Por José de Alencar (1872)
- O senhor não vai?
- A senhora fica zangada comigo?
- Oh! não; muito agradecida ao contrário!
Soltando essa frase cheia de ironia, a moça deixou o Guimarães atordoado; e voltou-se para sua mestra, que lia nesse momento um número da Illustrated London News.
- Mrs. Trowshy, a senhora hoje há de jantar perto do Sr. Guimarães.
Se ainda restava ainda alguma hesitação no espírito do filho do procurador, desvaneceu-se de súbito e completamente diante daquela terrível ameaça. Jantar perto da inglesa significava o mesmo que ficar-lhe hipotecado pelo resto da tarde e por toda a noite. Para evitar essa calamidade, Guimarães entendeu que não lhe restava outra saída senão obedecer ao capricho da menina partindo em busca do colega.
- Já vou, D. Guida!
- Ah! Esquecia-me dizer-lhe que seu colega tem um amigo, um companheiro; é preciso convidar a ambos.
- Sim, senhora; cumprirei a sua ordem. Mas não me condene a jantar perto da mestra.
- Se trouxer quem o substitua! disse Guida rindo.
- Fica a meu cuidado!
Guimarães montou a cavalo e partiu com o Daniel. Todo esse episódio não escapou, nem ao Bastos recostado à janela, nem ao Nogueira que passeava no jardim. O último não vira o diálogo trocado entre a Guida e o Guimarães; mas bastou a partida deste, acompanhado pelo criado da casa, para excitar-lhe apreensões.
Animado pela ausência dos dois competidores, só em campo, o Bastos, mais desassombrado de espírito, descobriu afinal o meio de solicitar a atenção da filha do milionário:
- D. Guida! disse ele com a voz um pouco trêmula.
- Chamou-me? Perguntou-lhe a moça voltando-se.
- Como há de querer então os brincos?
- Que brincos, Sr. Bastos?
- Pois não me pediu no almoço para mandar fazer-lhe uns brincos do feitio dessa flor? Replicou o corretor rubro como um tenor sem voz quando dá um dó de nariz.
- É verdade. Desculpe-me; não me lembrava assim de repente. Depois lhe darei uma flor para servir de modelo.
- Esta que a senhora tem?
- Esta ou outra, é indiferente, observou a moça com intenção.
Bastos perturbou-se, e nesse intervalo a atenção de Guida se desviou para outro lado, de modo que achou-se o corretor outra vez na mesma posição cruel em que estava anteriormente, recostado à janela e atado ao seu acanhamento, que era para ele um rochedo de Tântalo.
No meio das paixões que se agitavam em torno dela, Guida conservava, devido a seu recato e altivez natural, uma grande serenidade. Quando alguma vez uma palavra mais significativa ou uma alusão mais direta a vinha provocar, ela a afastava com a sua ironia, ou com essa expressão de indiferença que perturbava o Bastos.
Assim permanecia estranha à luta de que era objeto. Sua alma pura planava como um astro sobre as vagas que a ambição ou o amor sublevavam naqueles corações. As bonanças, como as tempestades, desse oceano, se eram produzidas por sua influência celeste, não a atingiam: ela brilhava sempre com o mesmo esplendor e a mesma limpidez.
Em princípio, suas palavras, seus olhares, seus menores gestos, eram estudados por adoradores, como por indiferentes, e interpretados ao sabor de cada um. A moça incomodava-se muito com isso; retraía-se; tornava-se cada vez mais reservada, constrangendo sua jovialidade e franqueza. Não obstante o círculo em que vivia, obstinava-se em dar a quanto ela dizia ou fazia, uma significação oculta misteriosa.
Uma noite sucedeu dançar duas quadrilhas com o mesmo par; tão indiferente lhe era o sujeito que não se lembrou de já ter dançado com ele no princípio da partida. O fato foi muito comentado, até por algumas amigas, que viram nele uma preferência manifesta. Guida aproveitou a ocasião para de uma vez pôr termo a essa insistência que a afligia.
- Tenho muito tempo para ser moça. Agora ainda sou criança e quero sê-lo até dezoito anos. Não cuido nessas coisas de que os outros tanto se ocupam; só penso em divertir-me. Para mim é indiferente o par com quem danço, desde que for um homem delicado, de boa sociedade. E assim quanto ao mais.
Estavam presentes Nogueira, Bastos, Guimarães, e muitos outros apaixonados ocultos. Momentos depois as palavras da moça, repetidas em vários grupos, eram conhecidas por todos.
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.