Por Machado de Assis (1872)
Ruy de Leão contemplava o vaso, sem poder adivinhar o que continha. Veio em auxílio dele o pajé.
— Era uma noite em que eu, não podendo dormir, fui sentar-me à beira do mar contemplando as estrelas. Estava ali já havia muito tempo, quando me apareceu um vulto cheio de luz e me disse: “ “ “
Ruy de Leão teve um movimento generoso.
— Ah! disse ele, bebe depressa.
O pajé empurrou levemente o genro.
— Não! se eu quisesse ser imortal, não o teria já bebido? Aceitei o licor com alegria e guardei-o para beber mais tarde. Profundos desgostos me amarguraram a vida; não quero ser imortal. Tu sim; és feliz; podes ser imortal. Dou-to; é para ti. Mas agora enterra o vaso; ninguém deve saber disto.
Ruy de Leão enterrou o vaso.
A noite estava escura; uma coruja piou em cima de uma árvore; o pio da coruja e o murmurar do rio eram os únicos sons que se ouviam. Quando Ruy de Leão se levantou, viu que o pajé tremia, segurou-o para não cair. Era tarde; o pajé expirou. Grande foi a dor de Nanavi, quando soube da morte do pai. A cerimônia fúnebre impressionou a todos, porque a palavra do pajé era respeitada e adorada, e todos sabiam que se perdia nele uma glória da raça tamoia.
II
Ruy de Leão voltou ao lugar onde se achava enterrado o vaso do elixir. Desenterrou-o, tirou-lhe a tampa e examinou atentamente o conteúdo. Era um líquido amarelo, com seus reflexos azuis quando recebia os raios do sol.
A porção não era muita, nem para o fim proposto era preciso mais.
O cheiro do líquido era uma mistura de almíscar e canela.
O esposo de Nanavi enterrou o vaso e sentou-se sobre uma pedra que lhe ficava ao pé. Não se pode saber que tempo gastou Ruy de Leão nas profundas reflexões em que se mergulhou o seu espírito. Apenas sabemos que, quando Ruy de Leão levantou a cabeça, tinha um sorriso nos lábios.
— Ilusão! exclamou ele; isto é impossível. Por que motivo não vi logo que o pajé era vítima de um sonho, ou desejava impor a sua privança com Tupã? Imortalidade! só Deus poderia dá-la, mas esse não a dá com certeza: a verdade é esta. Eia, Ruy de Leão, evoca o teu bom senso; não sejas tamoio em tudo. O pajé podia iludir aos outros, mas a mim!...
Levantou-se, deu dois passos e parou contemplando o lugar onde estava enterrado o precioso vaso.
— E contudo, disse ele, era tão bom possuir a imortalidade! Ver correr os séculos uns após e outros; ver passar as gerações; o nascimento e a queda dos impérios, e ficar sobranceiro a tudo; zombar do tempo e dos homens!... Oh! seria uma grande ventura, e se realmente o elixir do pajé...
Ouviu uns passos. Era Nanavi.
— Pensas no teu país? perguntou a indígena.
— O meu país é o teu, Nanavi, a minha pátria é o teu amor. Que teria eu lá mais do que tenho aqui? O sol é o mesmo; pisa-se a mesma terra; respira-se o mesmo ar. Vive-se a mesma vida; morre-se da mesma morte.
Nanavi lançou os braços à roda do pescoço de Ruy de Leão; este beijou-a ternamente na testa.
— Andas pensativo... que tens?
— Nada; saudades do pajé.
— Pobre pai!
Ruy de Leão sentou-se sobre uma pedra.
— Era um grande homem teu pai, disse ele.
— Era um sábio.
— Sim, era.
— Ninguém melhor do que ele, continuou Nanavi, sabia ler no céu, nem combinar as raízes da terra.
Ruy estremeceu.
— Que tens?
— Nada. Teu pai conhecia as virtudes das raízes?
— Quem as não conhece entre os filhos de Tupã?
— Tens razão.
— Meu pai era mais sábio que todos os outros; mas não o dizia a ninguém. Ruy de Leão ficou pensativo.
— Quem sabe, dizia ele consigo, quem sabe se o pajé não combinou este elixir por meios secretos, e modestamente o atribuiu a origem divina?
Não sem admirar a modéstia do pajé, Ruy de Leão demorou-se nesta idéia e concluiu que, em todo o caso, não sendo provável que o sogro lhe quisesse mal, a bebida se não lhe desse a imortalidade, também não daria a morte.
Dois meses depois veio à luz um amável pimpolho, fruto da união do fidalgo com a indígena.
Segundo o uso, Ruy de Leão meteu-se na cama, tomou os caldos, recebeu as visitas, ao passo que a mulher foi cuidar dos arranjos da casa. Urumbeba foi visitar assiduamente a Ruy, não porque ele carecesse dos seus serviços médicos, mas porque era conversador e alegre nas horas de bom humor.
Numa das ocasiões, disse-lhe que havia chegado àquela região um padre da nação de Ruy, homem apessoado e de falas de mel.
— Onde está? perguntou Ruy.
— Anda perto; foi visto na foz do rio.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ruy de Leão. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1872.