Por Lima Barreto (1905)
Despedimo-nos gratos à amabilidade cativante do Dr. Pedro Dutra, cujo aspecto não era, entretanto, o de quem se julga à porta de um tesouro secular.
Em torno, contida pela cerca de arame, apinhava-se a multidão sonhadora e desocupada...
Ainda a propósito do subterrâneo do Castelo, convém notar que há mais de vinte anos o Barão de Drummond, que depois se tornou dono de uma fama imorredoura pela genial descoberta do jogo do bicho, tentou a exploração do morro do Castelo, com o fim de retirar de lá os tesouros ocultos e promover por este modo o pagamento de dívida pública e... das suas.
Os trabalhos eram feitos com o emprego de minas de dinamite o que provocou protestos dos moradores do morro e conseqüentemente suspensão do perigoso empreendimento.
E ficou tudo em nada.
O Dr. Rocha Leão, que durante longos anos se tem dedicado aos estudos dos subterrâneos do Rio de Janeiro declara-nos existir documentos positivos sobre o local em que se acham tesouros dos jesuítas no Arquivo Público e na Antiga Secretaria de Ultramar, na Ilha das Cobras.
Correio da Manhã - terça-feira, 2 de maio de 1905
O SUBTERRÂNEO DO MORRO DO CASTELO
Alegrem-se os que acreditam na existência de fabulosas riquezas na galeria do morro do Castelo.
Se o ouro ainda não refulgiu ao golpe explorador da picareta, um modesto som metálico já se fez ouvir, eriçando os cabelos dos novos bandeirantes e dandolhes à espinha o frio solene das grandes ocasiões; som feio e inarmônico de ferro velho, contudo som animador que faz pregoar orquestrações de barras de ouro, cruzados do tempo do D. João VI, pedrarias policrômicas, raras baixelas de repastos régios, tudo isto desmoronando-se, rolando vertiginosamente como o cascalho humilde pelo talude escarpado da montanha predestinada.
Por agora contentemo-nos com o ferro velho; ferro cujo passado destino, ao que se diz, honra pouco a doçura de costumes dos discípulos de Loiola, ferro em cuja superfície oxidada a Academia de Medicina ainda poderá achar resquícios do sangue dos cristãos-novos.
Ainda bem que hoje em dia nem mais para os museus poderão servir as carcomidas correntes levantadas pelas mãos dos buscadores de ouro.
Agora que tanto se fala na candidatura do Sr. Bernardino de Campos seria assaz de temer que as golilhas e polés encontradas no Castelo ainda estivessem capazes de uso.
O Sr. Presidente da República lá esteve, na galeria dos jesuítas, galeria em que, diga-se a verdade, sente-se bem a sua angélica pessoa.
Foi isto ontem pela manhã, depois do café e antes da segunda inauguração do primeiro decímetro de cães.
S. Exa., acompanhado da casa civil e militar, do Dr. Frontin e de outras pessoas gratas (gratas, sr. revisor!), enveredou pelo buraco, iluminado por um foco de acetileno, que dava à galeria o tom macabro da furna de Ali Babá.
Entrou, olhou e nada disse; se o chefe de polícia estivesse presente teria exclamado como de outra vez (e desta com alguma razão): —Senhores, estamos com um vulcão por cima da cabeça.
A frase não seria de toda absurda, desde que por uma ficção poética se concedessem por um momento ao inofensivo Castelo as honras vulcânicas.
Mas, em suma, nem o Sr. Bulhões nem o Sr. Frontin, nem mesmo o Presidente da República tiveram a dita de encontrar os apóstolos de ouro de olhos esmeraldinos; e como S. Tomé, que também era apóstolo, ficam aprovisionando entusiasmo para quando os seus dedos assépticos conseguirem tocar as imagens que nos vão salvar da crise econômica.
E contem conosco para a inauguração do curso metálico.
Correio da Manhã - quarta-feira, 3 de maio de 1905
O SUBTERRÂNEO DO MORRO DO CASTELO
Mais uma galeria subterrânea foi descoberta ontem no morro do Castelo. Decididamente a velha mole geológica, esventrada pela picareta do operário descrente, despe o mistério que a envolvia e escancara o seu bojo oco e cobiçado à pesquisa dos curiosos.
Já ninguém contesta que o morro lendário, célula matriz de Sebastianópolis, encerra nas arcas de seus poços interiores, atulhados pela caliça de três séculos e meio, um alto, um elevado tesouro... bibliográfico, pelo menos.
Em toda a parte do morro, onde a picareta fere mais fundo, responde um eco grave no interior, eco que vai de galeria em galeria quebrar-se nas vastas abóbodas onde repousam os doze apóstolos de ouro.
Mais um mês, mais 8 dias, quem sabe, e o Santo Inácio de Loiola, há trezentos anos afundando na tenebrosa escuridão do cárcere calafetado, emergirá à luz dos nossos dias, todo refulgente nos doirados de sua massa fulva.
Há por força dentro do morro do Castelo uma riqueza fabulosa deixada pelos discípulos de Loiola na sua precipitada fuga sob o açoite de Pombal.
Tanto metal precioso em barra, em pó, em estátuas e objetos do culto, não podia passar despercebido à arguta polícia do ministro incréu e atilado.
(continua...)
BARRETO, Lima. O subterrâneo do Morro do Castelo. Brasília: Ministério da Educação, Domínio Público, s.d. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?co_obra=16831 . Acesso em: 08 maio 2026.