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#Comédias#Literatura Brasileira

O protocolo

Por Machado de Assis (1862)

Eu! Essa agora não é má!

ELISA

Para que seguiu quem passava quieta pela rua? Supunha abrandá-la com as suas mágoas?

VENÂNCIO

Acompanhei-a, não para abrandá-la, mas para servi-la; viver do rasto de seus pés, das migalhas dos seus olhares; apontar-lhe os regos a saltar, apanhar-lhe o leque quando caísse... (cai o leque a Elisa. Venâncio Alves apressa-se a apanhá-lo e entrega-lho) Finalmente...

ELISA

Finalmente... fazer profissão de presumido!

VENÂNCIO

Acredita deveras que o seja?

ELISA

Parece.

VENÂNCIO

Pareço, mas não sou. Presumido seria se eu exigisse a atenção exclusiva da fada da

noite. Não quero! Basta-me ter coração para amá-la, é a minha maior ventura!

ELISA

A que pode levá-lo esse amor? Mais vale sufocar no coração a chama nascente do que condená-la a arder em vão.

VENÂNCIO

Não; é uma fatalidade! Arder e renascer, como a fênix, suplício eterno, mas amor eterno também.

ELISA

Eia! Ouça uma... amiga. Não dê a esse sentimento tanta importância. Não é a fatalidade da fênix, é a fatalidade ... do relógio. Olhe para aquele. Lá anda correndo e regulando; mas se amanhã não lhe derem corda, ele parará. Não dê corda à paixão, que ela parará por si.

VENÂNCIO

Isso não!

ELISA

Faça isso... por mim!

VENÂNCIO

Pela senhora! Sim... não...

ELISA

Tenha ânimo!

Cena II

VENÂNCIO ALVES, ELISA, PINHEIRO

PINHEIRO

(a Venâncio)

Como está?

VENÂNCIO

Bom. Conversávamos sobre coisas da moda. Viu os últimos figurinos? São de apurado gosto.

PINHEIRO

Não vi.

VENÂNCIO

Está com um ar triste...

PINHEIRO

Triste, não; aborrecido... É a minha moléstia do domingo.

VENÂNCIO

Ah!

PINHEIRO

Ando a abrir e fechar a boca; é um círculo vicioso.

ELISA

Com licença.

VENÂNCIO

Oh! minha senhora!

ELISA

Faço anos hoje; venha jantar conosco.

VENÂNCIO

Venho. Até logo.

Cena III

PINHEIRO, VENÂNCIO ALVES

VENÂNCIO

Anda então em um círculo vicioso?

PINHEIRO

É verdade. Tentei dormir, não pude; tentei ler, não pude. Que tédio, meu amigo!

VENÂNCIO

Admira!

PINHEIRO

Por quê?

VENÂNCIO

Porque não sendo viúvo nem solteiro...

PINHEIRO

Sou casado...

VENÂNCIO

É verdade.

PINHEIRO

Que adianta?

VENÂNCIO

É boa! adianta ser casado. Compreende nada melhor que o casamento?

PINHEIRO

O que pensa da China, Sr. Venâncio?

VENÂNCIO

Eu? penso...

PINHEIRO

Já sei, vai repetir-me o que tem lido nos livros e visto nas gravuras; não sabe mais nada.

VENÂNCIO

Mas as narrações verídicas...

PINHEIRO

São minguadas ou exageradas. Vá à China, e verá como as coisas mudam tanto ou quanto de figura.

VENÂNCIO

Para adquirir essa certeza não vou lá.

PINHEIRO

É o que lhe aconselho; não se case!

VENÂNCIO

Que não me case?

PINHEIRO

Ou não vá à China, como queira. De fora, conjecturas, sonhos, castelos no ar, esperanças, comoções... Vem o padre, dá a mão aos noivos, leva-os, chegam às muralhas... Upa! estão na China! Com a altura da queda fica-se atordoado, e os sonhos de fora continuam dentro: é a lua-de-mel; mas, à proporção que o espírito se restabelece, vai vendo o país como ele é; então poucos lhe chamam celeste império, alguns infernal império, muitos purgatorial império!

VENÂNCIO

Ora, que banalidade!

PINHEIRO

Parece-lhe?

VENÂNCIO

E que sofisma!

PINHEIRO

Quantos anos tem, Sr. Venâncio?

VENÂNCIO

Vinte e quatro.

PINHEIRO

Está com a mania que eu tinha na sua idade.

VENÂNCIO

Qual mania?

PINHEIRO

A de querer acomodar todas as coisas à lógica, e a lógica a todas as coisas. Viva, experimente e convencer-se-á de que nem sempre se pode alcançar isso.

VENÂNCIO

Quer-me parecer que há nuvens no céu conjugal?

PINHEIRO

Há. Nuvens pesadas.

VENÂNCIO

Já eu as tinha visto com o meu telescópio.

PINHEIRO

Ah! se eu não estivesse preso...

VENÂNCIO

É exageração de sua parte. Capitule, Sr. Pinheiro, capitule. Com mulheres bonitas é um consolo capitular. Há de ser o meu preceito de marido.

PINHEIRO

Capitular é vergonha.

VENÂNCIO

Com uma moça encantadora?...

PINHEIRO

Não é uma razão.

VENÂNCIO

Alto lá! Beleza obriga.

PINHEIRO

(continua...)

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