Por Machado de Assis (1871)
Com esses e outros pretextos, que em circunstâncias especiais lhe ocorriam, conseguira o nosso Jorge Aguiar iludir a vigilância e as ordens da velha. Quem se não enganava era o pai, que o via sair muitas vezes, e enxergava a verdadeira razão dos seus numerosos convites; mas o bom Silvestre aplaudia os escrúpulos do filho e tirava deles um bom agouro para a vida política do rapaz.
III
CLARINHA
Quando Jorge Aguiar chegou a casa, D. Joaquina dava as suas últimas ordens para uma grande porção de doce de coco, e tomava conhecimento da tarefa que dera de manhã a duas crias empregadas em costurar. Silvestre jogava o gamão com o padre Barroso, enquanto Clarinha tocava ao piano umas variações alemãs.
Esta Clarinha, que entra em cena sem se fazer anunciar, era uma sobrinha de D. Joaquina, e portanto prima de Jorge. Era ainda criança, quando perdera a mãe; e o pai, que dois anos antes se apaixonara por uma italiana que viera ao Rio de Janeiro, com o infundado pretexto de que era cantora, acompanhou a dama dos seus pensamentos, e andava agora pela Itália em sua companhia. Tanto valia estar morto para a pobre órfã. D. Joaquina recebeu em casa a sobrinha e tratava-a como se fora filha sua.
Tinha esta moça uma não vulgar formosura, a que dava realce um ar de profunda melancolia. A melancolia era natural; nascida para viver em tal ou qual abastança, vira o pai esbanjar os cabedais herdados, e perdera a mãe na idade em que mais precisava dela. Depois, foi estouvadamente abandonada pelo pai e obrigada a receber os favores dos tios. Isto, reunido à índole da moça, fazia que raras vezes lhe assomasse aos lábios um riso prazenteiro.
Clarinha vingara-se dos golpes que lhe dava o seu mau destino, instruindo-se e aprendendo a trabalhar com uma docilidade que encantava a senhora D. Joaquina. Esta boa senhora dizia que a sobrinha havia de ser a herdeira da sua competência na arte de governar a casa. Efetivamente, era difícil achar em tão verdes anos — 18 contava ela — tanta seriedade, prudência, atividade e ordem. Os momentos vagos, dava-os a moça ao estudo da música e da língua francesa, porque o seu fim era poder lecionar algum dia, e achar nessa profissão os meios de subsistência de que viesse a carecer. D. Joaquina aprovava esta previsão da sobrinha, mas procurava dissipar-lhe tais receios, dizendo que enquanto ela vivesse, e ainda depois que se finasse, a sobrinha não precisaria de nada. Além disso, estava moça, e um casamento viria pô-la ao abrigo de toda a necessidade.
— Um casamento? dizia Clarinha, com ar triste; isso não é para mim.
— Por quê?
— Quem quererá casar comigo?
— Quem não for tolo, dizia a boa velha. Vejam lá se é fácil achar uma esposa como tu hás de ser!
Clarinha abanava a cabeça e ficava pensativa.
O procedimento da moça confirmava as suas disposições celibatárias. Parecia indiferente a todos os homens, não se enfeitava para ir aos bailes, quando ia a eles não dançava, raras vezes chegava à janela, e era de todo surda aos louvores que a sua beleza lhe granjeava. Usava ordinariamente roupas escuras por lhe parecerem cores tristes; os modos eram modestos e acanhados; falava pouco, e, como disse, raras vezes ria. Estava ela a tocar piano na sala, a pedido do padre Barroso, que era doido por música, e dizia com aquele ar que a natureza só concede aos gamonistas intrépidos, que era bom suavizar musicalmente as derrotas do comendador Aguiar. O certo é que o dono da casa ganhava poucas partidas ao padre.
— Dois e ás, disse o comendador, lançando os dados e batendo numa das tábulas do padre.
— Tire o cavalo da chuva! respondeu o padre, chocalhando os dados no copo. Agora é que vai ver o que são elas. Preciso de umas quadras.
— Homem, jogue e deixe-se de conversa.
O padre lançou os dados.
— Quadras! disse ele.
Silvestre Aguiar coçou o nariz, enquanto o implacável padre, depois de lhe bater em duas tábulas, empalmava o lenço encarnado na mão, e assoava-se com estrépito.
— Isto sem rapé não vai, observou ele.
— O moleque ainda não viria? disse Aguiar. Não sei que descuido foi este meu de não ter comprado ontem.
Clarinha cessou de tocar; ia a levantar-se para saber se efetivamente o moleque não tinha voltado, mas o tio disse-lhe que não era preciso.
Nesse momento, entrou Jorge na sala; beijou a mão ao pai, apertou a do padre Barroso, e foi cumprimentar a prima.
— Então? disse o padre a Silvestre em voz baixa; por que não casam estes dois?
— Se eles quiserem, não lhes ponho dúvidas, respondeu Silvestre; mas são coisas que se não obrigam. Creio que não se namoram. Demais, o rapaz anda a desasnar-se.
— Há de me perdoar, disse o padre, cuido que anda a perder-se. Olhe, que estes hábitos de mocidade rara vez se perdem. Coíba os desvarios de Jorge; não lhe hão de dar bom proveito.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caminho de Damasco. Jornal das Famílias, 1871.