Por Machado de Assis (1866)
— Conforme os olhos com que se vê. Para mim é detestável.
— Admira. Sabe que sempre tive grande desejo de ver a Europa. Para os filhos da América é uma espécie de sonho, uma ambição, que me parece natural.
— E realizável. Alguns dias de mar somente.
— Já agora é preciso educar meu filho, disse Madalena afagando a cabeça do menino.
— Que idade tem ele?
— Seis anos.
— Está muito desenvolvido.
— Muito.
Madalena proferiu esta palavra sorrindo e contemplando amorosamente o rosto do filho. Quando levantou os olhos deu com os de Luís Pinto, que estavam fitos nela, e logo os desceu, algum tanto comovida. O silêncio que se seguiu foi curto. Levantou-se o oficial para despedir-se.
— Não sei se a verei ainda muitas vezes, disse ele.
— Por quê? perguntou Madalena com interesse.
— O oficial de marinha nada pode afiançar a este respeito. Amanhã mesmo posso embarcar...
— Mas se não embarcar?
— Virei vê-la, se mo permitir.
— Com todo gosto.
Luís Pinto saiu. Madalena ficou algum tempo calada e pensativa, como evocando o passado, que a presença daquele homem lhe fazia despertar. Por fim sacudiu a cabeça, como expelindo de si aquelas memórias tão doces e ao mesmo tempo tão amargas, e beijou com ardor a testa do filho.
Durante uma semana não se avistaram os nossos dois ex-namorados. Ao cabo desse tempo acharam-se ambos em casa do comendador, onde havia reunião. Luís Pinto esperava esse dia para examinar a impressão que teria produzido na viúva aquela ausência um tanto longa para quem tivesse debaixo das cinzas uma faísca do extinto fogo; mas a curiosidade de Madalena era igual à dele e o olhar de ambos foi uma interrogação sem resposta.
Ao oficial pareceu melhor sondar-lhe mais diretamente o coração. Acabada uma valsa, dirigiram-se para uma saleta menos freqüentada.
— Quer descansar um pouco?
— Dois minutos apenas.
Sentaram-se no sofá, que ficava perto de uma janela. Luís Pinto quis fechar a janela.
— Não, disse Madalena, não me faz mal; sento-me aqui deste lado, e gozo ao mesmo tempo a vista da lua, que está deliciosa.
— Deliciosa! respondeu o oficial maquinalmente.
— Mas o senhor parece que preferia dançar...
— Eu?
— Vejo que gosta de dançar.
— Conforme a ocasião.
— Eu gosto, confesso; meu estado não me permite fazer o que eu fazia outrora. Mas danço alguma coisa. Pareço-lhe ridícula, não é?
Luís Pinto protestou contra semelhante idéia. A viúva continuou a falar da dança, da noite e da reunião. De quando em quando caíam os dois em silêncio mais ou menos prolongado, o que deu idéia a Luís Pinto de fazer a seguinte observação entre risonho e sério:
— Calamo-nos às vezes como se fôramos dois namorados.
— É verdade, respondeu Madalena, sorrindo.
— Quem sabe? murmurou o oficial a medo.
A viúva sorriu só, mas não respondeu. Levantou-se; o oficial deu-lhe o braço. Passearam algum tempo, mais tempo do que lhes pareceu a eles, porque a conversa interessava-os realmente, até que ela se retirou para casa. Caminhando, Luís Pinto fez a reflexão seguinte:
— Por que hei de estar com meias palavras? Não é melhor decidir tudo, cortar por uma dificuldade que aliás não existe? Ambos somos livres; tivemos um passado... Sim, é necessário dizer-lhe tudo.
A resolução era mais de assentar que de executar. Luís Pinto tentou três vezes falar francamente no assunto, mas em todas as três vezes não passou do intróito. Não em comoção, era frouxidão. Talvez o coração não ajudasse a língua como convinha. Pela sua parte, a viúva compreendera a intenção do oficial de marinha, mas não lhe estava bem ir lhe ao encontro. Auxiliá-la, sim; mas também ela sentia a língua frouxa.
Um dia, porém, depois de um jantar em casa de terceiro, Luís Pinto achou uma porta aberta e meteu-se por ela. Achavam-se um pouco separados da outra gente, posto que na mesma sala. Não há nada como um bom jantar para dar animação a um homem, e fazê-lo expansivo, quaisquer que sejam as circunstâncias ou a irresolução própria. Ora, Luís Pinto jantara largamente, apesar de namorado, donde se pode concluir que amar é uma coisa, e comer é outra, e que não sendo a mesma coisa o coração e o estômago, ambos podem funcionar simultaneamente.
Não ouso dizer o estado de Madalena. De ordinário, as heroínas de romance comem pouco ou não comem nada. Ninguém admite, em mulheres, ternura e arroz de forno. Heloísa, e mais existiu, nunca soube de certo o que era recheio de peru, ou mesmo trouxas d’
Estavam os dois como disse a falar de coisas estranhas ao coração quando Luís Pinto arriscou a pergunta seguinte:
— Nunca pensou em casar outra vez?
Madalena estremeceu um pouco.
— Nunca! disse ela daí a alguns instantes.
— Nem casará?
(continua...)
ASSIS, Machado de. O pai. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1866.