Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Então o pretinho que passava pela rua gritando – Ii! – fazia pagar por um preço relativamente fabuloso o pote d’água que levava à cabeça, e isso era um tormento para os pobres e um motivo de lamentações para os ricos. Se não compreendeis bem a significação desse grito dos vendedores d’água, que ainda se ouvia no Rio de Janeiro em uma época muito recente, eu vo-lo explico. Logo depois da fundação da cidade de S. Sebastião, eram os índios ou gentios que vendiam água aos colonos e a anunciavam na sua língua, bradando: – Ig! Ig! – palavra que foi corrompida mais tarde pelos africanos escravos.
Mas, ainda pior do que a ruína dos aquedutos, aconteceu imediatamente que se desenvolvesse uma terrível epidemia que espalhou o terror e o luto no seio da bela Sebastianópolis. Era uma febre de caráter maligno, acompanhada de afecções cerebrais e da medula, e que, quando não terminava com a morte dos doentes, deixava a estes um legado cruel de paralisias e de deformidade.
Chamou-se então a essa epidemia – zamperini ou zamparina, como dizia o povo, que foi quem assim a denominou.
Permiti que eu interrompa por alguns momentos a minha narração, para dizer duas palavras a respeito de certas denominações populares dadas a algumas epidemias.
Como as moléstias epidêmicas atacam a muitos indivíduos ao mesmo tempo, o povo, que não entende a tecnologia médica e vê naquele fato alguma coisa que se parece com a moda, dá ao mal reinante o nome que está mais em moda.
Assim, em 1779, chamou à epidemia que ceifava a população, zemperini, porque então se penteavam os cabelos e se usavam diversos objetos e vestidos à Zamperini, que foi aquela célebre cantora veneziana que chegou a Lisboa em 1770, levada pelo notário apostólico da nunciatura, e a quem no teatro da rua dos Condes iam todos aplaudir, notavelmente o padre Macedo, que lhe dirigiu sonetos e odes como qualquer outro pecador inspirado o faria.
Assim, também chamou-se em 1847, polka, e em 1851, shottisch, nomes de duas danças muito em voga nesse tempo, a duas epidemias que apareceram.
No princípio do nosso século, se não estou em erro, desenvolveu-se na cidade do Rio de Janeiro uma catarral tão violenta que os afetados à força de tossir acabavam por corcovar-se; a essa moléstia, po rém, não deu o povo um nome da moda, e chamou-a muito apropriadamente carcunda.
Talvez me acusem de prolixo e divagador por entrar em explicações que não têm relação alguma com a história do Passeio Público. É uma injustiça: convém guardar as lembranças que vou registrando, e que podem para o futuro prevenir confusões possíveis. Por exemplo, não se poderia dar o caso de se confundirem as carcundas catarrais com os carcundas políticos, denominações que foram ambas empregadas neste século? Pelo menos, os absolutistas devem me agradecer o empenho com que esclareci um fato que livra a qualquer deles de ser confundido com uma catarral, e que era muito possível que acontecesse.
Fique, pois, bem determinado e sabido: a nossa população nunca até hoje se lembrou de fazer uma alusão política, quando trata de alcunhar alguma epidemia e, entretanto, se o fizesse, não era novidade no mundo, porque em França já o povo deu o nome de um ministro antipático a uma moléstia epidêmica que reinou em Paris. Não digo que andasse bem procedendo assim, não; mas é impossível deixar de reconhecer que às vezes aparecem ministros e ministérios que são tão funestos ao país como a peste mais flageladora e mortífera.
Prossigo sem mais demora a narração que interrompi.
A cidade do Rio de Janeiro estava, pois, em uma situação duplamente dolorosa. Mas, se alguém então desanimou não foi por certo Luís de Vasconcelos, que deu prontas e enérgicas providências para o abastecimento d’água, assim como tomou medidas higiênicas para combater a zamperini, mandou socorrer os enfermos pobres, e ainda teve tempo e força para ordenar o começo dessa série de obras importantes que perpetuaram o seu nome.
Luís de Vasconcelos reunia a grandes qualidades de administrador maneiras tão afáveis, tanta cortesia e bondade, que soube depressa conquistar as simpatias do povo. Em breve estas simpatias se transformaram na mais bem fundada estima e consideração; porque o ativo e infatigável vice-rei empreendeu grandes trabalhos em proveito da cidade, e para levá-los ao cabo soube cercar-se de todos os homens esclarecidos e capazes de coadjuvá-lo que encontrou no Rio de Janeiro.
Um dos seus prediletos era o mestre Valentim.
Observar-me-eis que eu não disse ainda quem era o mestre
Valentim. Tendes razão.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.