Por Machado de Assis (1872)
Viana era um homem essencialmente pacato com a mania de parecer libertino, mania que lhe resultava da freqüência de alguns rapazes. Era casto por princípio e temperamento. Tinha a libertinagem do espírito, não a das ações. Fazia o seu epigrama contra as reputações duvidosas, mas não era capaz de perder nenhuma. E todavia teria um secreto prazer se o acusassem de algum delito amoroso, e não defenderia com extremo calor a sua inocência, contradição que parece algum tanto absurda, mas que era natural.
Como Félix não lhe animasse a conversa no terreno em que ele a pôs, Viana entrou a elogiar-lhe os vinhos.
— Onde acha o senhor vinhos tão bons? perguntou depois de esvaziar um cálix.
— Na minha algibeira.
— Tem razão; o dinheiro compra tudo, inclusive os bons vinhos.
A resposta de Félix foi um sorriso ambíguo, que podia ser benevolente ou malévolo, mas que pareceu não produzir impressão no hóspede. Viana era um parasita consumados cujo estômago tinha mais capacidade que preconceitos, menos sensibilidade que disposições. Não se suponha, porém, que a pobreza o obrigasse ao ofício; possuía alguma cousa que herdara da mãe, e conservara religiosamente intacto, tendo até então vivido do rendimento de um emprego de que pedira demissão por motivo de dissidência com o seu chefe. Mas estes contrastes entre a fortuna e o caráter não são raros. Viana era um exemplo disso. Nasceu parasita como outros nascem anões. Era parasita por direito divino.
Não me parece provável que houvesse lido Sá de Miranda; todavia, punha em prática aquela máxima de um personagem do poeta: "boa. cara, bom barrete e boas palavras custam pouco e valem muito..."
Chamando-lhe parasita não aludo só à circunstancia de exercer a vocação gastronômica nas casas alheias. Viana era também o parasita da consideração e da amizade, o intruso polido e alegre, que, à força de arte e obstinação, conseguia tornar-se aceitável e querido, onde a princípio era recebido com tédio e frieza, um desses homens metediços e dobradiços que vão a toda a parte e conhecem todas as pessoas, "boa cara, bom barrete, boas palavras".
Parecendo-lhe que Félix estaria preocupado, Viana entendeu não dizer palavra antes de achar ocasião oportuna. Veio o café, e o primeiro que rompeu o silêncio foi o doutor. Viana aproveitou habilmente o ensejo para reatar o fio dos louvores, tão asperamente quebrado pelo dono da casa. Não lhe elogiou desta vez os vinhos, mas as qualidades pessoais; afirmou-lhe que ninguém era mais querido na casa do Coronel Morais, e que ele próprio não se recordava de pessoa a quem mais estimasse neste mundo.
— O senhor é tão feliz a este respeito, terminou o hóspede, que até as pessoas que o não vêem há muito conservam em toda a integridade o afeto que o senhor lhes inspirou.
Adivinha de quem lhe falo?
— Não.
— Bem, sabê-lo-á de noite; lá verá em casa do coronel uma pessoa que o admira, e que o não vê há muito. Sejamos francos; é minha irmã Lívia.
— Admira-me isso, porque eu apenas a vi duas vezes
— Não é possível, insistiu Viana. Lembra-me que eu mesmo os apresentei um ao outro. Se não me engano foi em dia da Glória, há dous anos ..
— Eu descia o outeiro, continuou Félix, quando os encontrei. Estivemos parados cinco minutos. A noite encontramo-nos em um baile; cumprimentamo-nos apenas e nada mais.
— Só isso?
— Nada mais.
— Nesse caso, concluiu Viana, cuido que o senhor possui o segredo de fascinar as moças, só com cinco minutos de conversa e um cumprimento de sala. Minha irmã fala muito no senhor, pelo menos depois que veio de Minas...
— Ah! ela esteve em Minas?
— Foi para lá há perto de dous anos, depois que lhe morreu o marido. Veio há oito dias; sabe o que me propõe?
— Não.
— Uma viagem à Europa.
— E vão?
— Os desejos de Lívia são ordens para mim. Contudo era talvez melhor que eu fosse só, porque uma senhora é sempre obstáculo aos desmandos de um pecador como eu. Não lhe parece?
— É então uma viagem de recreio? perguntou Félix.
— Ou de romance; Lívia tem esse defeito capital: é romanesca. Traz a cabeça cheia de caraminholas, fruto naturalmente da solidão em que viveu nestes dous anos, e dos livros que há de ter lido. Faz pena porque é boa alma.
— Vejo que tem todas as condições necessárias a um poeta, observou o doutor, lembra me que era bonita.
— Oh! a esse respeito a viuvez foi para ela uma renovação. Era bonita quando o senhor a viu; hoje está fascinante. Há ocasiões em que eu sinto ser irmão dela; tenho ímpetos de a adorar de joelhos. Com franqueza, assusta-me.
Leve sorriso encrespou os lábios de Félix, enquanto Viana prosseguia o panegírico da irmã, com um entusiasmo que podia ser sincero e interessado ao mesmo tempo. Ao fim de um quarto de hora levantou-se este para sair.
— Até à noite? disse apertando a mão do dono da casa.
— Até à noite.
Félix ficou só.
— Que mulher será essa, perguntou a si mesmo, tão bela que mete medo, tão fantasiosa que causa lástima?
CAPÍTULO II / LIQUIDAÇÃO DO ANO VELHO
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.