Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)
Os dias foram parecendo a Luciano pesados e tardos, e o máo humor do estudante tornou-se bastante sensível para que um dia seus pais lh'o fizessem notar, sorrindo.
Esse sorriso foi um tormento novo ; Luciano suspeitou que seus pais adivinhavão a causa do seu mal-estar, e revoltando-se contra essa idéa, que offendia o seu orgulho, resolveu-se a ostentar uma alegria que estava longe do seu coração, e a procurar no movimento e no trabalho uma distracção.
Ganharão com isso os doentes pobres das circumvizinhanças, a quem Luciano prestou com ardor os soccorros da sua sciencia; e com isso perderão os veados e as pacas dos bosques vizinhos, que forão perseguidos pelo estudante, que se tornou em um novo e infatigavel Nemrod.
Mas, pobre orgulhoso! a idéa de Dionysia, a lembrança e o nome da Sra. D. Dionysia forão perseguil-o no meio das suas nobres occupações de medico dos pobres e das suas caçadas fatigadores.
Na caça, as longas horas passadas em solidão na espera erão forçosamente aproveitadas pela imaginação dominadora, irresistivel, que traçava aos olhos do estudante quadros quasi nunca verdadeiros, e onde sempre apparecia a senhora dona Dionysia zombando dos desprezos do estudante, e essa imagem chegava ás vezes a ser formosa, e podia sem inconveniente parecer tal, visto que Luciano já nem de leve se lembrava dos traços physionomicos da sua antiga noiva.
Nas visitas dos doentes pobres a perseguição da senhora dona Dionysia tornou-se muito mais séria: parecia haver um accordo geral para recommendar a filha de Guilherme ao coração de Luciano.
Uma vez, o estudante encontrara abatido pela enfermidade um pobre velho a quem a miseria privava de todos os meios de tratamento, e quando no dia seguinte, ao fazer-lhe a segunda visita, lhe levava todos os soccorros precisos, achou o velho em um excellente leito, e sem mais experimentar a menor privação.
Quem precedera o estudante naquella obra de caridade?... Dionysia.
Uma infeliz e pobre viuva, que tinha perdido havia dous mezes seu marido e único protector, morrera dando á luz uma menina. Luciano chegara tarde para soccorrer a mãe, e nem pudera depois cuidar da recemnascida, porque esta tinha sido logo adoptada... por Dionysia.
Na humilde cabana a que chegava, o estudante, emquanto procedia cuidadoso ao exarne de um doente, ouvia perto o nome de Dionysia, abençoado pelos rudes, mas agradecidos lavradores, que a chamavão.
— O anjo dos pobres.
Dominando-se ainda, o estudante mostrava-se indifferente aos elogios que ouvia; nunca dirigia uma pergunta sobre Dionysia; mas a sua imaginação recolhia pressurosa tudo quanto a voz da gratidão espalhava a respeito delia.
Um dia perguntárão-lhe :
— Tem visto a moça bonita?...
— Quem é a moça bonita. ?...
— Ora ! é D. Dionysia.
— Não, respondeu Luciano rispidamente.
— Pois olhe, Sr. doutor, é tão virtuosa como bella : onde ella chega, entra o encanto dos olhos ea felicidade do coração.
— Que me importa!
— Ainda hontem vimol-a passeiar a cavallo ! como estava linda ! levava um chapéo e um vestido... A mulher do Almeida, que sabe de modas como uma franceza, diz que aquella roupa chama-se vestido de amazona ; mas, seja amazona ou não seja, a moça arrancava os olhos da gente ! e como é boa cavalleira! o seu cavallo corre que parece um passarinho que vóa ! ah! senhor doutor ! V. S. e aquella moça...
O estudante imterrompeu o panegyrista de Dionysia, e retirou-se apressado.
De volta para casa, respirando o ar livre, entregue a si mesmo, e pela primeira vez seriamente reflectindo, consultou o seu coração e estremeceu reconhecendo que não sentia mais a antiga repugnância pela senhora dona Dionysia, e que, pelo contrario, se pudesse ao menos vel-a sem ser visto, fal-o-hia com verdadeiro prazer.
Não amava Dionysia ; mas...
Este mas era o segredo, a historia e a contradicção do seu orgulho...
Luciano teve medo de amar a filha de Guilherme.
Como continuar a desprezal-a, se ninguém mais se lembrava de o querer obrigar a amal-a?...
Agora, porém, como ir procural-a e vêl-a sem o abatimento do seu orgulho?...
E aquelle sorriso de seus pais ? .. confessar-se arrependido e vencido não era fraqueza indigna de um estudante ?...
Luciano ufanava-se de ter sido notavel estudante de logica, e determinou raciocinar sobre o seu estado com todos os preceitos da arte de reflectir : raciocinou pois por duas horas inteiras, e no fim dellas reconheceu espantado que dos mesmissimos principios tinha tirado cincoenta consequencias diversas e oppostas.
O estudante ainda não comprehendia que a logica do coração é
mil vezes uma inextricavel meada de inconsequencias.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os romances da semana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43487 . Acesso em: 30 jan. 2026.