Por Machado de Assis (1868)
- Quando lhe perguntei por que motivo ninguém o via há um mês, respondeu-me que estava passando por uma transformação, e que do Gomes que foi só ficará lembrança. Parece incrível, mas o rapaz fala com convicção.
- Não creio; aquilo é alguma caçoada que nos quer fazer. Que novidades há?
- Nada; isto é, tu é que deves saber alguma coisa.
- Eu, nada...
- Ora essa! não foste ontem ao Jardim?
- Fui, sim; houve uma ceia...
- De família, sim. Eu fui ao Alcazar. A que horas acabou a reunião?
- Às quatro da manhã...
Vasconcelos estendeu-se numa rede, e a conversa continuou por esse tom, até que um moleque veio dizer a Vasconcelos que estava na sala o Sr. Gomes.
- Eis o homem! disse Batista.
- Manda subir, ordenou Vasconcelos.
O moleque desceu para dar o recado; mas só um quarto de hora depois é que Gomes apareceu, por demorar-se algum tempo em baixo conversando com Augusta e Adelaide.
- Quem é vivo sempre aparece, disse Vasconcelos ao avistar o rapaz.
- Não me procuram...., disse ele.
- Perdão; eu já lá fui duas vezes, e disseram-me que havias saído.
- Só por grande fatalidade, porque eu quase nunca saio.
- Mas então estás completamente ermitão?
- Estou crisálida; vou reaparecer borboleta, disse Gomes sentando-se.
- Temos poesia... Guarda debaixo, Vasconcelos...
O novo personagem, o Gomes tão desejado e tão escondido, representava ter cerca de trinta anos. Ele, Vasconcelos e Batista eram a trindade do prazer e da dissipação, ligada por uma indissolúvel amizade. Quando Gomes, cerca de um mês antes, deixou de aparecer nos círculos do costume, todos repararam nisso, mas só Vasconcelos e Batista sentiram deveras. Todavia, não insistiram muito em arrancá-lo à solidão, somente pela consideração de que talvez houvesse nisso algum interesse do rapaz.
Gomes foi portanto recebido como um filho pródigo.
- Mas onde te meteste? que é isso de crisálida e de borboleta? Cuidas que eu sou do mangue?
- É o que lhes digo, meus amigos. Estou criando asas.
- Asas! disse Batista sufocando uma risada.
- Só se são asas de gavião para cair...
- Não, estou falando sério.
E com efeito Gomes apresentava um ar sério e convencido. Vasconcelos e Batista olharam um para o outro.
- Pois se é verdade isso que dizes, explica-nos lá que asas são essas, e sobretudo para onde é que queres voar.
A estas palavras de Vasconcelos, acrescentou Batista:
- Sim, deves dar-nos uma explicação, e se nós que somos o teu conselho de família, acharmos que a explicação é boa, aprovamo-la; senão, ficas sem asas, e ficas sendo o que sempre foste...
- Apoiado, disse Vasconcelos.
- Pois é simples; estou criando asas de anjo, e quero voar para o céu do amor.
- Do amor! disseram os dous amigos de Gomes.
- É verdade, continuou Gomes. Que fui eu até hoje? Um verdadeiro estróina, um perfeito pândego, gastando às mãos largas a minha fortuna e o meu coração. Mas isto é bastante para encher a vida? Parece que não...
- Até aí concordo... isso não basta; é preciso que haja outra cousa; a diferença está na maneira de...
- É exato, disse Vasconcelos; é exato; é natural que vocês pensem de modo diverso, mas eu acho que tenho razão em dizer que sem o amor casto e puro a vida é um puro deserto.
Batista deu um pulo...
Vasconcelos fitou os olhos em Gomes:
- Aposto que vais casar? disse-lhe.
- Não sei se vou casar; sei que amo, e espero acabar por casar-me com a mulher a quem amo.
- Casar! exclamou Batista.
E soltou uma estridente gargalhada.
Mas Gomes falava tão seriamente, insistia com tanta gravidade naqueles projetos de regeneração, que os dous amigos acabaram por ouvi-lo com igual seriedade.
Gomes falava uma linguagem estranha, e inteiramente nova na boca de um rapaz que era o mais doudo e ruidoso nos festins de Baco e de Citera.
- Assim, pois, deixas-nos? perguntou Vasconcelos.
- Eu? Sim e não; encontrar-me-ão nas salas; nos hotéis e nas casas equívocas, nunca mais.
- De profundis... cantarolou Batista.
- Mas, afinal de contas, disse Vasconcelos, onde está a tua Marion? Pode-se saber quem ela é?
- Não é Marion, é Virgínia... Pura simpatia ao princípio, depois afeição pronunciada, hoje paixão verdadeira. Lutei enquanto pude; mas abati as armas diante de uma força maior. O meu grande medo era não ter uma alma capaz de oferecer a essa gentil criatura. Pois tenho-a, e tão fogosa, e tão virgem como no tempo dos meus dezoito anos. Só o casto olhar de uma virgem poderia descobrir no meu lodo essa pérola divina. Renasço melhor do que era...
- Está claro, Vasconcelos, o rapaz está doudo; mandemo-lo para a Praia Vermelha; e como pode ter algum acesso, eu vou-me embora...
Batista pegou no chapéu.
- Onde vais? disse-lhe Gomes.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O segredo de Augusta. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1868.