Por Lima Barreto (1911)
Augusto — Augusto Serpa de Castro — tal era o nome de seu marido — tinha um ar mofino e enfezado; alguma cousa de índio nos cabelos muito negros, corredios e brilhantes, e na tez acobreada. Seus olhos eram negros e grandes, com muito pouca luz, mortiços e pobres de expressão, sobretudo de alegria.
A mulher, mais moça do que ele uns cinco ou seis anos, ainda não havia completado os vinte. Era de uma grande vivacidade de fisionomia, muito móbil e vária, embora o seu olhar castanho claro tivesse, em geral, uma forte expressão de melancolia e sonho interior. Miúda de feições, franzina, de boa estatura e formas harmoniosas, tudo nela era a graça do caniço, a sua esbelteza, que não teme os ventos, mas que se curva à força deles com mais elegância ainda, para ciciar os queixumes contra o triste fado de sua fragilidade, esquecendo-se, porém, que é esta que o faz vitorioso.
Após o casamento, vieram residir na Travessa das Saudades, na estação.
É uma pitoresca rua, afastada alguma cousa das linhas da Central, cheia de altos e baixos, dotada de uma caprichosa desigualdade de nível, tanto no sentido longitudinal como no transversal.
Povoada de árvores e bambus, de um lado e outro, correndo quase exatamente de norte para sul, as habitações do lado do nascente, em grande número, somem-se na grota que ela forma, com o seu desnivelamento; e mais se ocultam debaixo dos arvoredos em que os Cipós se tecem.
Do lado do poente, porém, as casas se alteiam e, por cima das de defronte, olham em primeira mão a Aurora, com os seus inexprimíveis cambiantes de cores e matizes.
Como no fim do mês anterior, naquele outro, o segundo término de mês depois do seu casamento, o bacharel Augusto, logo que recebeu os vencimentos e conferiu as contas dos fornecedores, entregou o dinheiro necessário à mulher, para pagá-los, e também a importância do aluguel da casa.
Zilda apressou-se em fazê-lo ao carniceiro, ao padeiro e ao vendeiro; mas, o procurador do proprietário da casa em que moravam, demorou-se um pouco. Disso, avisou o marido, em certa manhã, quando ele lhe dava uma pequena quantia para as despesas com o quitandeiro e outras miudezas caseiras. Ele deixou o importe do aluguel com ela.
Havia já quatro dias que ele se havia vencido; entretanto, o preposto do proprietário não aparecia.
Na manhã desse quarto dia, ela amanheceu alegre e, ao mesmo tempo apreensiva.
Tinha sonhado; e que sonho !
Sonhou com a avó, a quem amava profundamente e que desejara muito o seu casamento com Augusto. Morrera ela poucos meses antes de realizar-se o seu enlace com ele; mas ambos já eram noivos.
Sonhara a moça com o número da sepultura da avó — 1724; e ouvira a voz dela, da sua vovó, que lhe dizia: "Filha, joga neste número ! "
O sonho impressionou-a muito; nada, porém, disse ao marido. Saído que ele foi para a repartição, determinou à criada o que tinha a fazer e procurou afastar da memória tão estranho sonho.
Não havia, entretanto, meios para conseguir isso. A recordação dele estava sempre presente ao seu pensamento, apesar de todos os seus esforços em contrário.
A pressão que lhe fazia no cérebro a 1embrança do sonho, pedia uma saída, uma válvula de descarga, pois já excedia a sua força de contenção. Tinha que falar, que contar, que comunicá-lo a alguém...
Fez confidência do sucedido à Genoveva. A cozinheira pensou um pouco e disse:
— Nhanhã: eu se fosse a senhora arriscava alguma cousa no "bicho".
— Que "bicho" é ?
— 24 é cabra; mas não deve jogar só por um lado. Deve cercar por todos e fazer fé na dezena, na centena, até no milhar. Um sonho destes não é por aí cousa à toa.
— Você sabe fazer a lista?
— Não, senhora. Quando jogo é o Seu Manuel do botequim quem faz " ela".
mas a vizinha, Dona Iracema, sabe bem e pode ajudar a senhora. — Chame " ela" e diga que quero lhe falar.
Em breve chegava a vizinha e Zilda contou-lhe o acontecido. Dona Iracema refletiu um pouco e aconselhou:
— Um sonho desses, menina, não se deve desprezar. Eu, se fosse a vizinha, jogava forte.
— Mas, Dona Iracema, eu só tenho os oitenta mil-réis para pagar a casa. Como há de ser?
A vizinha cautelosamente respondeu:
— Não lhe dou a tal respeito nenhum conselho. Faça o que disser o seu coração; mas um sonho desses...
Zilda que era muito mais moça que Iracema, teve respeito pela sua experiência e sagacidade. Percebeu logo que ela era favorável a que ela jogasse.
Isto estava a quarentona da vizinha, a tal Dona Iracema, a dizer-lhe pelos olhos. Refletiu ainda alguns minutos e, por fim, disse de um só hausto:
— Jogo tudo.
E acrescentou:
— Vamos fazer a lista - não é Dona Iracema?
— Como é que a senhora quer?
— Não sei bem. A Genoveva é quem sabe.
E gritou, para o interior da casa:
— O Genoveva! Genoveva! Venha cá, depressa!
(continua...)
BARRETO, Lima. O número da sepultura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16829 . Acesso em: 8 maio 2026.