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#Contos#Literatura Brasileira

As Sete Dores de Nossa Senhora

Por Coelho Neto (1898)

— Senhor, sois Vós o Messias annunciado desde os dias mais antigos de Israel. Ainda o homem dormia debaixo de ramos, perto das dunas, nos desertos, pascendo rebanhos, armado contra as algaras dos nomades e já os anjos, descendo do céu pelo cimo dos montes, falavam de Vós aos pastores, no campo ou sentados com intimidade á mesa dos patriarchas. Os prophetas apregoaram o vosso advento.

Ventura grande é a de meus olhos que conservaram luz até Vêr-vos.

Delicia immensa foi reservada aos meus labios que ainda lograram beijar-vos, Senhor.

Bemdito seja o ventre em que esperastes a voz que Vos chamou á vida.

Não foste gerado, apenas entrastes no seio humano, embebendo-vos no soffrimento como a esponja encharca-se d'agua em que mergulha.

Vindes enxugar a lagrima da angustia e estancar o sangue dos flagicios. Sois a benção divina, redemptora das almas, purificadora da terra.

Vivereis como o sol e morrereis em sangue, na cumiada, para, á voz dos anjos, reapparecerdes, depois da noite triste, mais fulgurante e mais vivo, na insurreição que será a aurora do dia. eterno.

Sois o levêdo que fará crescer o pão da misericordia.

Bem haja o tempo em que Vos revelastes.

Ai! de ti, mulher! Os maus o levarão do teu amor sem piedade de tuas lagrimas, sem pena dos teus gritos e farão delle a victima propiciatoria, sacrificando-o no altar do monte.

Os mendigos ouviram, pasmados, sem entenderem as palavras mysteriosas da prophetisa.

Mas o coração de Maria transbordava de angustia e a desventurada não se arredaria do ponto do soffrimento se José a não tirasse pelo braço, levando-a ao Tabernaculo onde deviam cumprir o preceito da Lei.

Ó a triste volta a Nazareth !

Caminhos por onde descera contente, sorrindo á felicidade, ia-os, então, trilhando a soluçar.

Pobre coração alvoroçado! Sentir agarrada a si vida tão nova e tão linda e já cuidar no doloroso fim que lhe reservava o destino !

As palavras de Simeão que a velha confirmara. . .!

Que lucra uma alma em conhecer o futuro ?

Deus, quando fez os horizontes, foi para encobrir o fim das jornadas.

A vida é um livro que deve ser folheado pagina a pagina, sem que se consulte o indice.

Conhecer o futuro é soffrer a dôr antes que se abra a chaga, é cintillar a lagrima antes que abrolhe a angustia, é vêr a noite em pleno dia, é gemer com o pungir da frecha antes que a despida o arco.

Porque a não deixaram mãi, com a esperança das mãis, que é sempre venturosa, expondo-lhe logo aos olhos o transito afflictissimo da vida do seu filho ! ?

Havia de passar o tempo dos beijos e dos sorrisos em conjecturas de tristeza, soluçando debruçada sobre um berço que já lhe parecia esquife ?

Ó precursores nefastos da agonia!

Caminhos floridos, como depressa vos mudastes em carrascaes espinhosos! Pobre mãi! d'olhos abertos sobre a genitura triste do seu amado, lá ia, sem vêr as bellezas, sem ouvir as vozes encantadoras das aves, das aguas e das folhagens, harpas dos ventos, só escutando o coração, que gemia sobre o futuro tão mal fadado do pequenino, innocente e formoso Jesus.

II

A fuga para o Egypto

Hora alta.

Pelos campos tudo era névoa. Não se ouvia, voz humana nem queixa de ovelha e, a não ser o brilho de algum fogo de aprisco, nos cerros, a noite tinha vida apenas no céu alto onde as estrellas scintillavam limpidas.

No casebre, alumiado por uma lampada de barro, o silencio era, de vez em vez, aflorado por um leve suspiro de Maria.

Ainda dormindo os cuidados não a deixavam: seus sonhos eram tristes.

Não raro despertava em sobresalto. Afflicta, chorando, estendia os braços para o berço de vime onde Jesus dormia e, extatica, d'ollios nelle cravados, ali se ficava em adoração, vendo-o tão lindo, adormecido sobre os linhos alvos, com os bracinhos abertos como um pequenino crucifixo de marfim.

Pobre coração sem socego ! Todos os rumores alvoroçavam-no.

Se uma rola perdida no colmo turturinava, a pobre mãi erguia-se de vagarinho, punha-se de joelhos, attenta, á escuta ; se o vento lavava nos campos logo, sollícita, apanhando todos os trapos que encontrava, punha-se a calafetar as frinchas para que os avisos do inverno, trazidos na respiração da noite, não, chegassem ao pequenito.

José procurava tranquillizá-la :

— Não te fies no coração, é vigia que não discerne e alarma-se com o menor ruido. Que podes temer na terra amiga em que vivemos ?

— Tudo, senhor. As mais não vivem tranquillas porque são avaras. Não ha guarda que lhes baste : a torre mais forte parece-lhes sempre fragil. Meu coração bate agora com mais força do que dantes batia para manter-me acordada e, se adormeço, logo minha alma debate-se em pesadellos. Fico como uma casa. deserta em que esvoaçam estryges. Que posso eu temer ? tudo.

E, toda a noite, de instante a instante, erguiase a criatura amorosa, d'olhos muito

abertos sobre o filho e adormecia inclinada ao berço e, ainda dormindo, machinalmente o balançava.

(continua...)

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