Por Machado de Assis (1868)
Amaro Faria foi lá duas vezes em três dias, como simples visita; mas no quarto dia sentiu já em si uma necessidade de lá voltar. Se tivesse partido para a fazenda era possível que não lhe lembrasse mais nada; mas a terceira visita produziu outra, e outras, até que no fim de quinze dias, em vez de partir para a roça, Amaro dispunha-se a residir largo tempo na corte.
Estava namorado.
Antonina merecia ser amada por um rapaz como Faria. Sem ser deslumbrantemente formosa, tinha umas feições regulares, uns olhos ardentes, e era muito simpática. Gozava de geral consideração.
O rapaz era correspondido? Era. A jovem correspondeu logo ao afeto do fazendeiro, com certo ardor que aliás o mancebo partilhava.
Quando Carvalho desconfiou do namoro, disse a Amaro Faria:
— Já sei que você tem namoro cá em casa.
— Eu?
— Sim, você.
— Pois sim, é verdade.
— Não há nada de mau nisto. Eu apenas quero dizer-lhe que tenho olho vivo, e nada me escapa. A rapariga merece.
— Oh! Se merece! Quer saber de uma coisa? Eu já abençôo aquele maldito Marcondes que me arrancou lá da fazenda, pois que eu venho achar aqui a minha felicidade.
— Então é decidido?
— Se é! Pensando bem, eu não posso deixar de casar-me. Quero ter uma vida calma, é o meu natural. Achando uma mulher que não exija modas nem bailes estou contente. Creio que esta é assim. Além disso é bonita...
— E mais que tudo discreta, acrescentou Carvalho.
— É o caso.
— Bravo! Posso avisá-la de que...
— Toque-lhe nisso...
Carvalho trocou estas palavras com Amaro na tarde em que este lá jantou. Na mesma noite, quando Amaro se despediu, disse-lhe Carvalho em particular:
— Toquei-lhe naquilo: a disposição é excelente!
Amaro foi para casa disposto a fazer no dia seguinte a sua proposta de casamento a Antonina.
E, com efeito, no dia seguinte apareceu Amaro em casa de Carvalho, como costumava, e aí, em conversa com a viúva, perguntou-lhe francamente se queria casar com ele.
— Ama-me então? Perguntou ela.
— Deve tê-lo percebido, porque eu também percebi que sou amado.
— É, disse ela com a voz um pouco trêmula.
— Aceita-me por marido?
— Aceito, disse ela. Mas repita que me ama.
— Cem vezes, mil vezes, se quer. Amo-a muito.
— Não será um fogo passageiro?
— Se eu empenho a minha vida inteira!
— Todos a empenham; mas depois...
— Começa então por uma dúvida?
— Um receio natural, um receio de quem ama...
— Não me conhece ainda; mas verá que eu digo a verdade. É minha, sim?
— Perante Deus e os homens, respondeu Antonina.
IV
Estando as coisas assim tratadas, não havendo obstáculo algum, fixou-se o casamento para dali a dois meses.
Amaro já abençoava o haver saído da fazenda, e nesse sentido escreveu uma carta a Marcondes agradecendo-lhe a tentação que exercera nele.
A carta terminava assim:
Mefistófeles do bem, eu te agradeço as tuas inspirações. Na Soledade havia tudo, menos a mulher que agora encontrei.
Como se vê, não aparecia a menor sombra no céu da vida do nosso herói. Parecia impossível que alguma coisa viesse turvá-lo.
Pois veio.
Uma tarde, entrando Amaro Faria para jantar achou uma carta com o selo do correio. Abriu-a e leu-a.
A carta dizia isto:
Uma pessoa que o viu há dias no Teatro Lírico, num camarote da segunda ordem, é quem escreve esta carta.
Há quem atribua o amor a simpatias elétricas; não tenho nada com essas investigações; mas o que me acontece faz crer que os que adotam aquela teoria tenham razão. Era a primeira vez que o via e logo, sem saber como, nem por que razão, senti-me dominada pelo seu olhar.
Passei uma noite horrível.
O senhor estava ao pé de duas senhoras, e conversava ternamente com uma delas. É sua noiva? é sua mulher? Não sei; mas seja o que for, bastou-me vê-lo assim, para odiar o objeto das suas atenções.
Talvez que haja loucura neste passo que dou; é possível, porque eu perdi a razão. Amo-o doidamente, e bem quisera poder dizer-lhe em face. É o que nunca farei. Os meus deveres obrigam-me a esta reserva; estou condenada a amá-lo sem confessar que o amo.
Basta, porém, que o senhor saiba que há uma mulher, entre todas as desta capital, que apenas o vê estremece de júbilo e de desespero, de amor e de ódio, por não poder ser sua, unicamente sua.
Amaro Faria leu e releu esta carta. Não conhecia a letra, nem podia imaginar quem fosse a autora. Soube apenas o que lhe dizia a carta; nada mais.
Passado porém esse primeiro movimento de curiosidade, o fazendeiro da Soledade guardou a carta, e foi passar a noite em casa de Carvalho, onde Antonina o recebeu com a ternura do costume.
Amaro quis referir a aventura da carta; mas receando que um fato tão inocente pudesse causar infundados ciúmes à futura esposa, não disse palavra a esse respeito. Daí a dois dias nova carta o esperava.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O carro nº 13. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.