― Mas ela não o diz!

― Se o não diz a vossa senhoria, menos o dirá a mim ou ao juiz...

― Diz que deu um conto e seiscentos e cinqüenta mil réis de esmolas! O senhor acredita isto?

― Acredito;... porque não? Se ela repartisse por todos os infelizes do Porto essa grande quantia, estou em que não chegaria um pinto a cada pobre.

― Mas então a criada que diga a quem levava as esmolas. Dá-me vossa senhoria licença que eu pergunte? ― Sim, senhor – respondeu o administrador, e, tangendo uma campainha, disse o oficial de diligencias: ― Essa mulher que entre aqui sozinha.

Entrou Vitorina.

― Responda ali a seu amo – disse a autoridade à presa.

Hermenegildo assoou-se, fez duas upas na cadeira, roçou no pavimento as espaciosas plantas, e rompeu neste interrogatório:

― quem roubou os brilhantes?

― Fui eu, senhor.

― Mentes! Os brilhantes foi tua ama que tos mandou vender!

Vitorina estremeceu, fitou o administrador, e gaguejou palavras imperceptíveis.

― Foi sua ama que mandou vender os brilhantes? – interveio a autoridade.

― Não, senhor... Fui eu que os... furtei.

E as lágrimas derivavam-lhe pelas faces copiosamente.

“Esta mulher está inocente!” disse entre si o interrogador.

― Mentes, desavergonhada! – trovejou o Sr. Fialho, jogando com as catapultas dos braços à cara da criada.

(continua...)

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