Por Aluísio Azevedo (1891)
Ele escutava-a, imóvel e pálido como um cadáver. Não se lhe percebia nas feições a luta homicida que se lhe travava na alma.
—Se me amas... disse, quase em segredo cumpre com o que te vou pedir. Volta para Deus, minha desgraçada irmã, todo o teu amor de mulher! ... Ama-o! ama-o extremosamente, e no seu peito de pai encontrarás perene manancial de consolações! Sê honesta, e serás feliz! ... Se tens medo de ti mesma e dos que te cercam, recolhe-te a um asilo religioso e faze-te monja! E principalmente nunca mais tornes aqui, nunca mais me procures ver, se queres possuir o meu amor de irmão e o meu reconhecimento de sacerdote. Vai, e não tornes nunca mais. Adeus.
Dito isto, voltou-lhe as costas e afastou-se vagarosamente, como tinha vindo.
— Ângelo! exclamou ela com a voz suplicante.
Ele virou-se, pôs o dedo nos lábios, impondo silencio, e saiu.
Alzira, ainda de joelhos, conteve-se um instante; depois ergueu-se e precipitou-se de carreira para alcançá-lo.
Mas a veneranda figura de Ozéas cortou-lhe a passagem, surgindo-lhe de improviso pela frente.
A formosa cortesã estacou defronte daquelas barbas brancas, abaixando a cabeça e cravando os olhos no chão.
Ozéas, sem dizer palavra, alongou o braço, apontando-lhe a saída, e quedou-se imóvel nessa postura, até que ela desapareceu, lenta e silenciosamente.
Por esse tempo Ângelo ganhava o seu quarto e, caindo de joelhos aos pés da Virgem, agradecia-lhe a vitória que ele alcançara sobre os seus próprios sentidos, postos naquele dia em tamanha provação.
— Ó mãe de bondade! dizia ele com as mãos cruzadas no peito; fazei com que ela nunca mais volte a ter comigo, que nunca mais soluce sobre os meus joelhos!... Se soubesses, mãe querida, como lutei para não tomá-la nos braços e estancar-lhe com a minha boca os seus dolorosos soluços de amor!... Se soubesses como o meu coração chorava enquanto meus lábios a repeliam!... Oh, por piedade! que ela nunca mais, nunca mais me volte a ver!
E, deixando cair o rosto sabre os pés da Virgem, pôs-se a rezar com todo o fervor e reconhecimento da sua alma dolorida.
Alzira, entretanto, ao sair da capela, metera-se no carro que a esperava lá fora, c atirara-se para o fundo das almofadas, a soluçar aflita. O carro tinha de seguir para Raismes; ela mandou tocar para Paris.
Ia com o coração despedaçado. Já lhe não restava a menor esperança!... Ângelo a repudiava... Ângelo, o primeiro homem que ela amava, repelia-a, como quem repele um réptil venenoso!
Todos os sonhos daquele seu primeiro amor ruíram por terra, antes mesmo de bem vingados.
Oh! como nesse momento Alzira desejava ser pura! Como desejava ser casta!...
Doía-lhe fundo aquele tranqüilo desprezo com que o padre rejeitara os seus sinceros protestos de amor, acendendo-lhe, sem saber, o desejo da luta para conquistá-lo.
Se Ângelo a tivesse recebido com palavras duras, se a enxotasse da sua presença como o arcanjo do Paraíso enxotou a Eva pecadora, é possível que ela não levasse tão longe o empenho de ser amada por ele; mas só a idéia daquela frieza, daquela inalterável superioridade de ente puro e forte, que não teme solução de espécie alguma, só isso era o bastante para levá-la a não desistir da campanha e lutar até vencer ou cair morta.
— Sim! disse ela, cerrando os punhos, desesperada. Agora, dê por onde der, sofra quem sofrer, hei de vencê-lo, hei de possuí-lo, ou buscarei na. morte o completo esquecimento desta fatal paixão!
SEGUNDA PARTE
Si nous révions toutes les nuits la même chose, elle nous affecterais peut-être autant que les objets que nous voyons tous les jours.
PASCAL — Pensées.
CAPÍTULO I
Emurchecer de uma flor
Seis meses são decorridos depois que Ângelo foi para Monteli, e poucas cousas extraordinárias se têm passado com as personagens que figuram nesta amorosa narrativa.
O Dr. Cobalt, durante esse tempo, apresentou à Academia Francesa um livro de fisiologia e de filosofia, revolucionando a ciência de então com as suas novas idéias materialistas. A obra fez grande alvoroço e foi condenada a um tempo pela Sorbona, pelo Papa e pelo Parlamento. Mas ele, sustentado entusiasticamente pelos discípulos de Moraud, Picard e Hecquet, não desanimou e prometeu voltar a campo, armado agora para a luta com um novo trabalho, ainda mais formidável que o primeiro, em que se propunha provar que as famosas convulsões, provocadas pelo milagroso diácono Paris, no cemitério de Saint-Médard, nada mais eram do que fenômenos nervosos da histeria, moléstia que só então começou a ser estudada e conhecida em França.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A mortalha de Alzira. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16527 . Acesso em: 9 mar. 2026.