Por Aluísio Azevedo (1897)
Ambrosina era uma mocinha pálida, de cabelos negros e crespos, lábios sensuais, dentes muito brancos, mãos finas, compridas e transparentes. Um todo linfático. Tinha os ombros estreitos, levemente contraídos, como por uma constante sensação de frio, os braços longos e fracos.
Aos doze anos ainda se não lhe percebia que havia de ter seios, mas em compensação, possuía já um par de olhos retintos, bem guarnecidos e tão belos, que faziam, só por si, toda ela ficar bonita.
O comendador babavase pela filha e não media dinheiro para lhe dar o que ele chamava uma boa educação: o belo mestre de francês, mestre de piano, mestre de canto, mestre de dança, mestre de gramática e de retórica.
Ambrosina, entretanto, logo que começou a fazerse rapariga, davase com mais amor do que tudo isso à leitura dos romances franceses. Sabia de cor a Dama das Camélias, o Rafael, Olímpia de Clêves, Monsieur de Carmors e outras quejandas encantadoras vias de corrupção. Muita vez tinham que lhe guardar o jantar, porque ela não queria largar o diabo do livro!
O pai dizialhe:
— Olha lá, minha jóia! não vá isso fazerte mal!... mas não se animava a contrariála.
Ela não lhe dava ouvidos, e aparecia às vezes visivelmente excitada, com os olhos lacrimosos, o ar cheio de fastio, de má vontade e de maus modos.
A mãe acudialhe com repreensões, porém o pai intervinha a favor da filha, e acabava sempre, para a esta tranqüilizar de todo, lhe prometendo trazer um vestido novo e quatro velhos romances de Alexandre Dumas.
— Você está mas é estragando a pequena com essas bobagens! dizia Genoveva ao marido, com uma voz mole, como se saísse de uma boca de manteiga. Eu nunca tive desses mimos!...
— E é justamente por isso que é quem é! replicava o comendador, pondo em sua frase uma intenção sutil e profunda. Le monde marche, minha rica senhora! e se fôssemos a ser o que foram nossos avós, você seria a estas horas... nem sei mesmo o quê!...
— Se eu fosse o que foi minha avó, seria muito boa lavadeira. Minha mãe dizia constantemente que minha avó era a melhor lavadeira do Rocio Pequeno!
— Ora, não esteja aí a dizer blasfêmias! repreendia o pai de Ambrosina a olhar para os lados. A senhora não sabe ao certo o que é, quanto mais o que foi sua avó torta! Ora; pelo amor de Deus, dona Genoveva!
A Genoveva afastavase, sem ânimo de protestar contra os remoques do marido.
— O diacho do homem sempre tinha uns repentes! Credo!
E assim cresceu Ambrosina fezse mocetona, entre os enervantes zelos do pai e as inércias do amor de Genoveva.
Reuniase gente quase todas as noites em casa do comendador, e faziase um cavaco antes do chá. Ambrosina solfejava ao piano; as visitas fumavam ou bebiam cerveja, e o dono da casa falava de política ou de negócios.
Entre essa gente destacavase D. Ursulina, casada com um negociante inglês, que se tornava muito notável entre os de sua raça, porque jamais ia além do primeiro copo. Tinha o casal duas filhas, uma das quais fazia as delícias dos rapazes namoradores, e a outra os cuidados da mãe, que enxergava nela, com olhos experimentados, todas as qualidades precursoras de um eterno celibato.
A namoradeira chamavase Emília e acudia o chistoso nome de Nhanhã Miló; a outra era pura e simplesmente Eugênia. Uma bonita; e a outra simpática.
Miló era travessa, alegre, faceira; tinha os olhos vivos, a língua solta, o pé ligeiro e um moreninho delicioso. A outra era tristonha e pálida, de olhos azuis, os movimentos compassados, os gestos frios; entretinhase esta em casa a ler revistas inglesas, à noite, antes do chá, enquanto Miló cantarolava uma modinha ao piano ou ia para o portão da chácara ver quem passava na rua. Emília puxara à mãe; Eugênia saíra ao pai.
Da família, a mais tola era Ursulina, cuja conservação dos seus fugitivos dotes de beleza a trazia em constante e ridículo sobressalto.
O marido nunca dera por isso. Fora sempre um verdadeiro negociante inglês — seco, áspero, sem bigode, falando português a socos, e mostrandose sistematicamente indiferente a tudo que não fosse de interesse prático.
À noite lia o Times ou jogava O wist com Eugênia, a sua filha predileta.
Ainda convém citar dois tipos da roda fiel do comendador:
Um era o Reguinho. Rapaz de vinte e tantos anos, filho de um fazendeiro estúpido e rico, que lhe fornecia dinheiro para a pândega. Muito conhecido; todos sabiam das suas asneiras e até de uma ou outra estrangeirinha, mas ninguém lhe ia às mãos por isso.
A sua linha mais acentuada, a sua mania, a sua moléstia, era a mentira. O Reguinho mentia por hábito, mentia por índole, por gosto; mentia, porque mentia.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.