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#Contos#Literatura Brasileira

Quem não quer ser lobo...

Por Machado de Assis (1872)

Coelho sabia perfeitamente que a riqueza deve rimar com a beleza, e ainda não compreendia naquele tempo o verso solto. Agora, porém, que se achava desenganado de achar o casamento, já se contentava com uma toante e a sobrinha do grego era justamente o que lhe convinha.

De que maneira, porém, conseguiria ele, com o auxílio de uma carta, entrar na posse dos bens de Ypsilanti?

A sua primeira idéia foi menos ambiciosa. Sabendo que o tio de Lúcia era um velho irritável e severíssimo, lembrou-se de ir ameaçar o namorado de Lúcia, e restituir-lhe a carta mediante recompensa. Este meio, porém, pareceu-lhe indigno, e foi posto de lado. Às cinco horas, nada tinha resolvido; saiu para jantar no hotel; e teve a felicidade de não encontrar conhecido. Enquanto comia, pensava no caso. Ao meio do jantar, trouxe-lhe o criado um jornal para ler.

Recusou.

— Quer alguma ilustração?

— Não quero nada.

Dizendo isto, arredou os jornais com a mão. Nesse momento, porém, leu o título de um capítulo do folhetim que um dos jornais estava publicando.

O título era: — De noite, todos os gatos são pardos.

— Ah!

Este grito soltado por Coelho chamou a atenção dos fregueses e dos criados da casa. Um destes correu assustado para ele e perguntou se se engasgara com algum osso. Coelho observou-lhe que, estando a comer ervas, era humanamente impossível engasgar-se com um osso, e pediu-lhe polidamente que o deixasse acabar de jantar.

A razão do grito é clara: o provérbio era um raio de luz.

— De noite, todos os gatos são pardos, repetia ele consigo; irei ao jardim de Lúcia em lugar do namorado... e o resto à sorte.

Tendo adotado um plano, dispôs-se a jantar com mais tranqüilidade. Comeu e bebeu à larga, pediu charutos e café, recostou-se na cadeira, e esperou que a digestão se fizesse em boa paz.

IV

NO JARDIM

Às ave-marias, estava Coelho em casa pronto e preparado para ir à entrevista. Não sabia bem o que lhe aconteceria nessa noite, mas tinha uma tal ou qual confiança no resultado da aventura.

Quase a pôr o pé na rua, surgiram-lhe no espírito duas dúvidas.

Primeiro:

Seria tarde ou cedo a hora da entrevista?

Segundo:

Não iria ele encontrar-se com o outro, visto que a carta já estava aberta, o que era sinal de que ele a houvesse lido?

Durante um quarto de hora, esteve o nosso Coelho indeciso. A empresa chegou a parecer-lhe extravagante.

— O que estou fazendo é absurdo, dizia ele sentando-se no sofá; não se faz isto na vida real, em 1863, na cidade do Rio de Janeiro. Estou simplesmente doido. Isso contado não se acredita.

Mas com estas idéias lhe foram aparecendo outras. Uma voz secreta dizia-lhe que tentasse a empresa, porque o desenlace seria completo. Coelho ainda procurou chamar a razão em seu auxílio, mas era tarde: o destino havia-se apoderado dele. O jardim tinha uma porta para a rua. Eram oito horas da noite; e, posto que a rua não fosse muito freqüentada, era ainda cedo para poder impunemente penetrar no jardim. Coelho encostou-se ao muro, e estando a porta aberta, enfiou o olhar para dentro. Descobriu duas janelas, uma fechada e outra aberta; no interior, havia luz. Entretanto, nem no jardim, nem na casa havia o menor vestígio de gente.

— Naturalmente, está ela na sala, pensava Coelho; o diabo é eu não saber a hora; pode vir alguém e descobrir-me... E se me fecham a porta? O outro talvez tenha alguma chave...

Nesse ponto, ouviu passos na calçada. Um vulto aproximava-se costeando o muro.

— É ele, pensou Coelho.

Sua primeira idéia foi recuar, ou passar para o lado oposto; mas refletiu que esta mesma prevenção podia descobrir o seu intento.

O vulto veio andando, andando, andando, até que enfrentou com ele. Parou.

Coelho estremeceu.

— Estou perdido! disse ele consigo.

O vulto meteu a mão no bolso sem tirar os olhos de Coelho, sacou um objeto que ele não viu, mas que supôs ser um ferro; tirou o chapéu e disse polidamente:

— Faz favor do fogo?

Coelho respirou.

Deu-lhe o charuto em que o homem acendeu o seu e prosseguiu viagem, sem voltar os olhos para trás.

— Sempre sou um medroso! disse Coelho consigo. Creio que se o homem me lança a mão, eu morreria de medo. Mas também o caso é arriscado; se o meu rival se apresenta, estou perdido; pelo menos, entro em uma luta desagradável.

Neste caminho das suas reflexões, Coelho passou do medo ao terror. Parecia-lhe ver já diante de si o desconhecido namorado, munido de um cacete, ou de um punhal, e ele morto ou espancado, na sala da polícia, interrogado pela autoridade, examinado pelos médicos; e no dia seguinte, o seu nome impresso em todas as folhas, e o caso contado com todos os pormenores.

Quis fugir.

Mas, de repente, sentiu um rumor no jardim.

Era a moça que chegava com estrépito, sem dúvida para dar sinal ao namorado, caso ele estivesse nas imediações.

Coelho não pôde resistir.

(continua...)

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