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#Contos#Literatura Brasileira

Quinhentos contos

Por Machado de Assis (1859)

— O coronel, que fez tudo quanto era possível para descobrir o autor da morte do filho, jura ainda hoje que se o encontrasse matá-lo-ia. Convém, portanto, que estando em casa dele não se refira nunca à revolução de 1842...

— Descanse.

A conversa continuou sem interesse para o romance. No fim de um quarto de hora, Máximo levantou-se para sair, e Alves, tendo ocasião de falar baixinho ao filho, disse-lhe rapidamente:

— Faze-lhe festas; este sujeito pode servir para alguma coisa.

Com efeito, Luís que até ali mostrara um ar de indiferença e aborrecimento ao pé de Máximo, não por causa dele, mas porque era o fundo daquela natureza morna e sem caráter, tomou o conselho do pai e entrou em amabilidades que o doutor agradeceu modestamente.

Quando este ia a sair ouviu-se uma voz na escada:

— Bem! eu subo!

— Conheço esta voz! exclamou Alves. É do Batista.

Poucos minutos depois entraram na sala dois indivíduos: um velho e um rapaz.

— Meu amigo!

— Meu amigo!

E os dois velhos caíram nos braços um do outro, ao tempo em que Luís apertava a mão do mancebo recém-chegado.

— Vejo-te enfim! Estás mais nutrido! mais corado! dizia Alves contemplando Batista. Desculpe, doutor, acrescentou ele voltando-se para Máximo; é um amigo! E tu, Carlos, como estás?

O moço que acabava de entrar com Batista, e que era filho dele, respondeu:

— Contente por vê-lo.

— Estás um rapagão!

— Como este! acrescentou Batista apontando para Luís. São dois magníficos produtos! O que é preciso é não envergonharem as barbas da gente. Ah! que ânsia tinha eu de ver-te!

Vendo esta efusão entre os dois amigos, Máximo calculou que se demoraria muito caso quisesse esperar o fim da cena. Pediu licença e retirou-se. Em duas palavras direi quem eram os novos personagens; e quais eram as relações entre Batista e Alves.

Tinham ambos nascido na mesma província, e foram educados juntos, porque as famílias mantinham entre si antigas relações. Aconteceu que, para que a identidade entre os dois fosse completa, morreram-lhe os pais com pequeno intervalo, e eles ficaram órfãos na adolescência. Resolveram, porém, fazer-se homens, e entraram na vida com grande atividade e indomável perseverança. Alves, abandonando a política, onde começou apenas teve dezoito anos, entrou na carreira comercial onde estava Batista, e ambos em pouco tempo adquiriram uma fortuna mais ou menos igual.2

Ultimamente, fora Batista à Europa, aonde o chamavam interesses de uma companhia fundada no Rio de Janeiro. Lá esteve algum tempo, até que volta agora com o filho, sendo a primeira casa que procurou a do seu caro Pílades.

Sentaram-se os dois velhos, enquanto Luís levou Carlos para cima a fim de conversarem mais à liberdade.

Batista e Alves entraram na exposição dos acontecimentos da vida de cada um deles. Como eram ambos viúvos, a primeira coisa que indagaram um do outro foi se não estavam casados, ao que ambos responderam negativamente.

— Declinei da honra em favor do pequeno, disse Batista.

— Casa-se o Carlos?

— Espera. Devo dizer-te que tive um susto.

— Ah!

— É verdade. Namoricou lá em Madri uma rapariga, e eu já estava com medo de vê-lo contrair alguma triste aliança. Felizmente aquilo não foi mais do que a pedra de toque do ânimo do rapaz.

— Dou-te os meus parabéns, disse Alves suspirando.

— Por que suspiras?

— Não tem juízo de sobra o meu Luís. Gosta aí de uma senhora viúva, bonita, moça e rica... Quatro virtudes! Que excelente casamento para ele e para mim! Pois o rapaz não faz nada; é de uma tibieza... A viúva é arisca, confesso. Tem a cabeça cheia de umas filosofias altas, de uns vapores, umas imaginações. Mas tudo isso vence-se... em havendo perseverança. Mas o Luís não compreende que para as grandes conquistas são necessárias as grandes armadas: embarca-se em canoas e admira-se de naufragar!

— Por esse lado estou contente. O Carlos não se distingue por essas tolices; é um rapaz como se quer. Para ele não há impossíveis, nem mesmo dificuldades. Tem axiomas de grande verdade. Pergunta-lhe o que é a vontade. É a alavanca do mundo, responderá ele. Se quiseres saber o que é a imaginação, diz-te logo que é um fardo para as cabeças ocas. Enfim, é um primor. Agora mesmo, apesar de chegar da Europa, já trago em vista um projeto que vou comunicar ao rapaz, e a ti também.

— O que é?

— Um casamento: trata-se de um casamento para o rapaz, coisa muito sólida e boa. O rapaz não conhece a noiva (eu já lhe chamo noiva), mas há de achá la linda antes de vê-la, por causa deste axioma que ele não cessa de repetir-me: A beleza é amarela.

Estavam nisto os dois quando parou um carro à porta. Era o coronel Veloso e a neta que chegavam para visitar o ex-comerciante.

(continua...)

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